editorial

Estupros coletivos, a barbárie generalizada

Há no país uma disseminação desse tipo perverso de violência entre os mais jovens, impulsionados, sobretudo, pelas facilidades tecnológicas

Publicidade
Carregando...

Convidada para ir ao apartamento de um colega da escola, em Copacabana, uma jovem de 17 anos ouviu, no elevador, que fariam “algo diferente”. Não imaginava que seria vítima de cerca de uma hora de violência sexual e agressões físicas praticada por cinco pessoas. Em emboscada semelhante, uma menina de 12 anos chegou à casa de um namorado, também no Rio de Janeiro, e foi surpreendida por mais sete indivíduos que a esperavam para cometer o estupro coletivo. A armadilha criada para atrair dois meninos de 7 e 10 anos, em São Paulo, foi soltar pipa. As crianças entraram em um imóvel para pegar as linhas e foram violentadas por cinco conhecidos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Os sucessivos roteiros de atrocidades têm estarrecido o país ao longo dos últimos dois meses – o caso mais recente é o da jovem agredida por oito algozes, investigado pela Polícia Civil do Rio de Janeiro desde a última quarta-feira. À repulsa provocada ao se ouvir os relatos soma-se a percepção de que semelhanças nos três crimes sinalizam a existência de um problema muito maior: a disseminação desse tipo perverso de violência entre os mais jovens, impulsionados, sobretudo, por facilidades tecnológicas.


O fator idade é o mais evidente: todas as vítimas são menores de idade e, conforme as apurações, dos 18 acusados, 13 também não chegaram à maioridade. São muitos os brasileiros nessa faixa etária que passam por essa experiência traumática. Dados do Ministério da Justiça indicam que o número de crianças e adolescentes vítima de violência sexual no país pulou de 19.496 casos em 2015 para 59.366 em 2025 – um aumento de 200%.


Quanto ao estupro coletivo, registros do Ministério da Saúde revelam a ocorrência de em média 15 casos por dia entre 2022 e 2025, sendo que, em 63% das ocorrências, as vítimas eram crianças e adolescentes do sexo feminino. Não se pode perder de vista que os números não revelam toda a perversidade a que a juventude é submetida, considerando se tratar de crime com alto índice de subnotificação. Além da vergonha e da culpa que silenciam as vítimas, há outras violências que dificultam a punição dos culpados. No caso dos meninos violentados em São Paulo, há relatos de que vizinhos pressionaram os familiares a não irem à delegacia temendo represálias por parte de faccionados da região.


O perfil etário dos agressores é uma informação que ainda precisa ser analisada metodologicamente, mas, acompanhando o aumento de notícias de operações policiais que apreendem jovens por envolvimento em ações de violência sexual, sobretudo na internet, pode-se inferir que se trata de um fenômeno em curso no Brasil. No submundo da internet, alicia-se as vítimas, se produz material de abusos e se comercializa conteúdos repugnantes.


Não à toa, dois dos três casos citados no começo deste texto foram gravados, e, no mais recente deles, um dos adolescentes suspeitos vendeu a gravação por R$ 5, segundo a delegada que investiga o caso. Ainda de acordo com Fernanda Caterine, os agressores aparecem na gravação se vangloriando por ter cometido o ato. Comportamento parecido com o estupro coletivo da jovem de 17 anos em zona nobre do Rio. Onde se aprende que violentar uma pessoa é motivo de comemoração? Ou que tamanho crueldade é apenas “zoeira”, como alegou o adulto que violentou os meninos na zona leste paulista?

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


Pais, professores, amigos, autoridades, vizinhos, agora perplexos com o noticiário, precisam se dar conta de que uma onda de falta de empatia e excesso de violência ameaça as gerações mais jovens e, principalmente, precisam dar respostas efetivas a essa barbárie generalizada. Apenas endurecer as penas não vai frear esse movimento hediondo. A solução passa pela promoção de valores voltados à dignidade humana, sobretudo das meninas e das mulheres.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay