editorial

Encontro decisivo em Washington

O mais efetivo no encontro de hoje de Lula e Trump tende a ser a construção de um arcabouço seguro para as relações bilaterais nos próximos anos

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O encontro de hoje na Casa Branca, com Donald Trump, tende a ser o último grande ato de política externa do presidente Lula no terceiro mandato presidencial. E se desenrola em um cenário pleno de armadilhas, em mais de um caminho.

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Antes de tudo, Casa Branca e Planalto divergem pública e expressamente em torno do conflito no Oriente Médio. Ainda que não seja tema de interesse vital e imediato para a diplomacia brasileira, a ofensiva militar iniciada por Estados Unidos e Israel contra o Irã no último dia de fevereiro tem impacto de médio e longo prazo para o Brasil: as cotações internacionais do petróleo, com repercussão sobre os preços internos dos combustíveis e, por tabela, dos transportes, dos alimentos e de outros itens do cotidiano.


Se contariam para o governo brasileiro em qualquer circunstância, os solavancos no mercado energético ganham peso extraordinário na antessala de uma campanha presidencial que se anuncia acirrada, renhida. Mais que tudo: salvem novidades por ora imprevisíveis, os vaivéns na conjuntura internacional, em particular no que diz respeito aos combustíveis, passam a ser, desde já, uma variável potencialmente decisiva para o veredicto das urnas.


Parece improvável que entrem efetivamente em debate os conflitos armados em andamento no mundo, sobretudo o que opõe os EUA e Israel ao Irã. Possivelmente, Lula poderá fazer menção ao Líbano sob ataque de Israel, em nome da numerosa população de origem sírio-libanesa radicada no Brasil. Dificilmente, porém, as conversações irão adiante de uma apresentação protocolar de preocupações.


O mais efetivo no encontro de hoje na Casa Branca tende a ser a construção de um arcabouço seguro para as relações bilaterais nos próximos anos. E, do ponto de vista de Lula, considerando a meta de conquistar, em outubro, a reeleição para um novo mandato presidencial, a primeira metade desse novo período será cumprida com Donald Trump à frente da Casa Branca.


As turbulências do novo mandato de Trump, com a ofensiva comercial expressa no tarifaço, lembram que a relação bilateral com os EUA é dado inescapável e central para a política externa brasileira. No atual campo governista, em particular dentro do PT, setores pressionam o Planalto por uma postura de mais confronto, sobretudo em relação à situação no Oriente Médio. Até aqui, Lula e o assessor especial Celso Amorim parecem apontar na direção de uma abordagem balizada pelo pragmatismo.


Em ano eleitoral, particularmente, e à parte das pretensões próprias do presidente e de seu campo político, a condução da política externa exige visão de Estado. Mais ainda no que diz respeito a um parceiro incontornável, como os EUA, o chefe de Estado é chamado a sobrepor os interesses nacionais de longo prazo a eventuais conveniências próprias e partidárias.


Desde a posse de Trump para o novo mandato, sucederam-se altos e baixos nas relações diretas com Lula. Primeiro, o tarifaço. Depois, a "química" pessoal. Agora, o calendário eleitoral, lá e cá, acena com a possibilidade de novos solavancos.

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Daqui para a virada do ano, passando pelo encontro de hoje, tudo pode se passar nos contatos de governo a governo. Mas a geografia rasa e a geopolítica são implacáveis: em Brasília ou em Washington, a relação bilateral entre os dois polos políticos e econômicos das Américas segue como parâmetro inapelável.

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