Tiradentes e a nossa ilusão de liberdade
A liberdade nunca foi gratuita. Não nasceu de consenso, nem de generosidade. Foi construída em meio a conflitos, disputas e perdas concretas
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Pedro de Medeiros
Filósofo, engenheiro mecânico pela PUC e pós-graduado em gestão de pessoas
Chamamos de liberdade aquilo que aprendemos a não questionar. No 21 de abril, lembramos Tiradentes como símbolo de um ideal pelo qual se arriscou a própria vida. Mas talvez o desconforto comece justamente aí: celebramos a liberdade como herança, enquanto vivemos dentro de limites que já deixamos de perceber. A ilusão não está na falta de liberdade, está na certeza de que ainda a temos inteira.
A liberdade ocupa um lugar central nas sociedades ocidentais. Está nas leis, nos discursos, nas promessas institucionais e na forma como nos definimos como sociedade. Repetimos que ela é um direito fundamental, quase uma evidência. E talvez por isso mesmo tenha se tornado invisível. O que é constantemente afirmado raramente é examinado. O princípio permanece intacto no papel, enquanto a prática aprende a contorná-lo.
Mas a liberdade nunca foi gratuita. Não nasceu de consenso, nem de generosidade. Foi construída em meio a conflitos, disputas e perdas concretas. A história não registra apenas ideias, mas o custo de sustentá-las. Tiradentes, independentemente da forma como sua imagem foi construída ao longo do tempo, permanece como um lembrete incômodo de que a liberdade exige enfrentamento, não como discurso, mas como ruptura.
O problema é que nem toda restrição de liberdade se apresenta de forma evidente. Não são apenas regimes autoritários ou censuras explícitas que a reduzem. Há formas mais discretas e, por isso mesmo, mais eficazes. Não proíbem diretamente, mas limitam progressivamente. Não retiram direitos de forma declarada, mas esvaziam suas condições de existência.
A corrupção não impede formalmente a liberdade, mas restringe oportunidades concretas. A falta de educação não elimina escolhas, apenas impede que elas existam de forma real. A injustiça não nega direitos no discurso, apenas os distribui de maneira desigual. E lideranças públicas frágeis ou oportunistas não precisam agir de forma direta para reduzir a liberdade; basta manter as estruturas funcionando mal o suficiente para que ela se desgaste. Não há ruptura visível. Há acomodação.
E então surge uma inversão silenciosa. Defendemos a liberdade como valor absoluto, enquanto convivemos com suas limitações como parte natural da vida. Celebramos símbolos, repetimos princípios, preservamos datas e, ao mesmo tempo, nos adaptamos a um espaço de possibilidades cada vez mais estreito. A liberdade permanece como narrativa, enquanto sua prática se torna condicionada.
Talvez o sentido mais incômodo do 21 de abril não esteja na memória de um passado distante, mas na dificuldade de reconhecer o presente. Não na ausência declarada de liberdade, mas na forma como suas restrições se tornam aceitáveis, até deixarem de ser percebidas como restrições.
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A liberdade não costuma desaparecer de forma abrupta. Ela se ajusta, se reorganiza, se dilui nas estruturas até parecer compatível com qualquer realidade. Aos poucos, o limite deixa de ser exceção e passa a ser regra, não por imposição evidente, mas por aceitação progressiva. O maior risco não é perder a liberdade. É parar de perceber que ela já foi reduzida.