Vigor da misericórdia
Priorizar a misericórdia é corrigir, com vigor, adoecimentos e ações perversas que moram, até inconscientemente, no coração humano
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DOM WALMOR OLIVEIRA DE AZEVEDO
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
“A misericórdia não é sinônimo de fraqueza”, advertiu o papa Francisco, durante a vivência do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Trata-se de uma verdade que merece alcançar, mais fortemente, muitos contextos deste tempo contaminado por tantas perversidades. O caminho da misericórdia permite convencer-se da importância da reconciliação e do perdão, vivências inegociáveis na conquista da paz em todos os níveis e instâncias. Trata-se de uma dinâmica com força terapêutica para quem a pratica, e particularmente significativa para quem é destinatário da misericórdia. A desconsideração do caminho da misericórdia é refletida nas relações interpessoais, com desestruturações que impactam as famílias, as amizades, levam a manipulações nas instituições, corroem o sentido da gratidão. O distanciamento desse caminho é expresso nas violências da sociedade global, contaminada por tantas perversidades, desde aquela que alimenta a indiferença em relação à miséria dos pobres, até a calamidade das guerras que vitimam inocentes, a partir do exercício tirânico e inconsequente do poder. Um poder que pode meter medo nos fracos e nos submissos, mas encontra resposta à altura na profecia dos promotores da paz, alicerçados na nobreza da cidadania ou na clara consciência do papel da fé na semeadura da paz.
Avançar no caminho da misericórdia, aprendendo suas lições para adequadamente praticá-la, é compromisso cidadão e testemunho de fé. Se um coração não repatria sentimentos e valores da misericórdia, corre sério risco de inspirar posturas raivosas, discriminatórias. Permite-se impor escolhas egoístas e pautar-se pelo ressentimento. As consequências são desastrosas no cotidiano, com impactos nos relacionamentos e nos rumos institucionais. A misericórdia não é fraqueza. Ao invés disso, tem um vigor próprio que permite alcançar experiência espiritual elevada e, consequentemente, conquistar a sabedoria que alicerça um agir nobre, construtivo. Aprender sobre misericórdia é um horizonte de riquezas humanísticas e espirituais sem risco algum para a promoção da justiça e fidelidade à verdade e na prática da justiça.
Os cristãos sabem que a referência maior e perfeita da misericórdia é Jesus Cristo, rosto da misericórdia do Pai. Ele revela plenamente a misericórdia de Deus, Ele é o centro do mistério da misericórdia, fazendo com que ela se torne a lei fundamental no coração de cada pessoa. Um remédio eficaz no combate às violências, um corretivo e equilíbrio nas circunstâncias de irascibilidade tão presente no dia a dia. Priorizar a misericórdia é corrigir, com vigor, adoecimentos e ações perversas que moram, até inconscientemente, no coração humano. Ora, a misericórdia será sempre maior do que qualquer pecado, chamados todos a colocar a porta da misericórdia no próprio coração. Assim, derrubar muralhas construídas por maus sentimentos, feridas não curadas. Diferentemente das marcas comuns da severidade, a misericórdia cura. A conhecida narrativa evangélica do bom samaritano é sempre exemplar e instigante. Aquele estrangeiro, além de ter cuidado do homem que caíra nas mãos de ladrões e assaltantes, levou-o a uma hospedaria e, antecipadamente pagando as despesas, recomendou: “Cuida dele”.
“Cuida dele” é expressão que traduz um compromisso que une todas as pessoas: cuidar do semelhante, servi-lo em todas as circunstâncias, fruto de uma força que vem de Jesus Ressuscitado, pela ação do Espírito Santo, mestre de santidade e de verdadeiro humanismo. E assim, permear o mundo com a misericórdia, em gestos e palavras, para ajudar a construir nova civilização, marcada pela lógica do amor. O amor é a onipotência de Deus. Inspira saber que Deus mostra seu poder exatamente quando perdoa e se compadece. Deus é paciente e misericordioso, fazendo sua bondade prevalecer sobre o castigo e sobre a destruição. A Palavra de Deus, em diversas circunstâncias, revela o segredo de como não comprometer a justiça e alcançar o patamar maior, mais amplo e duradouro da misericórdia. É um amor que nasce de um sentimento profundo feito de ternura e compaixão, de indulgência e perdão. O salmo 136 canta: “Eterna é a sua misericórdia”, em referência ao amor de Deus.
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A força própria da misericórdia, longe de ser a lógica permissiva de se fazer “vistas grossas”, é um movimento com propriedades para mudar rumos da história, curar corações aquebrantados, restaurar laços e fazer a experiência esperançosa e consoladora do amor. Jesus é o ápice das lições de misericórdia, reveladas especialmente nos diálogos com seu Pai. O Mestre movia-se sempre pela compaixão, uma compaixão que dá tempero e luminosidade à racionalidade. A misericórdia transluz o olhar do misericordioso e o provê com uma sabedoria que revela a justiça. A misericórdia é a porta da fraternidade, o caminho inequívoco dos diálogos, a fonte inesgotável da sabedoria, o gosto saboroso da consideração e respeito aos semelhantes, ainda que sejam inimigos. O vigor da misericórdia responsabiliza todos com o bem de todos, com a compaixão pelos pobres e fragilizados. A misericórdia é a arquitrave da vida da Igreja, disse o papa Francisco. Não pode ser diferente na vida dos filhos e filhas de Deus. A cultura atual ganhará muito, rumos novos e surpreendentes, ao retomar o sentido e o vigor da misericórdia. O começo está sempre no amor, caminho primordial para a paz. Com o vigor da misericórdia pode-se fazer uma nova aposta humanística, uma revitalização da multilateralidade na política, reconciliação com inimigos, conquista de uma alegria duradoura no coração humano, promoção de um desenvolvimento integral na economia. Inteligente e sábio é buscar o vigor da misericórdia.