editorial

Nosso lugar na desordem global

Incidir diretamente na crise em andamento está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira

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As primeiras 24 horas desde o anúncio do cessar-fogo bilateral entre Estados Unidos e Irã bastaram para esclarecer ao menos um ponto, entre tantas incertezas relacionadas ao conflito: cada passo à frente deve ser valorizado, até comemorado. Mas é imprudente ver em qualquer avanço algum tipo de garantia para uma paz sólida e duradoura.

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A guerra iniciada no último dia de fevereiro tem raízes muito mais profundas que os itens negociados entre os dois lados, com intermediação do Paquistão. Incluem terceiras e quartas partes, como Israel e o Líbano. E, na ausência de documentos firmados e publicados, dão margem a controvérsias - como as que se instalaram, ontem, em torno dos bombardeios israelenses maciços sobre a capital libanesa.


Não se trata, à primeira vista, de episódios que possam, por si sós, pôr a perder a trégua negociada a duríssimas penas, depois de 40 dias de hostilidades. Mas eles ilustram e dão dimensões aos obstáculos colocados no caminho da diplomacia.


Em cada ponta do conflito, injunções domésticas pesam sobre as decisões tomadas nas instâncias de comando. EUA e Israel traçam metas e fazem cálculos com as urnas no horizonte. Em situações distintas, Donald Trump e o premiê Benjamin Netanyahu têm o futuro político vinculado ao veredicto dos eleitores. No Irã, está em jogo o futuro de uma nova liderança, que ascende para substituir os dirigentes abatidos em bombardeios - mártires, na constelação ideológica do islã xiita.


No Líbano, a destruição material, as perdas humanas e o deslocamento em massa de população fazem estremecer a frágil convivência entre as confissões religiosas que compõem o mosaico da população - um terreno social riscado por falhas geológicas que produziram 15 anos de guerra civil, entre 1975 e 1990.


Uma apreciação ligeira e panorâmica dos desafios entrelaçados basta para que se compreenda a fragilidade do processo em curso. Visto da distância conveniente em que nos encontramos, o cenário parece gritar pela urgência de um sistema de relações internacionais capaz de circunscrever disputas, conter escaladas de violência e, sobretudo, inibir seu alastramento.


Foi sob esses lemas que a Organização das Nações Unidas (ONU) nasceu, em 1945, entre escombros e cicatrizes da Segunda Guerra Mundial. Depois de oito décadas, quatro delas aprisionadas nos meandros da Guerra Fria, o sistema multilateral concebido para disciplinar as relações internacionais dá sinais de esgotamento.


Incidir diretamente na crise em andamento está, claramente, além do alcance da diplomacia brasileira. Mas, até pela relativa equidistância entre as partes envolvidas, o país tem diante de si a oportunidade de se fazer ouvir justamente no que diz respeito à arquitetura do sistema ONU. Como porta-voz da América Latina e do chamado Sul Global, uma parte do mundo que participa apenas da distribuição dos danos - notadamente, a montanha-russa nos mercados globais -, o Brasil tem aportes a fazer nas discussões destinadas a dar forma e expressão a uma ordem internacional multipolar.

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Nela, e apenas nela, pode haver caminho para que não recaiam sobre todos os ônus da insanidade cometida por uns poucos.

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