Editorial

Saúde encarece, e o paciente paga

Em um país onde grande parte da população ainda depende de renda instável, a elevação contínua dos preços de medicamentos aprofunda barreiras de acesso

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A partir de hoje, os brasileiros voltam a conviver com uma rotina conhecida – e temida. Os preços dos medicamentos sofrerão novo reajuste anual autorizado pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed), com variações que podem ir de 1,13% a 3,81%, a depender do nível de concorrência de cada produto. Ainda que o percentual estimado seja considerado um dos menores dos últimos anos, a alta reafirma um problema estrutural: o custo contínuo da saúde no Brasil recai, de forma desigual, sobre o bolso dos pacientes.
O modelo brasileiro estabelece tetos de preços, não aumentos obrigatórios. Na prática, isso significa que os laboratórios têm autonomia para aplicar ou não o reajuste autorizado, dentro de um limite regulatório. O cálculo leva em conta inflação, produtividade da indústria e fatores de mercado, numa fórmula que tenta equilibrar sustentabilidade econômica e acesso. Ainda assim, a realidade cotidiana mostra que, mesmo quando os índices são considerados “moderados”, o impacto acumulado sobre as famílias é significativo.
Para pacientes crônicos – hipertensos, diabéticos, pessoas com doenças autoimunes ou raras –, o reajuste não é uma abstração econômica, mas um custo inevitável e recorrente. Diferentemente de outros bens de consumo, medicamentos não são passíveis de adiamento. A cada aumento, ainda que pequeno em termos percentuais, amplia-se o risco de abandono de tratamento, de redução de doses por conta própria ou de substituições inadequadas. O que para o mercado representa ajuste técnico, para milhões de brasileiros se traduz em dilema cotidiano entre saúde e orçamento.
A desigualdade agrava esse cenário. Em um país onde grande parte da população ainda depende de renda instável, a elevação contínua dos preços de medicamentos aprofunda barreiras de acesso. Programas de desconto e a concorrência de genéricos ajudam, mas não resolvem o problema estrutural, sobretudo em segmentos com baixa competição –  justamente aqueles com menor margem de reajuste autorizado, mas frequentemente com preços já elevados e pouca alternativa terapêutica.
É nesse ponto que se impõe uma reflexão incômoda sobre o papel das grandes farmacêuticas. Trata-se de um setor global altamente lucrativo, com margens robustas e forte presença no mercado brasileiro. Ainda que a regulação estabeleça limites, a decisão final sobre repassar ou não os aumentos ao consumidor permanece nas mãos das empresas. Em um contexto de ganhos bilionários, cabe questionar até que ponto é razoável transferir, ano após ano, o peso integral dos reajustes para quem depende desses produtos para viver.
Há espaço, portanto, para uma atuação mais responsável do setor. Programas ampliados de acesso, políticas de preços diferenciadas e maior transparência na formação dos valores são caminhos possíveis para mitigar os efeitos sociais desses reajustes. Não se trata de inviabilizar a indústria, mas de reconhecer que medicamentos não são mercadorias comuns – são bens essenciais, cuja precificação envolve, necessariamente, uma dimensão ética.
Ao governo, por sua vez, cabe mais do que a definição anual de índices. A regulação de preços, embora importante, mostra-se insuficiente diante da complexidade do problema. É preciso fortalecer políticas públicas de acesso, ampliar a oferta de medicamentos pelo Sistema Único de Saúde e garantir que a lógica de mercado não se sobreponha ao direito à saúde. A própria estrutura da Cmed, baseada em tetos e fórmulas técnicas, poderia ser revista para incorporar de forma mais direta os impactos sociais dos reajustes. E, além disso, prestar um melhor serviço aos pacientes, que enfrentam longas filas para resgatar medicamentos em farmácias do SUS.
O aumento autorizado para 2026 pode ser, em números, um dos mais baixos da década. Mas a questão central permanece intocada. Em um país marcado por desigualdades profundas, até mesmo pequenos reajustes podem ter efeitos desproporcionais. E, enquanto o acesso a medicamentos seguir condicionado à capacidade de pagamento, o direito à saúde continuará sendo, para muitos, mais uma promessa do que uma realidade.

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