editorial

A arte que sobrevive ao autor

Vivemos na era da superexposição e da transparência compulsória

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Dois anonimatos artísticos famosos tratados de modo diferente nos últimos dias deixaram claro o choque que existe entre a curiosidade jornalística e o valor do mistério na criação. De um lado, a agência de notícias Reuters cravou a confirmação da verdadeira identidade do provocador artista urbano britânico Banksy. Embora o nome civil do muralista já circulasse em fóruns e especulações há anos, o “furo” impõe agora a chancela incontestável do jornalismo tradicional. De outro, o lançamento, nesta quinta-feira (26/3), do aguardado documentário “A Febre Elena Ferrante” adota um caminho diametralmente oposto. A produção mergulha no estrondoso sucesso da escritora italiana sem, contudo, violar o pacto de anonimato que a autora da tetralogia napolitana mantém com seus leitores desde a sua estreia literária em 2011, com “A amiga genial".

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O contraste entre as duas abordagens levanta um debate ético espinhoso: até que ponto o interesse jornalístico justifica arrancar a máscara de quem escolheu não tê-la? A agência de notícias, ao justificar sua decisão editorial sobre Banksy, apega-se à premissa do interesse público e da responsabilização. O argumento sustenta que um indivíduo cuja obra movimenta dezenas de milhões de dólares no mercado de artes, interfere em leilões e influencia o debate político global não pode operar indefinidamente sob a conveniência das sombras.


“As pessoas e instituições que buscam moldar o discurso social e político estão sujeitas a escrutínio, responsabilização e, às vezes, desmascaramento. O anonimato de Banksy – uma característica deliberada, voltada para o público e lucrativa de seu trabalho – permitiu que ele operasse sem tal transparência”, explicou a Reuters. É uma justificativa válida sob a ótica estrita da transparência comercial e do registro histórico.


Contudo, a cultura não é feita apenas de cifrões e certidões de nascimento. A postura adotada pelos realizadores de “A Febre Elena Ferrante” demonstra que é plenamente possível dissecar a magnitude de um fenômeno artístico respeitando a fronteira imposta por seu criador. Para Ferrante – como ela mesma já declarou por escrito –, os livros, uma vez prontos, não precisam mais de seus autores. A ausência de um rosto obriga o público a mergulhar na essência do texto, livre das simpatias, antipatias ou preconceitos que a figura pública do escritor fatalmente evocaria.


Mas vivemos na era da superexposição e da transparência compulsória, onde o culto à personalidade de quem cria tornou-se quase um pré-requisito para o consumo daquilo que é criado. Nesse ecossistema de celebridades instantâneas, a escolha voluntária pelo anonimato firmou-se, ironicamente, como a mais ruidosa das rebeldias. Quando um artista decide apagar o próprio rosto para deixar apenas a sua obra sob os holofotes, ele desafia a lógica mercantil do espetáculo.

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Em última análise, a ânsia por desvendar o RG de um gênio criativo reflete um fetiche limitador da nossa época. Descobrir o nome do homem que pintou meninas com balões e ratos anarquistas nos muros da Palestina não altera um milímetro a contundência da crítica estampada no concreto. Conhecer a verdadeira face da mulher que descreveu a complexa e crua amizade entre Lila e Lenu não muda a profundidade emocional daquelas páginas. O jornalismo, por ofício, sempre buscará a verdade dos fatos, e esse é o seu papel nas democracias. Porém, no terreno da criação artística, a sociedade precisa reaprender a aceitar que a única verdade que realmente importa, e que resistirá ao teste do tempo, é a obra em si e o impacto irremovível que ela causa em nossa sociedade – e não quem estava por trás dela.

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