editorial

O conflito que ninguém se importa

A invisibilidade do conflito no Sudão é um reforço ao pensamento colonialista e racista do mundo ocidental

Publicidade
Carregando...

O mundo assiste a um momento de extrema tensão internacional diante das diferentes guerras em curso – a mais recente delas entre Israel e Estados Unidos, em uma ponta; e o Irã em outra. No entanto, um conflito em específico está longe dos holofotes da opinião pública e da mídia em geral: aquele que envolve o Sudão, país localizado ao sul do Egito, a oeste do Mar Vermelho.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover


Desde 2019, quando o ex-ditador Omar Al-Bashir foi retirado do governo local após quase 30 anos no poder, o Sudão vive uma nova onda do conflito interno – esta mais recente com enorme influência externa. A guerra civil local já dura, ao menos, desde os anos 1950.


Com a saída do ex-presidente, um governo de transição assumiu a gestão do país africano, mas um golpe de estado em 2021 dissolveu esse comitê, colocando duas forças diferentes em conflito: o exército local, liderado pelo general Abdel Fattah al-Burhan; e o grupo paramilitar Forças de Apoio Rápido (RSF) – milícias que existem desde o século 18, antes conhecidas como Janjaweed – financiado, principalmente, pelos Emirados Árabes Unidos.


Como bem escreveu o sociólogo Serge Katembera Rhukuzage – conhecido como Serge Katz, residente no Brasil e de raiz congolesa –, o conflito atual não deve ser classificado como uma "guerra civil" e merece muito mais espaço na opinião pública, diante de um genocídio que já soma dezenas de milhares de mortos e cerca de 12 milhões de deslocados.


Como terceiro maior país do continente africano, o Sudão tem uma história marcada por intensas divergências entre os povos – uma delas resultou na independência do Sudão do Sul em 2011, a nação mais jovem do mundo atualmente. O território do Sudão foi alvo de expansão de áreas comerciais pelos egípcios e demais países árabes ao longo da história, com exploração do trabalho escravo e da riqueza mineral local, como bem explicou o historiador e pesquisador Rafael Almeida ao podcast Café da Manhã, da Folha de S. Paulo.


Recorrer a esse contexto histórico é fundamental para entender o atual momento do Sudão. Diante de uma ditadura em crise (a queda de Omar Al-Bashir em 2019), outras potências do mundo islâmico (cerca de 90% dos sudaneses seguem o islamismo sunita) aproveitaram a citada fragilidade para ter acesso às riquezas minerais locais.


Entre elas, aparecem, sobretudo, os Emirados Árabes Unidos, que negam qualquer envolvimento no conflito. Na prática, porém, financiam as milícias rebeldes para ter acesso ao ouro do Sudão, além das terras agrícolas abastecidas pelo Rio Nilo – diante de uma necessidade histórica de importação de alimentos por parte dos países do Golfo Pérsico.


É a partir desse enorme investimento dos Emirados Árabes Unidos que os rebeldes conseguem desafiar o exército local – além de um inventário bélico de décadas de guerra civil. O conflito passa pela capital Cartum e, principalmente, pela região de Kordofan (rica em ouro). Tudo isso evidencia, como bem explica o sociólogo Serge Katz, que não se trata de um conflito civil, mas de uma guerra entre o Sudão e os Emirados Árabes Unidos, com total anuência de outros países interessados.


Diante de tal cenário, que tira tantas vidas direta e indiretamente (pela fome e pela falta de acesso à saúde mínima), é lamentável que o mundo ocidental ignore completamente a guerra do Sudão. Ainda que este editorial seja apenas introdutório para uma questão mais do que secular, chama atenção como o poder dos Emirados Árabes Unidos tenha mais força que uma crise humanitária de tamanha procedência.


Chama atenção, ainda, como esse mesmo poder, obtido a partir do petróleo, é capaz de desviar os olhos da opinião pública por meio de investimento em eventos e agremiações esportivas, como os milionários elencos de Manchester City, Paris Saint-Germain e Newcastle no futebol, todos financiados diretamente pelos Emirados Árabes ou por aliados. Sem falar em etapas da Fórmula 1, lutas de boxe e torneios de tênis neste território.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia


A invisibilidade do conflito no Sudão é um reforço ao pensamento colonialista e racista do mundo ocidental, que vai muito além da Conferência de Berlim e da exploração que a seguiu. Mesmo após suas libertações, os países da África continuam alvo de profundas e complexas tentativas de aniquilação.

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay