editorial

A guerra é de todos

Em um mundo tão prenhe de incertezas e incógnitas, resta a compreensão de que ninguém mais pode construir um futuro em voo solo

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Foi uma decisão unilateral da Casa Branca que determinou o início de mais uma guerra no Oriente Médio. No máximo, e é bastante plausível, Donald Trump acertou ponteiros apenas com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para dar início aos bombardeios sobre o Irã. A reação do regime islâmico de Teerã não permite nem o menor espasmo de surpresa. Desde o ano passado, quando a coalizão Trump-Netanyahu atacou instalações nucleares iranianas, estava delineada a resposta: alvos israelenses e norte-americanos, inclusive as múltiplas bases militares abrigadas nas monarquias árabes da vizinhança, seriam objeto de retaliação.

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Uma observação superficial e ligeira poderia induzir à conclusão de que, lamentável como todos os conflitos armados, pelos sofrimentos humanos e pelas perdas materiais que acarreta, esse seria um assunto alheio a nós, da distância em que nos encontramos.


Duas semanas recém-completas de ataques e contra-ataques diários bastam para deixar claro: a nova guerra que se alastra pelo Oriente Médio é assunto que causa impactos muito além do cenário dos combates, cenário que, por si, não chega a ser tão limitado. Mesmo aqui, as turbulências no mercado do petróleo e derivados já projetam impactos.


Da perspectiva exclusivamente brasileira, doméstica, uma guerra prolongada e extensa no Oriente Médio torna-se fator de peso em um ano que tem o horizonte na corrida pelo Planalto. Outubro pode parecer distante, mas, até por isso, os seis meses de distância até o primeiro turno são tempo bastante para que se sucedam solavancos e imprevistos na economia – a começar pelos desdobramentos de uma disparada nas cotações internacionais do petróleo.


Mais do que em disputas anteriores, governo e oposição se veem, desde logo, condicionados a construir programas e plataformas que levem em conta a guerra de Donald Trump e Benjamin Netanyahu, com seus impactos globais. O cenário externo, os alinhamentos e afinidades de cada campo político, já figuraram na agenda de campanhas anteriores, com maior ou menor destaque. Neste ano, é diferente.


O desenrolar da crise no Oriente Médio terá peso decisivo quando o eleitor comparecer às urnas. E quem se apresente como candidato a conduzir o país nos próximos quatro anos será chamado a expor ideias e planos para a inserção do país em uma ordem internacional em plena transformação.


Caberá a cada um mostrar, em entrevistas, pronunciamentos, debates e demais ocasiões da disputa, a profundidade e agudeza com a qual enxerga as injunções impostas ao Brasil. E, por consequência, os caminhos e passos que vislumbra para que o país se movimente nesse terreno pantanoso de maneira a minimizar prejuízos e – igualmente importante – agarrar oportunidades.


De certo, em um mundo tão prenhe de incertezas e incógnitas, resta a compreensão de que ninguém mais pode construir um futuro em voo solo. A capacidade para interpretar os movimentos das contrapartes, em especial dos parceiros, presentes ou potenciais, definirá o tamanho e qualidade dos frutos a serem colhidos adiante.

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É esse o debate que se pode esperar, na campanha que se avizinha.

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