editorial

O choque do petróleo e o risco da inflação

Para o Palácio do Planalto, o risco maior é o impacto sobre o preço da gasolina, que afeta o bolso do consumidor e, consequentemente, o humor do eleitorado

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A guerra no Oriente Médio completa duas semanas e já produz efeitos que ultrapassam largamente o campo militar. O conflito mergulhou a economia mundial em um círculo de incertezas. Um fantasma que parecia superado desde as crises energéticas do século passado ronda a economia mundial: o choque do petróleo. Com refinarias bombardeadas, rotas de exportação ameaçadas e tensões crescentes entre potências regionais, o barril de petróleo pode atingir a marca estratosférica de US$ 200, caso o conflito se amplie.

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Não se trata de mera especulação. O Oriente Médio concentra parte significativa da produção mundial de petróleo e derivados estratégicos. Países do Golfo, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Kuwait são grandes fornecedores de subprodutos do refino, entre eles o enxofre, matéria-prima essencial para fertilizantes e processos metalúrgicos. A interrupção dessas cadeias de suprimento já afeta setores industriais em diferentes partes do mundo, da mineração de níquel à produção de insumos agrícolas.


Com a economia global ainda fragilizada por choques com a pandemia, a guerra na Ucrânia e as tensões comerciais com os EUA, a escalada do conflito aumenta a instabilidade. O petróleo é o principal insumo energético do planeta e qualquer disparada de preços repercute rapidamente em transportes, alimentos, energia e cadeias produtivas inteiras. Há risco de pressão inflacionária generalizada.


No Brasil, os efeitos já são percebidos. O governo federal anunciou, na quinta-feira, medidas emergenciais para amortecer o impacto da alta do petróleo sobre a economia doméstica, entre as quais a zeragem de tributos federais sobre o diesel – PIS e Cofins – e a concessão de uma subvenção a produtores e importadores do combustível, com o objetivo de reduzir o preço final nas bombas. Na prática, a expectativa oficial é que o diesel tenha uma queda aproximada de R$ 0,64 por litro.


O diesel é o combustível que move o transporte de cargas, a agricultura e boa parte da logística nacional. Qualquer elevação significativa do seu preço tende a contaminar toda a cadeia de custos, pressionando desde o frete até o valor final dos alimentos. O governo quer evitar que a inflação de custos se espalhe rapidamente pela economia.


Entretanto, trata-se de um paliativo, que pode suavizar os efeitos imediatos, mas não tem capacidade de neutralizar um choque externo de grandes proporções. Se a guerra se intensificar e o petróleo atingir níveis próximos a US$ 200, as pressões inflacionárias tendem a ultrapassar qualquer mecanismo fiscal temporário.


Para o Palácio do Planalto, o risco maior é o impacto sobre o preço da gasolina, que afeta diretamente o bolso do consumidor e, consequentemente, o humor do eleitorado. Em um ano eleitoral, a inflação dos combustíveis pode ter efeito devastador. O aumento do custo de vida costuma ser percebido de maneira imediata pela população e rapidamente se converte em desgaste político.


Guerra, energia cara e inflação criam um ambiente imprevisível. Embora seja produtor relevante de petróleo, o Brasil não está isolado das turbulências do mercado internacional. Os preços domésticos, em maior ou menor grau, acabam refletindo a dinâmica global da commodity. Mais do que reagir a cada nova escalada do conflito, o momento exige pensamento estratégico.

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A dependência mundial de combustíveis fósseis é a maior vulnerabilidade da economia moderna. E crises geopolíticas podem rapidamente se transformar em choques econômicos globais. Enquanto a guerra prosseguir sem perspectiva clara de solução, governos e mercados viverão o signo da incerteza. No curto prazo, resta administrar os impactos e proteger os setores mais sensíveis da economia. A médio e longo prazos, porém, a segurança energética continua sendo um dos pilares centrais da estabilidade econômica e política no mundo contemporâneo.

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