O custo global da guerra
O Brasil, embora geograficamente distante da guerra, não está imune. Sente o golpe inicialmente em duas frentes principais: agronegócio e energia
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Desde o último dia de fevereiro, quando aviões e mísseis de Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, o mundo assiste não apenas a um conflito geopolítico com dramáticas consequências regionais. A fatura que se apresenta caminha para ser astronômica, ultrapassando fronteiras do Oriente Médio, ignorando o que cada um possa avaliar sobre as justificativas de legitimidade de cada lado e alcançando cada canto do planeta. A guerra já drena recursos, vidas e esperança não apenas das nações diretamente envolvidas, mas dos países vizinhos. E o potencial efeito cascata global é assustador.
Para quem não está diretamente sob a chuva de bombas, o primeiro e mais imediato impacto é sentido no bolso do cidadão comum, seja em Washington, Tóquio, Paris ou Brasília. O Oriente Médio detém grande parte das reservas de petróleo do planeta. O escoamento dessa produção para o resto do mundo depende de passagens marítimas cruciais, como o Estreito de Ormuz, por onde passam estimados 20% da produção mundial.
O regime teocrático iraniano, tentando sobreviver, aposta na disrupção dessa rota pelo maior tempo possível. Sabe que o mundo é afetado direta e cotidianamente pelo preço do barril de petróleo, e que um efeito dominó de inflação energética espalhada globalmente pressiona Estados Unidos e Israel contra um prolongamento da guerra.
O custo do frete marítimo já disparou devido ao risco de ataques e à necessidade de rotas alternativas, encarecendo toda a cadeia de suprimentos global. Em um mundo ainda tentando se estabilizar após crises sucessivas e uma pandemia catastrófica, a guerra atua como freio ao desenvolvimento. Quando postos de combustível, por exemplo, aproveitam a confusão para aumentar os preços – a exemplo do que tem sido flagrado na capital brasileira nos últimos dias –, quem paga é toda a sociedade, com inevitável alta na inflação e toda a cascata de efeitos perversos sobre a economia do país.
Para além dos números, há o custo humano, que é imensurável. O deslocamento forçado de populações cria uma nova crise de refugiados na região. Isso acabará por pressionar sistemas de saúde e assistência social de países vizinhos e da Europa e, no fim das contas, gerará novas e graves tensões políticas. A destruição de infraestruturas básicas – hospitais, escolas e redes de saneamento – condena gerações ao atraso. Muitas vezes negligenciado em análises de guerra, o impacto ambiental desse conflito em particular tem potencial para ser catastrófico. A movimentação militar em larga escala é uma das atividades mais intensivas em emissão de carbono no planeta. Além disso, ataques a refinarias, depósitos de combustível e instalações industriais liberam substâncias tóxicas no solo e no ar, poluindo aquíferos e destruindo ecossistemas frágeis. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, alertou, na terça-feira (10/3), que a chuva ácida carregada de petróleo surgida depois de bombardeios a instalações do tipo traz gravíssimos riscos à saúde, atingindo indiscriminadamente a população civil das áreas atacadas.
O Brasil, embora geograficamente distante da guerra, não está imune. Sente o golpe inicialmente em duas frentes principais: agronegócio e energia. Como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo, o Brasil depende criticamente de fertilizantes, muitos dos quais têm seus custos atrelados ao preço do gás natural e do petróleo, ou cujas rotas de importação são afetadas pelo conflito. O aumento nos custos de produção no campo traduz-se diretamente em alimentos mais caros na mesa dos brasileiros.
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Diplomaticamente, o Brasil enfrenta o desafio de manter sua tradição de neutralidade e busca pelo diálogo em um cenário de polarização extrema. A pressão para "escolher lados" testa a habilidade do Itamaraty e pode afetar parcerias comerciais estratégicas. Além disso, a volatilidade do dólar, impulsionada pela insegurança global, pressiona a economia interna, dificultando o controle da inflação e a queda dos juros.