Briga no Mineirão expõe diversas falhas sociais
Se não há investimento em educação, pouco adianta deixar um jogador fora de algumas partidas – se é que haverá qualquer tipo de sanção do tipo
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A cada briga generalizada que jogadores e torcedores de futebol protagonizam nos estádios brasileiros, o repúdio da maior parte da sociedade logo surge. O termo "cenas lamentáveis" foi tão usado por narradores para classificar os atos de selvageria que se tornou folclórico, assim como o uso do verbo "manchar", como se aquele filme repetido comprometesse o espetáculo. Tais categorizações são justíssimas para rotular batalhas campais – como a ocorrida no Mineirão, no último domingo, entre Cruzeiro e Atlético, com 23 expulsões de ambos lados. No entanto, elas pouco influenciam o debate público.
A verdade é que a maior parte dos torcedores que acompanharam a pancadaria in loco ou à distância analisa a briga com viés de pertencimento. Como se a violência e a ignorância fossem valores inquestionáveis do esporte, um retorno às raízes.
Ignora-se, em primeira instância, que atos como o ocorrido no Mineirão reproduzem símbolos importantes da fragmentação do futebol latinoamericano. O machismo e o ganguismo manifestados pelos jogadores de Atlético e Cruzeiro são elementos tão presentes num estádio de futebol quanto as traves e as redes do gol.
Em primeira análise, a reação explosiva, que de "cabeça quente" não tem nada, tem sempre prioridade quando o homem, neste caso específico, o goleiro Everson, é colocado em posição inferiorizada. Diante do revés próximo para o maior rival, o jogador não tem outra opção, a não ser recorrer à virilidade, como se ela fosse suficiente para reverter o quadro em questão. São reações também vistas a cada apito final da Copa Libertadores, quando os derrotados, sem outra alternativa, partem para a pancadaria.
Em segundo passo, aparecem elementos do ganguismo. Ao ver seu companheiro agredido, os jogadores transformam o campo de futebol em uma arena de luta e levam o estádio para a Roma de Trajano, o imperador conhecido por organizar os maiores jogos da história da capital italiana, com milhares de gladiadores.
A categorização da briga como algo que pertence ao campo de jogo é tão marcante que o atacante argentino Tomás Cuello, do Atlético, tem sido cobrado pelos torcedores por ter tentado separar os colegas viris. Em uma inversão de valores evidente, quem recusa a reprodução da violência recebe cobranças semelhantes às de um pênalti perdido.
Nos dias que sucedem a tragédia – aqui o uso mais teatral do termo, ligado à catarse (busca pela purificação emocional a partir, entre outras coisas, do terror) – a opinião pública recorre a um receituário conhecido: cobra-se punições e ganchos pesados para os gladiadores de chuteira e meiões, como se isso fosse suficiente para resolver o problema.
Assim como a punição contra as torcidas organizadas não surte qualquer efeito há décadas, o gancho pesado contra os atletas de Atlético e Cruzeiro não resolve a raiz do problema. Isso não quer dizer que eles mereçam a impunidade, mas, se não há investimento em educação para promover um debate sério sobre a reprodução da violência no esporte, pouco adianta deixar um jogador fora de algumas partidas – se é que haverá qualquer tipo de sanção do tipo.
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Neste cenário, é preciso dizer o óbvio: a naturalização da violência no esporte é mais uma representação de um mal social de fácil diagnóstico, mas de difícil – ou ignorada – resolução. Uma sociedade violenta gera comportamentos também violentos, que se espalham por diversos espaços, entre eles o campo de futebol.