Editorial

Guerras nos afastam de uma inevitável coletividade

Como as mudanças climáticas e as guerras conversam? Os dois fenômenos reforçam o que há de pior em nossas sociedades

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Em Kiribati, país insular localizado na Oceania, cerca de 130 mil pessoas assistem, diariamente, ao mar engolindo uma nova parte de terra, a partir de um fenômeno irreversível de derretimento de geleiras em meio ao aquecimento global. Na Zona da Mata mineira, cerca de 70 pessoas já perderam suas vidas por conta de enchentes causadas por chuvas muito além da média histórica da região. Na Califórnia, um dos estados mais ricos da maior economia do planeta, moradores recorrem à migração forçada pelos imensos incêndios que atingiram a região no ano passado, enquanto no Sudão, milhares de pessoas convivem com a fome diante de uma desertificação que causa secas implacáveis e impedem a agricultura.

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As mudanças climáticas estão à tona em diversas partes do mundo, independentemente da condição socioeconômica de cada um de nós. Nada novo sob o sol, a partir dos diversos alertas já divulgados pela comunidade científica, diante de um aumento da temperatura média do planeta de até 1,5°C na comparação com o período pré-industrial.

O que mais chama atenção, no entanto, é como a humanidade insiste em divergir mesmo diante do maior desafio de sua existência. Enquanto o aquecimento global exige uma resposta rápida e planejada, líderes mundiais continuam mais preocupados em promover conflitos por diferenças políticas, econômicas e culturais, como os mais recentes ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o Líbano e outras nações, que culminaram na morte do líder Ali Khamenei.

A escolha do caminho bélico não é lá uma novidade. Trata-se do período de maior tensão internacional desde a Segunda Guerra. Nem mesmo a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003 pode se comparar. Vale ressaltar, a título de confrontação, como a ofensiva do governo George W. Bush contou com a anuência do Congresso estadunidense, instituição sequer consultada por Donald Trump no conflito atual.

O que vivemos é uma nova era na qual líderes autoritários superam qualquer regramento pré-estabelecido em comportamentos e nuances muito semelhantes aos regimes totalitários que desencadearam a Segunda Guerra.

Mas, como as mudanças climáticas e as guerras conversam? Os dois fenômenos, para além do potencial destruidor de populações, sobretudo as vulnerabilizadas, reforçam o que há de pior em nossas sociedades: um individualismo que define quem deve e quem não deve se sentar à mesa.

Está muito claro, de acordo com as previsões científicas, que só haverá recursos naturais para todos caso os processos de descarbonização da humanidade sejam intensamente acelerados – não só com emissão zero, mas também com retirada de carbono da atmosfera. Diante de um futuro certamente sombrio, já que não há nada que indique para uma mudança de paradigma comportamental, os inúmeros conflitos iniciados por potências bélicas e permitidos por outras lideranças da geopolítica mundial ilustram um cenário claro e bem sintetizado por um ditado popular nordestino: "farinha pouca, meu pirão primeiro".

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O mundo não parece preparado para o remédio amargo que permitirá um futuro mais inclusivo, no qual a maior parte de nossas civilizações possa se manter viva. Os conflitos ininterruptos, além de deixar clara tal divergência, funcionam como armas contra a insurreição popular dos mais vulneráveis, a partir da propagação do medo.

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