Editorial

Mudanças climáticas exigem investimento e planejamento

Planejar para o clima deixou de ser opção; tornou-se imperativo de responsabilidade pública e compromisso com as próximas gerações

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As tragédias provocadas pelas chuvas que castigaram Juiz de Fora e municípios vizinhos não são mais exceção – tornaram-se parte de uma nova normalidade climática. Em entrevista ao CB. Poder, dos Diários Associados, o ministro das Cidades, Jader Barbalho Filho, foi direto ao ponto: é urgente preparar as cidades brasileiras para os efeitos cada vez mais intensos da emergência climática. Essa deve ser, inclusive, uma régua para o eleitor avaliar seus candidatos nas próximas eleições municipais. Não se trata apenas de promessas, mas de capacidade concreta de planejar, investir e prevenir.

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O ano de 2025 foi o terceiro mais quente já registrado no planeta. A temperatura média global atingiu 1,47°C acima dos níveis pré-industriais (1850–1900). No Brasil, o reflexo foi imediato: 336.656 pessoas impactadas diretamente por eventos extremos e prejuízos estimados em R$ 3,9 bilhões, segundo o relatório “Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil”, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). O documento reúne dados de instituições internacionais, como o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, e confirma que o aquecimento global deixou de ser projeção para se tornar realidade cotidiana.


No território nacional, o verão 2024/2025 foi o sexto mais quente desde 1961. Em novembro passado, oito unidades da federação enfrentaram seca em 100% de seus territórios. Ao mesmo tempo, o país registrou 1.493 eventos hidrológicos – entre secas intensas, alagamentos, enxurradas e deslizamentos de terra. A Região Sudeste concentrou 43% dessas ocorrências. São números que revelam não apenas a força dos fenômenos, mas a fragilidade estrutural de grande parte dos municípios.


Hoje, 2.095 das 5.570 cidades brasileiras estão expostas a riscos geo-hidrológicos. Minas Gerais lidera o ranking: 306 de seus 853 municípios são suscetíveis a deslizamentos e inundações, colocando cerca de 1,5 milhão de pessoas em situação de vulnerabilidade. O aumento de 222% no número de desastres climáticos entre o início da década de 1990 e os primeiros anos de 2020 indica tendência inequívoca de agravamento.


Diante desse cenário, a liberação de R$ 6,196 milhões pelo Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional para municípios atingidos é necessária, mas insuficiente como política estrutural. Recursos emergenciais aliviam o drama imediato; não substituem obras de drenagem, contenção de encostas, revisão de planos diretores, mapeamento de áreas de risco e sistemas de alerta eficientes.


O papel do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), ao emitir alertas de “Perigo” e “Grande Perigo” para regiões do Norte e Nordeste, é fundamental. Entretanto, alertas só salvam vidas quando combinados com planejamento urbano adequado, fiscalização do uso do solo e capacidade municipal de resposta.


A emergência climática impõe uma agenda transversal. Exige integração entre ciência e gestão pública. Investir em monitoramento contínuo, fortalecer a pesquisa e qualificar quadros técnicos municipais são medidas estratégicas. Não se trata de gasto, mas de seguro coletivo contra perdas humanas e econômicas.


A política urbana brasileira precisa incorporar definitivamente a variável climática. Cidades que expandem ocupações em encostas, margens de rios e áreas alagáveis estão, na prática, produzindo futuras tragédias. A revisão de códigos de obras, o incentivo à infraestrutura verde, a ampliação de áreas permeáveis e a modernização dos sistemas de drenagem devem compor uma agenda permanente.

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Mais do que reagir a cada novo desastre, é preciso mudar a lógica da gestão pública. O eleitor, ao escolher prefeitos e vereadores, precisa considerar quem apresenta propostas viáveis para adaptação climática, quem valoriza a ciência e quem compreende que prevenção custa menos do que reconstrução. As mudanças climáticas não são tema abstrato ou ideológico. São realidade mensurável, expressa em números, vidas afetadas e bilhões de reais em prejuízos. O tempo da improvisação acabou. Planejar para o clima deixou de ser opção; tornou-se imperativo de responsabilidade pública e compromisso com as próximas gerações.

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