Chance comercial para o Brasil
Considerando que a resistência interna ao tarifaço deve provocar mais instabilidade política nos Estados Unidos, cabe ao Brasil manter a busca de novos mercados
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O Brasil tem uma oportunidade econômica relevante em face do revés político sofrido pelo governo de Donald Trump, após a Suprema Corte norte-americana invalidar parte da política comercial do republicano. A decisão de suspender determinadas tarifas impostas pela Casa Branca, sob alegação de que essa prerrogativa cabe ao Congresso, restabeleceu a chance de exportadores de determinados produtos brasileiros – como manufaturados, café e frutas – encontrarem espaço no mercado norte-americano. Mas há um outro caminho que o Brasil deve trilhar, considerando as circunstâncias políticas nos Estados Unidos.
O tarifaço imposto por Donald Trump provocou um reordenamento na economia global. Além de proporcionar reações recíprocas ou obrigar governos do mundo inteiro a renegociar com os Estados Unidos, o protecionismo trumpista acelerou a formalização de novos acordos comerciais. Para o Brasil, o passo mais relevante foi a assinatura, em janeiro, do acordo entre Mercosul e União Europeia. Em processo de ratificação pelos parlamentos dos países envolvidos, essa parceria tem potencial de criar uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com mais de 700 milhões de consumidores e um PIB de US$ 22 trilhões.
A União Europeia não tratou apenas com o Mercosul. Em resposta à política protecionista de Trump, o bloco econômico firmou, também em janeiro, um acordo de livre comércio com a Índia, igualmente após décadas de marasmo nas negociações. Em uma rede social, a presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, resumiu o impacto dessa união na economia global: “Europa e Índia fizeram história hoje. Concluímos o maior acordo de todos. Criamos uma zona de livre comércio de 2 bilhões de pessoas que beneficiará ambos os lados”.
Considerando que a resistência interna ao tarifaço do presidente norte-americano deve provocar mais instabilidade política nos Estados Unidos, cabe ao Brasil manter a busca de novos mercados para ampliar a pauta de exportações. A decisão da Suprema Corte, fruto de contestações de importadores norte-americanos, levará necessariamente o país a rediscutir os fundamentos da política comercial em curso. A questão é saber se Donald Trump está disposto a contemporizar – o que não o fez nas últimas horas, ao atacar fortemente os juízes da mais alta instância do Judiciário e restabelecer, de ofício, uma tarifa global de 10% na última sexta-feira e ampliá-la para 15% ontem.
Desde o início do tarifaço, em 2025, o presidente Lula tem dito que o Brasil está aberto para negociação com todos os países. Ao mesmo tempo, o governo brasileiro tem mantido diálogo constante com representantes da administração Trump, a fim de superar entraves comerciais específicos entre os dois países no contexto da política comercial global lançada pelo presidente republicano. Nesse sentido, a visita de Lula à Casa Branca, programada para março, pode representar uma distensão e pontuar avanços no diálogo bilateral.
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Mas, enquanto os Estados Unidos enfrentam uma turbulência doméstica em razão da política protecionista de Trump, o Brasil deve seguir o objetivo de diversificar seus parceiros comerciais. Na nova ordem econômica, o multilateralismo desponta como a melhor saída.