O sonho lunar e as urgências terrestres
É gritante o contraste entre a sofisticação da engenharia para manter a vida e a incapacidade política de garantir a sobrevivência digna em ecossistemas
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Durante décadas, a expressão "vender terreno na Lua" foi sinônimo universal de golpe, o exemplo máximo do estelionato praticado por vigaristas contra incautos sonhadores. Oferecer a posse do inalcançável era a definição clássica de enganação. Por isso, não deixa de ser curioso – e até certo ponto, irônico – o anúncio da SpaceX, empresa comandada pelo trilionário Elon Musk, que a prioridade de seus esforços espaciais se voltará para a construção de uma cidade na Lua.
O anúncio marca uma mudança tremenda nos planos originais da SpaceX. Musk nunca escondeu de ninguém que seu objetivo e sonho é iniciar uma colônia humana em Marte. Mas dificuldades de logística, como a duração de mais de seis meses até o planeta vermelho, obrigaram o controverso empresário a voltar seus olhos para a Lua, que tem entre outras facilidades a distância de apenas três dias de viagem.
Estamos vendo, portanto, a metamorfose do antigo golpe do terreno na lua em visão de futuro, legitimado por contratos governamentais e pelo capital de risco. Mas para além do deslumbramento com foguetes reutilizáveis e bases pressurizadas, o anúncio de Elon Musk provoca a sociedade a uma reflexão ética sobre o destino dos recursos globais e a própria natureza de nossas aspirações.
Enquanto a iniciativa privada desenha condomínios na cratera de Shackleton, a realidade aqui embaixo, no solo firme do planeta Terra, passa longe das utopias espaciais. Além de todos os problemas da sociedade, guerras e conflitos cada vez mais tensos e a aceleração da crise climática, que já impõe perdas irreversíveis a populações inteiras, observa-se uma desconexão gritante de prioridades das pessoas mais ricas do mundo, que poderiam – e deveriam – liderar o mundo rumo à prosperidade. O investimento maciço na colonização da Lua, um local totalmente hostil e inóspito à vida, num momento em que a governança global falha em garantir o básico – água, alimento e segurança – para bilhões de pessoas, soa como uma dissonância cognitiva em escala planetária. Estamos, paradoxalmente, buscando oxigênio na Lua enquanto deixamos o ar irrespirável na Terra.
Não se trata de negar o valor da exploração espacial. A ciência, a tecnologia de materiais e as telecomunicações devem muito à corrida para o cosmos. Mas é gritante o contraste entre a sofisticação da engenharia necessária para manter a vida no vácuo espacial e a incapacidade política de garantir a sobrevivência digna em ecossistemas abundantes na Terra.
Há, além disso, um perigo moral quando a colonização de outros mundos passa a ser vendida – implícita ou explicitamente – como um "plano B" para uma elite, ou como uma rota de fuga de um planeta que nós mesmos estamos exaurindo, conforme o próprio Musk já avisou que pretende. A fascinação por morar em cidades dentro de redomas de vidro em Marte ou na Lua não pode servir de cortina de fumaça para o fracasso na gestão da Terra.
Antes de nos autoproclamarmos uma espécie multiplanetária, senhores do espaço e dominadores dos cosmos, temos o dever inadiável de provar que somos capazes de ser uma espécie sustentável. De que adianta exportar nossa presença para as estrelas se levarmos na bagagem os mesmos vícios de desigualdade, predação e negligência que ameaçam nossa casa original?
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O sonho de caminhar em outros mundos é legítimo e inspirador, mas ele não deve atropelar a responsabilidade presente. A Lua pode esperar; a fome, a crise climática e as guerras que assolam este pálido ponto azul, não. A verdadeira fronteira a ser conquistada não está a 384 mil quilômetros de distância, mas aqui mesmo, na resolução das mazelas que ainda nos prendem ao chão. Antes de olharmos para o céu com cobiça imobiliária, precisamos resolver a Terra com urgência humanitária.