Editorial

A corrupção e o risco de normalidade

"Grandes escândalos deixam evidentes os impactos da corrupção no dia a dia da população

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Nos últimos 10 anos, o Brasil está estagnado abaixo da média global de um dos principais indicadores globais sobre corrupção no setor público, o Índice de Percepção da Corrupção (IPC). Ocupa a 107ª posição do ranking composto por 182 países e territórios, com 35 pontos, sete a menos que o desempenho médio contabilizado em 2025. Trata-se da segunda pior nota desde que a série histórica começou a ser feita, em 2012, e é equiparada à de países como a Ucrânia, em guerra há quase quatro anos.

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O relatório, divulgado nesta terça-feira, chama a atenção para a dificuldade do país em “conseguir sustentar avanços estruturais capazes de alterar sua posição relativa no ranking internacional”. Também destaca a “trajetória marcada por fragilidade institucional, baixa efetividade dos mecanismos de integridade e dificuldades persistentes de controle da corrupção no setor público”, sinalizando um perigoso risco de que práticas do tipo deixem de provocar a indignação e as respostas necessárias.


A avaliação de Bruno Brandão, diretor executivo do Transparência Internacional-Brasil, que faz parte da elaboração do IPC, dá a dimensão do problema. Segundo ele, os Três Poderes têm contribuído para a inércia do país no enfrentamento à corrupção, ainda que se destaque positivamente a resposta “firme e histórica” do Supremo Tribunal Federal ao condenar os líderes da intentona golpista, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro e militares de alta patente. Em contraponto, recentes casos de “macrocorrupção em escala inédita, como INSS e Master, impunidade generalizada mesmo para corruptos confessos e condutas desmoralizantes de ministros do próprio STF” também “chocaram o mundo”.


O IPC é construído a partir de 13 fontes independentes, como organismos multilaterais e centros de pesquisa, que avaliam percepções de especialistas e executivos sobre corrupção no setor público. A pontuação de cada país corresponde à média dessas fontes e se enquadra em uma escala de 0 a 100. O Brasil nunca chegou à metade. Pontuou melhor em 2012 e 2014, com 43 pontos. O pior desempenho foi em 2024: 34 pontos, praticamente o mesmo que a situação atual.


O cenário revela-se ainda mais agravado quando se considera a análise dos países conforme a realidade democrática. A média da pontuação de países com democracias plenas em 2025 é de 71; com democracias deficitárias, 47; em regimes não democráticos, 32 – ou seja, apenas três pontos a menos que a realidade brasileira. Não é exagero, portanto, temer que vulnerabilidades tão profundas em instituições nacionais ofusquem as tentativas de fortalecimento da agenda anticorrupção.


Grandes escândalos deixam evidentes os impactos da corrupção no dia a dia da população. Mas corrupções em menor escala também precarizam os serviços públicos e acentuam as desigualdades, entre outras mazelas. Em nota, a Controladoria-Geral da União (CGU) reiterou as críticas à forma como é calculado o IPC e reafirmou que ele “não mede a ocorrência real de corrupção, nem avalia políticas públicas de enfrentamento, investigações ou resultados institucionais”.

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Ainda que haja divergências metodológicas, não se pode negar que é extensa a lista de grandes esquemas fraudulentos que chegaram ao noticiário nas últimas décadas e que a corrupção figura entre as principais preocupações dos brasileiros. Há de se reconhecer que o controle da máquina pública exige medidas de inteligência, fortalecimento das práticas de transparência, aprimoramento dos canais de denúncia, rigor nas punições. Dá trabalho, mas é basilar. Desvios de recursos não podem cair na normalidade sob o risco de colocarem em xeque princípios civilizatórios.

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