Prevenção não pode tirar folga no carnaval
Historicamente, esse período de intensa interação social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o aumento da vulnerabilidade às infecções sexual
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O carnaval é uma das principais manifestações culturais do Brasil. Entre o brilho dos desfiles na Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, o calor dos trios elétricos em Salvador, na Bahia, e as multidões nos blocos de rua em Belo Horizonte, São Paulo e muitas outras capitais e cidades, a atmosfera de celebração e liberdade contagia brasileiros e turistas de diversos países. No entanto, historicamente, esse período de intensa interação social e relaxamento de inibições traz um desafio recorrente: o aumento da vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).
A folia faz parte da identidade nacional e deve ser incentivada, mas também é preciso promover a consciência coletiva no quesito saúde pública. O cenário epidemiológico atual exige atenção. Dados do Ministério da Saúde indicam que, embora o acesso à informação seja amplo, as taxas de novas contaminações, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos, aparecem em patamares preocupantes. Doenças como HIV/Aids, sífilis, gonorreia e HPV não “descansam” nos feriados festivos e encontram na mistura de álcool com eventos prolongados o terreno fértil para se propagarem.
A estratégia de saúde pública no país apresentou melhorias. Hoje, as campanhas não tratam apenas do uso da camisinha – que continua sendo a barreira física mais eficaz e acessível –, e o conceito de prevenção combinada tem introduzido importantes camadas de autocuidado, com resultados significativos.
Atualmente, também é mais disseminada a possibilidade de acesso a medidas de urgência, como o tratamento antirretroviral, que evita a infecção se iniciado em até 72 horas em caso de uma relação desprotegida. Além disso, boa parte da população já se conscientizou que saber o próprio status sorológico é um ato de responsabilidade individual e social.
Outro ponto importante de avanço é a orientação sobre as formas de contágio, tema que vem quebrando preconceitos, especialmente dentro das escolas. Nesse aspecto, conteúdos direcionados para esse aprendizado são essenciais, assim como a abertura para debates com os adolescentes de uma forma que eles se sintam à vontade para tirar as dúvidas sem julgamentos. Não menos relevante é o diálogo familiar, principalmente para estabelecer uma base de confiança com os jovens. Sem contar que os responsáveis precisam cumprir o dever de levar os menores para se vacinar contra HPV e hepatite B.
O estado, por sua vez, desempenha papel estratégico na prevenção e controle dessas doenças. Por isso, a atuação não pode se limitar à entrega de remédios e campanhas esporádicas. Ambas são necessárias, porém é preciso atacar o problema em várias frentes. A distribuição de preservativos e autotestes em postos médicos e circuitos de rua é essencial, mas as iniciativas devem fazer parte de uma agenda prioritária dos governos federal, com a compra de medicamentos e definição de protocolos; estadual, com a coordenação da entrega de insumos e apoio técnico; e municipal, com a execução direta das ações.
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As ISTs são uma questão de saúde, não de moralidade. E quando o assunto deixa de ser um tabu, a prevenção correta chega antes do perigo. O carnaval, que é uma festa de vida, pede atenção. Celebrar com segurança significa entender que o prazer não é oposto ao cuidado e respeito. Depois da folia, quando chegar a quarta-feira de cinzas, o que deve restar são as memórias dos momentos de alegria, e não as consequências de uma negligência que poderia ter sido evitada com gestos simples.