França dá exemplo contra desinformação
A reação das autoridades de fiscalização à absoluta falta de controle dos espaços das mídias sociais é extremamente necessária
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O Ministério Público francês cumpriu ontem mandados de busca e apreensão em escritórios do X, o antigo Twitter, no país europeu. Segundo procuradores, a ação teve o objetivo de frear o compartilhamento sem qualquer controle de pornografia infantil e deepfakes – quando imagens de uma determinada pessoa são alteradas propositalmente para enganar o usuário.
Entre as medidas, o MP da França solicita depoimentos do proprietário do site, o bilionário Elon Musk, e Linda Yaccarino, que deixou o cargo de CEO do X em julho após dois anos à frente da empresa. As contribuições de ambos são voluntárias e estão marcadas para 20 de abril.
Em suma, as autoridades apuram “cumplicidade” do X na manutenção e disseminação de imagens pornográficas de menores, deepfakes sexualmente explícitos, negação de crimes contra a humanidade e manipulação de um sistema automatizado de processamento de dados no âmbito de um grupo organizado, além de outras infrações, como mostrou o G1 e a Reuters.
Trata-se de mais uma escalada na tensão entre a União Europeia e as gigantes da tecnologia, hoje bastante próximas do governo Donald Trump, nos Estados Unidos – o próprio Musk chegou a ocupar cargo no alto escalão na atual Casa Branca. Enquanto o dono do X se diz perseguido politicamente, órgãos de fiscalização se apegam a evidências claras de ausência total de controle nos algoritmos da mídia social.
A desinformação compartilhada pela IA generativa do X, denominada Grok, está entre os indícios. Recentemente, a ferramenta chegou a negar a existência do Holocausto, o que gerou reação global.
Além disso, estudiosos dos campos da computação e das ciências sociais criticam duramente a aba “Para Você”, criada na gestão de Musk e que oferece ao usuário conteúdos rasos, apelativos e até mesmo falsos, com base nos algoritmos internos do X – algo que também atinge outras mídias sociais.
Se o MP francês acerta em fechar o cerco contra o X – algo que também vimos no Brasil quando o ministro Alexandre de Moraes, do STF, cobrou uma representação do site sediada no país –, o momento atual evidencia um novo momento da geopolítica, muito bem definido pelo economista grego Yanis Varoufakis como “tecnofeudalismo”.
Assim como aconteceu na Idade Média na Europa Ocidental, quando poucas pessoas (os senhores feudais) concentraram o poder por meio de uma aristocracia rural, o momento atual coloca as empresas de tecnologia, e seus respectivos proprietários, como senhores do capitalismo.
No sistema feudal, os servos, totalmente súditos aos seus senhores e à Igreja, eram a base da economia. No capitalismo, esse espaço é ocupado pelo lucro dos grandes empresários. No tecnofeudalismo, pelo conceito de Varoufakis, os algoritmos se tornam os verdadeiros dominadores da sociedade.
Neste cenário, a reação das autoridades de fiscalização à absoluta falta de controle dos espaços das mídias sociais é extremamente necessária. Basta a pesquisa por qualquer celebridade feminina no X para se deparar com imagens dessas mesmas pessoas sexualizadas ou até mesmo nuas, a partir de deepfakes escandalosos.
Ainda que o espaço de denúncia exista no X e até funcione com horas de atraso, uma imagem falsa causa profundos danos a partir do primeiro instante de compartilhamento – mesmo com exclusão à posteriori, o estrago já está feito. É preciso que os algoritmos freiem esse tipo de conteúdo antes mesmo de seu compartilhamento, como acontece em outras mídias sociais, como o Instagram.
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A atitude do governo francês é um primeiro passo em prol de uma internet com algum controle. Resta saber se essa pressão será mantida nos próximos capítulos ou se resume apenas a um movimento político coordenado, ante as disputas geopolíticas entre UE e Estados Unidos.