A nova concorrência invisível do varejo
O que se desenha, portanto, é uma disputa silenciosa, porém estrutural, pelo orçamento das famílias brasileiras
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MARCELO SILVEIRA - Economista e diretor do Sindilojas/BH
O Brasil atravessa, nos últimos anos, um aparente paradoxo econômico. De um lado, indicadores positivos como o crescimento da renda média e a queda consistente do desemprego sugerem um ambiente mais favorável ao consumo. De outro, o varejo convive com uma demanda enfraquecida, sobretudo entre as classes B, C e D, que sustentam grande parte do consumo cotidiano. Esse descompasso indica que transformações mais profundas estão em curso na dinâmica financeira das famílias brasileiras.
Tradicionalmente, esse cenário era explicado por fatores conhecidos, como juros elevados, inflação persistente e alto nível de endividamento. Embora ainda relevantes, esses elementos já não dão conta, sozinhos, do enfraquecimento do consumo. Dois novos vetores passaram a alterar de forma estrutural a alocação da renda familiar: a expansão das apostas on-line, as chamadas bets, e o avanço acelerado das canetas emagrecedoras.
Dados do Banco Central mostram que, entre janeiro de março de 2025, os brasileiros gastaram cerca de R$ 30 bilhões por mês em apostas, gerando um impacto sobre o consumo expressivo, especialmente entre as faixas de renda média e baixa, onde cada real deslocado do comércio local faz diferença significativa.
Levantamento do Núcleo de Estudos Econômicos da Fecomércio/MG reforça esse quadro. Segundo a pesquisa, 58,9% da população conhece alguém que aposta com frequência. A maioria dos apostadores gasta entre R$ 50 e R$ 100 por mês, mas 12% afirmam já ter deixado de pagar contas para continuar jogando. Trata-se de um consumo recorrente, que concorre diretamente com bens e serviços do varejo tradicional, em especial vestuário, calçados e itens de consumo discricionário, setores intensivos em geração de emprego.
Mais recentemente, outro fator passou a pressionar o orçamento das famílias: as canetas emagrecedoras. Relatório da XP Research estima que o mercado desses medicamentos já movimente entre R$ 9 bilhões e R$ 10 bilhões no Brasil. O impacto é tão relevante que esses produtos respondem hoje por cerca de 8% a 9% da receita de algumas grandes redes de farmácias, participação que, segundo projeções do Itaú BBA, pode alcançar 20% até 2030.
Os efeitos desse avanço já são perceptíveis no cotidiano do consumidor. As canetas emagrecedoras, especialmente as versões importadas, podem ultrapassar R$ 2 mil por mês, pressionando significativamente o orçamento das famílias das classes A e B. Paralelamente, estudos indicam que domicílios com pessoas em tratamento reduziram em mais de 50% o consumo de bebidas açucaradas, alimentos ricos em gordura e bebidas alcoólicas. No segmento de alimentação fora do lar, bares, restaurantes e pizzarias já observam clientes com menor apetite, mais inclinados a porções reduzidas e cardápios associados a hábitos considerados mais saudáveis.
Essas mudanças extrapolam a alimentação e consolidam o que vem sendo chamado de “economia da magreza”, com impactos diretos sobre diversos segmentos do varejo. No vestuário, cresce a demanda por ajustes de roupas em função da perda de peso. Já no setor de cosméticos, amplia-se a oferta de produtos voltados ao tratamento de flacidez e aos cuidados pós-emagrecimento, além de suplementos destinados à preservação da massa muscular e alimentos de alta densidade nutricional. Alimentação, moda, beleza, serviços de saúde, acompanhamento nutricional, academias e até a logística especializada para a entrega refrigerada de medicamentos passam a integrar esse novo ecossistema de consumo, exigindo adaptação e reposicionamento do varejo.
Bets e canetas emagrecedoras disputam diretamente a renda das famílias, mas as apostas geram efeitos ainda mais preocupantes. As apostas criam poucos empregos e impõem elevados custos sociais. Estimativas do IEPS indicam que jogos de azar e apostas produzem um impacto anual de R$ 38,8 bilhões, associado a mortes por suicídio, perda de qualidade de vida por depressão e gastos com tratamentos de saúde.
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O que se desenha, portanto, é uma disputa silenciosa, porém estrutural, pelo orçamento das famílias brasileiras. Mais do que tendências de consumo, trata-se de uma transformação no comportamento do consumidor, com impactos diretos nas vitrines, nos caixas e na sustentabilidade do varejo convencional.