EDITORIAL

A memória brasileira desguarnecida

Não podemos naturalizar o sumiço de nossa herança cultural como se fosse mais uma estatística de segurança pública

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Seguem desaparecidas as 13 obras roubadas do acervo da Biblioteca Mário de Andrade, um dos templos da cultura nacional, em São Paulo. Na ocasião, quase dois meses atrás, foram levadas gravuras de valor incalculável assinadas por Henri Matisse e Candido Portinari, pertencentes à exposição “Do livro ao museu: MAM São Paulo e a Biblioteca Mário de Andrade”, realizada em parceria com o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM).

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O crime já seria absurdo apenas pela violência cotidiana. Para acessar a exposição, um grupo armado rendeu o segurança do local. Mas o roubo expôs uma outra ferida que o Brasil também insiste em não tratar: a vulnerabilidade crônica de seu patrimônio histórico e artístico e o alarmante descaso com a memória coletiva.

O episódio na Biblioteca Mário de Andrade – a segunda maior do país, ressalte-se – reflete uma estatística vergonhosa apontada pelo Conselho Internacional de Museus (Icom), que coloca o Brasil em 26º lugar na lista dos países com maior número de objetos culturais roubados, além de uma taxa pífias de recuperação.

É verdade que a insegurança dos acervos é um desafio global. Até instituições que são sinônimo de blindagem, como o Museu do Louvre, em Paris, enfrentam desafios. Em outubro, não custa lembrar, um grupo arrombou uma das janelas da icônica instituição francesa e levou joias avaliadas em US$ 102 milhões (cerca de R$ 530 milhões), que ainda não foram encontradas.

Contudo, no Brasil, o problema ganha contornos dramáticos porque o roubo é apenas uma das faces da moeda da dilapidação. A outra face é a manutenção precária, o subfinanciamento e a ausência de uma cultura técnica de preservação. Afinal, ainda está fresca na lembrança da população a imagem das chamas consumindo o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2018. O incêndio foi o resultado previsível de anos de negligência estrutural.

Seja pelo fogo que consome, seja pela mão que furta, o resultado é o mesmo: o apagamento. Quando obras como as de Portinari desaparecem, a sociedade perde um pedaço de sua narrativa. Cada objeto subtraído priva a coletividade de seu direito à fruição e ao conhecimento.

Há caminhos possíveis, como demonstra a Fundação Biblioteca Nacional, que adota protocolos rígidos de manuseio, digitalização massiva e controle de acesso. Ferramentas como a Red List do Icom, que ajuda a identificar bens traficados, e a modernização da vigilância são passos urgentes. Mas a tecnologia, por si só, não basta se não houver vontade política e orçamento compatível com a grandeza dos tesouros que guardamos.

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A falta de respostas no caso do roubo na Biblioteca Mário de Andrade deve servir como um ultimato. Não podemos naturalizar o sumiço de nossa herança cultural como se fosse mais uma estatística de segurança pública. A proteção dos acervos exige um pacto entre Estado, instituições e sociedade civil. É preciso que todos façam a sua parte – da vigilância nos portos e aeroportos à educação patrimonial nas escolas – para estancar essa sangria. Do contrário, estaremos condenados a ser uma nação de "Alexandrias modernas", assistindo passivamente, incêndio após incêndio, roubo após roubo, à destruição irrevogável da nossa própria história.

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