Editorial

Adoecimento psíquico desafia o Brasil

A geração que sequer chegou ao mundo profissional é a mais diagnosticada com transtornos psíquicos da história

Publicidade
Carregando...

Em tempos de tecnologias médicas que parecem ter saído de filmes de ficção, há uma ameaça à saúde humana avançando de forma silenciosa, impulsionada por tabus e negligências. O adoecimento psíquico figura entre os grandes desafios globais, impondo, sem distinções, custos humanos e econômicos expressivos. A OMS estima que 15% da população mundial viva com transtornos mentais – número próximo ao dos acometidos por hipertensão arterial – e que só a depressão e a ansiedade, os mais prevalentes, impactem a economia global em cerca de US$ 1 trilhão todos os anos.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O ESTADO DE MINAS NO Google Discover Icon Google Discover SIGA O EM NO Google Discover Icon Google Discover

No Brasil, essa realidade se impõe de forma preocupante, como ilustra um levantamento divulgado nesta terça-feira pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (Anamt). Em dois anos, de 2023 a 2025, o número de trabalhadores afastados em razão de transtornos mentais cresceu ao menos 79% – de 219,8 mil para 393,6 mil –, faltam os dados do INSS referentes a dezembro do ano passado. Sozinhos, os transtornos ansiosos respondem por 40% dos casos em 2025, contabilizando o equivalente a 430 afastamentos por dia. A média da depressão, no mesmo período, foi de 166.

Há de se ressaltar que o levantamento da Anamt considera apenas as licenças superiores a 15 dias – concedidas em casos de adoecimento mais agravados – para trabalhadores vinculados à Previdência. Estão fora aqueles que tentam se equilibrar sobre as inconstâncias da informalidade, cujos perfis, geralmente, agregam outras vulnerabilidades psíquicas, como raça e gênero. Não é exagero, portanto, afirmar que os desdobramentos do adoecimento psíquico na rotina dos profissionais brasileiros têm proporções muito maiores.

O presidente da associação, Francisco Cortes Fernandes, estima um impacto dobrado. “Os trabalhadores informais no Brasil estão ao redor de 45 milhões, 50 milhões. São estimativas similares aos que estão na formalidade. Faz sentido a gente esperar que tenha, talvez, esse mesmo estoque de doenças nos trabalhadores informais, mas a gente não tem os dados”, disse ao Correio. Certo é que, ainda que limitado, o cenário retratado pela associação traz dados que devem mobilizar uma reação mais efetiva de gestores públicos e privados, sob o risco de terem suas atividades comprometidas em razão do adoecimento psíquico dos trabalhadores.

Os efeitos para além de carreiras e negócios também despertam preocupação. A geração que sequer chegou ao mundo profissional é a mais diagnosticada com transtornos psíquicos da história. De 2014 a 2024, o atendimento de crianças com 10 a 14 anos no SUS em razão de transtornos de ansiedade aumentou 12 vezes. No caso de adolescentes com 15 a 19 anos, 33.

Um dos caminhos para reverter esse cenário é falar sobre ele, possibilitando intervenções que evitem o surgimento dos transtornos ou incida sobre eles na fase inicial. “É preciso investir em ações preventivas desde a infância, passando pela adolescência, fase adulta e envelhecimento, em todos os ambientes, como escola, trabalho e família”, indica a psicóloga Ana Luíza Coelho, uma das autoridades que participam hoje de um debate promovido pelo Correio sobre os desafios da saúde mental no Brasil.

Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia

Em declaração recente, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, indicou que, em todo o mundo, eles passam por investimentos em pessoas, comunidades e economias, e que nenhum país pode se “dar ao luxo de negligenciar” a atual crise de saúde mental. Ter acesso a suportes preventivos e terapêuticos não pode ser entendido como um privilégio. Como ressalta Ghebreyesus, trata-se de um direito básico e que precisa ser viabilizado por todas as lideranças.

Tópicos relacionados:

filmes medicina negligencias tecnologias

Acesse o Clube do Assinante

Clique aqui para finalizar a ativação.

Acesse sua conta

Se você já possui cadastro no Estado de Minas, informe e-mail/matrícula e senha. Se ainda não tem,

Informe seus dados para criar uma conta:

Digite seu e-mail da conta para enviarmos os passos para a recuperação de senha:

Faça a sua assinatura

Estado de Minas

Estado de Minas

de R$ 9,90 por apenas

R$ 1,90

nos 2 primeiros meses

Aproveite o melhor do Estado de Minas: conteúdos exclusivos, colunistas renomados e muitos benefícios para você

Assine agora
overflay