LEITOR FALA SOBRE O TRABALHO QUE ADOECE
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“Muitos trabalhadores começam a sentir que produzir até cair e depois fingir surpresa não deve ser a tônica de quem quer vencer na vida. Muitos estão quebrados por dentro enquanto pagam a conta dos médicos. Há momentos em que a realidade grita tão alto que só não escuta quem escolheu o conforto da surdez seletiva. O crescimento explosivo dos afastamentos por burnout não é uma surpresa estatística nem um capricho de trabalhadores sensíveis demais. É o retrato fiel de um país que transformou o excesso em regra e a exaustão em método de gestão. E agora finge espanto ao ver a conta chegando pela porta da Previdência. O esgotamento profissional deixou de ser exceção e passou a integrar o cotidiano produtivo brasileiro. Trabalha-se mais horas, com menos limites, sob pressão constante e com a falsa promessa de reconhecimento que quase nunca vem. O resultado é previsível. Pessoas quebradas física e mentalmente recorrem ao sistema público para sobreviver. E o sistema, já fragilizado, range sob o peso de uma crise anunciada há anos. O mais curioso, para não dizer trágico, é que o mesmo modelo que cobra produtividade infinita é o que mais contribui para sua própria falência. Empresas pressionam até o limite, adoecem seus quadros e depois transferem o custo para o Estado. É o lucro privatizado e o prejuízo socializado em sua forma mais clássica. Nada de novo sob o sol. Apenas mais caro. Enquanto isso, o discurso oficial segue cuidadoso, quase tímido, como se falar claramente sobre saúde mental no trabalho ainda fosse um tabu inconveniente. Existe também um cinismo silencioso nessa história. Vive-se numa economia que idolatra desempenho e resiliência, mas que trata o adoecimento como fraqueza pessoal. Quem cai é visto como descartável. Quem resiste demais vira estatística. No fim, todos perdem, menos quem já lucrou o suficiente para não depender do sistema que agora está sob pressão. Não falta diagnóstico nem dado técnico nem alerta de especialistas. Falta decisão política e coragem institucional. Falta admitir que saúde mental não é benefício opcional nem modismo importado. É infraestrutura básica de qualquer país que pretenda continuar funcionando. Ignorar isso é escolher conscientemente a próxima crise.”
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GREGÓRIO JOSÉ
Belo Horizonte