Artigo

O preço dos descompassos

A vaidade ostentada pelo esbanjamento e pelo luxo desmedido de residências, de objetos, roupas e maquinários contracena com cenários vergonhosos de pobreza

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

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Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte

É sempre muito elevado, e a longo prazo, o preço que se paga pelos descompassos nas instituições, na família e em todos os contextos sociais. O descompasso é uma face da condição frágil e limitada do ser humano. Requer redobrada atenção e empenhos efetivos para sua superação e consequente reconfiguração de cenários. Descompassos exigem permanentes avaliações em busca de novas respostas para a superação de limites e de situações críticas, particularmente aquelas que ferem diretamente a dignidade humana. A gênese e o tratamento a ser dado aos descompassos que ferem a convivência humana devem ser colocados sempre em pauta para que não deixem de incomodar, instalando-se como normalidade.

Descompassos são processos que precisam do domínio e das luzes de análises especializadas e específicas, mas, ao mesmo tempo, devem ser do domínio comum, para promover uma sensibilidade social em novo patamar civilizatório, o que é uma urgência em se considerando o volume de cenários descompassados na contemporaneidade. Os descompassos são, pois, uma ferida na alma da sociedade e um peso nas suas instituições e segmentos. O cidadão comum também tem o dever de ocupar-se dos descompassos existentes envolvendo-se no compromisso de superá-los e, consequentemente, dar rumos novos à sociedade. Importante, prioritariamente, é o conhecimento dos descompassos morais, de todo tipo, que impõem consequências nefastas ao funcionamento da organização social numa determinada localidade ou instância. O descompasso moral fecunda esquemas perversos de corrupção, pela força sedutora de se ter benefícios que alimentem a patologia de possuir sempre mais, insaciavelmente, como um vício que perverte a alma.

Escandalosos são os comprometimentos ético-morais no desempenho de serviços prestados ao bem comum. A representação pública sofre golpes terríveis e prejudiciais. Deixa-se na sombra o que é prioritário para dar lugar a figadais disputas ideológicas e partidárias, no sentido estrito de apenas parte negociar em benefício próprio, e diabolicamente, todo o conjunto do bem comum. O dinheiro é um vetor fortíssimo na alimentação de descompassos, atingindo até mesmo os mais jovens, que, por exemplo, assentam os seus sonhos na possibilidade de ganhos pecuniários exorbitantes, relativizando percursos educativos essenciais na participação civilizatória. Os números exorbitantes de negociações, contratos e salários seduzem e enjaulam a cultura em parâmetros importantes, mas apequenados em se considerando projetos e empreendimentos de relevância social. A vaidade ostentada pelo esbanjamento e pelo luxo desmedido de residências, de objetos, roupas e maquinários contracena com cenários vergonhosos de pobreza, revelando uma compreensão distorcida de direitos sociais, justificando brechas crescentes entre ricos e pobres.

Perverso é o descompasso que aprova ganhos exorbitantes e benefícios desnecessários, causando revoltas, cristalizando discriminações. Estes descompassos se instalam também na ordem social, como é o caso da configuração tributária que pesa demais sobre os ombros de quem produz e mantém postos de trabalho, em consequência, esvaziando o bolso de quem trabalha, não lhe permitindo viver dignamente e cuidar dos seus. Daí, certamente, vem o ódio das disputas geradoras de violências pelo peso insuportável da exclusão e da discriminação social. O descompasso do entendimento justifica a existência da banda menor que tem demais, muito além do necessário, e da banda maior dos flagelados e sacrificados. Instaura-se a perversa situação do viver na abundância, mesmo inferida de processos inadequados e injustos. Esta dimensão alimenta e justifica a chaga civilizatória de quem mora regiamente e de quem vive em condições desumanas. Habitua-se a um urbano que é o retrato do descompasso social. Nesta direção, a mobilidade urbana é um caos para quem tem menos, patenteando a discriminação, sacrificando vidas. O que pensar dos descompassos quando em questão está o poder aquisitivo da população? Vergonhosa e preocupante é a situação da população que não consegue ganhar o suficiente para se manter dignamente, enjaulada em programas sociais e humanitários que garantem a comida de hoje, mas mata a disposição da participação social cidadã e extingue o próprio do humano, no seu desejo de trabalhar e contribuir para a qualificada cidadania que sustenta o sentido nobre do viver humano.

Estes descompassos e outros muitos são validados pelas irracionalidades de lideranças políticas envolvendo o mundo numa briga sem fim. Descompassos que justificam autoritarismos intervencionistas, conivências ideológicas e manutenção por interesses espúrios de muitos funcionamentos. Não é barato o preço pago pelos descompassos ambientais, aprisionando procedimentos e metas na lógica do lucro, quando se negocia e fere bens primários, como a água, com comprometimentos ambientais que trazem prejuízos de todo tipo. Também escancarado é o descompasso entre o que mostra a balança comercial ou o superávit em confronto com gastos públicos, benefícios sociais e a real e vergonhosa situação de pobreza da população. Ainda, o descompasso do sentido patriótico, mais evidente em partidas esportivas do que na solidariedade efetiva entre pessoas. Multiplicam-se a partir daí os descompassos que matam o sentido de gratidão e eleva o nível de disputas sanguinárias e desleais entre indivíduos, grupos, partidos e segmentos.

Esses múltiplos descompassos pedem tarefa cidadã: o conhecimento das suas causas e comprometimento democrático e participativo da sociedade, pois o alto preço pago pelos descompassos atrasa e distancia a humanidade de seu verdadeiro horizonte.

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