editorial

A intervenção na Venezuela e a diplomacia em declínio

A reunião da OEA expõe o esgotamento das instituições multilaterais como mediadoras de conflitos globais

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A reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos (OEA) realizada ontem, em Washington, cumpriu um rito diplomático necessário, mas carregou a melancolia das formalidades tardias.

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Enquanto embaixadores discorreram sobre a inviolabilidade das fronteiras, a defesa das soberanias nacionais e o apoio ao direito internacional, a realidade imposta pela operação militar dos Estados Unidos em solo venezuelano, deflagrada no último sábado, já se consolidou como fato consumado. O descompasso entre o tempo da diplomacia e a velocidade da força bruta serve como um triste epitáfio para a ordem global desenhada no pós-Segunda Guerra.


Não se trata, óbvio, de defender o regime de Caracas, cujo histórico de autoritarismo e violações de direitos humanos é amplamente documentado e condenável. Mas é fundamental reconhecer que não existe mais a arquitetura de segurança internacional, erguida sob a promessa de que o diálogo, a moderação e a diplomacia prevaleceriam sobre a força.


A ação unilateral norte-americana – uma incursão cirúrgica para a captura de um chefe de Estado estrangeiro sem o aval do Conselho de Segurança da ONU – ignorou a soberania nacional, um princípio caro à tradição diplomática brasileira e latino-americana.


Para a OEA, o episódio é particularmente desmoralizante. Criada para ser o fórum de diálogo hemisférico, a organização viu-se reduzida à irrelevância, incapaz de prevenir a escalada da crise ou de oferecer uma saída negociada que evitasse o desfecho militar.


A paralisia, claro, não é exclusiva do continente: reflete o colapso funcional da ONU e de seu Conselho de Segurança, travados pelo poder de veto e transformados em palanques estéreis, enquanto EUA, Rússia e China redesenham o mapa geopolítico com base em seus interesses imediatos de segurança e influência, um conceito que já se considerava ultrapassado desde o fim da Guerra Fria.


No discurso feito pelo representante brasileiro na comissão permanente da OEA, embaixador Benoni Belli, o Brasil condenou a violação da integridade territorial vizinha. A fala reflete a postura coerente com a tradição do Itamaraty, de defender a não intervenção e a autodeterminação dos povos.


Mas o que se assiste na OEA e na ONU é o retorno perigoso das relações globais em sua forma mais crua, onde a lei internacional é um acessório retórico, descartável quando convém ao mais forte. Se as instituições criadas em 1945 e 1948 não conseguem mais mediar as tensões do século 21, o mundo caminha para uma instabilidade crônica e a substituição da cooperação internacional pela subordinação.

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Cabe, portanto, a busca por uma reforma profunda dos organismos multilaterais. O episódio não deve ser tratado como um caso isolado, e sim como o sintoma agudo de uma doença sistêmica, de irrelevância e insignificância. A reunião da OEA e sua baixa efetividade deveriam ser menos um lamento e mais um alerta: ou o mundo reinventa e reforça o direito internacional, ou seremos jogados na lei da selva.

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