Conveniência marca novo conflito
O que está evidente é mais uma vez o uso da força militar com objetivos secundários, ignorando completamente os danos causados contra civis
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Siga noO mundo assiste a um novo conflito no Oriente Médio, agora entre Israel e Irã. Ao contrário do que acontece nos embates contra o Hezbollah no Líbano e contra o Hamas na Cisjordânia, Jerusalém tem, agora, um adversário com capacidade bélica bem mais ameaçadora, capaz de colocar em risco uma maior parte da população israelense. Essa constatação forçou líderes mundiais a alertarem para a retirada de seus civis dos dois países nos últimos dias – no Brasil, comitiva de prefeitos e secretários que visitava Israel conseguiu socorro a partir da Jordânia após momentos de muita apreensão.
Diante de tantos riscos para o Oriente Médio, por que Israel dobrou a aposta ao atacar o Irã? É preciso contextualizar. Os persas e os judeus foram aliados por muito tempo, ao reunir esforços contra as nações árabes – mais emblematicamente durante o conflito do Irã contra o Iraque de Saddam Hussein. Isso começou a mudar quando Israel invadiu o Líbano em 1982, prejudicando duramente a população xiita – denominação do islã majoritária no Irã.
Desde então, como maior país xiita, o Irã financia a comunidade libanesa na guerra contra Israel – reforço que originou, entre outros grupos, o atual Hezbollah. Com o fim da Guerra Fria no início dos anos 1990, a relação entre Teerã e Jerusalém degringolou de vez. Enquanto os judeus buscavam acordos com os árabes, como o tratado de paz Israel-Jordânia articulado por Bill Clinton em 1994, os persas procuravam aumentar suas influências no Oriente Médio, se aproximando, por exemplo, da Palestina.
Arcabouço histórico à parte, Irã e Israel hoje ocupam lados opostos no xadrez da geopolítica. Enquanto o governo do aiatolá Ali Khamenei se aproxima da China e da Rússia – inclusive com intercâmbio de tecnologia armamentista com esse último país –, a gestão de Benjamin Netanyahu sempre esteve ao lado da Casa Branca – movimento que não surpreende ninguém.
Desde a nova escalada entre Israel e Irã, algumas observações chamam a atenção. A primeira delas é o momento em que ocorre o ataque de Netanyahu. Pressionado internamente e na comunidade internacional pela destruição em Gaza, o primeiro-ministro israelense enfrentou uma moção que poderia significar o fim do seu governo neste mês. Mesmo ameaçado, permaneceu. Com ao menos seis meses de sobrevida, ele tenta criar um “fato novo” em busca de apoio popular, retirando o foco do conflito na Cisjordânia.
A conveniência da nova escalada da morte não serve apenas a Netanyahu. O novo conflito no Oriente Médio pode servir de moeda de troca para os Estados Unidos nas negociações conduzidas com a Rússia para alcançar uma trégua na invasão de Moscou na Ucrânia – Trump e Putin reforçaram o diálogo nessa frente nas últimas semanas. Em um cenário de Kiev e Teerã em pratos opostos, a balança da paz pode ser alcançada nos dois embates? É uma aposta ousada, porém possível.
O panorama do mais novo conflito também envolve líderes europeus, que se manifestaram a favor de Israel nas primeiras horas após o início do embate com o Irã. Como observou o doutor em sociologia e pesquisador Serge Katz em recente texto publicado na plataforma Substack, a posição adotada por Emmanuel Macron (França) e Keir Starmer (Reino Unido) é um claro alinhamento civilizacional dessas nações ao lado de Israel. Apresentando-se como estadistas, Macron e Starmer veem a escalada do conservadorismo nos países que governam. Com esse crescimento, vem também o aumento da resistência dos europeus aos muçulmanos, um fundo eleitoral relevante no mundo ocidental. A diplomacia dá lugar ao “nós contra eles”, em defesa do Ocidente.
Não há mocinhos entre Israel e Irã. O que está evidente é mais uma vez o uso da força militar com objetivos secundários, ignorando completamente os danos causados contra civis – em patamares muito superiores a guerras anteriores, a partir do uso de forças aéreas que não faziam parte, por exemplo, das ofensivas dos EUA no Afeganistão e no Iraque no início do século.
Como se sabe, a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Em meio a todo pano de fundo do conflito no Oriente Médio, estão os milhares de cidadãos e cidadãs do Irã e de Israel que perderam e ainda perderão suas vidas nas próximas semanas. Independentemente do desfecho, é o povo quem sempre sai derrotado.