O que é letramento em inteligência artificial e o que ele exige de quem lidera
compartilhe
Em termos simples, letramento em inteligência artificial é ter conhecimento suficiente sobre a tecnologia para usá-la e avaliá-la com critério. Não se confunde com formação técnica e não pressupõe saber programar. Na Europa, deixou de ser apenas uma boa prática e passou a ser exigência legal.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Como virou exigência na União Europeia
A virada veio com o AI Act, a lei de inteligência artificial da União Europeia. Desde 2 de fevereiro de 2025, ela obriga as empresas que desenvolvem ou utilizam sistemas de IA a adotar medidas de letramento em IA para as pessoas que operam esses sistemas em nome delas. A regra, portanto, não se limita a quem constrói a tecnologia: alcança também quem apenas a usa.
No Brasil, não há obrigação desse tipo em vigor. O PL 2338/2023, que trata do marco legal da IA, passou pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita na Câmara dos Deputados. A ausência de lei, porém, não torna o assunto menos urgente para quem dirige uma empresa.
O que se espera de quem lidera
Para quem está na diretoria, o conteúdo desse letramento é mais prático do que técnico, na avaliação de Guilherme Friol, fundador da Vircos e executivo com 20 anos de carreira em tecnologia. Segundo ele, nenhum diretor precisa programar, escolher modelo ou montar um laboratório. O que o diretor precisa é de repertório para três tarefas: saber ler uma proposta, fazer a conta de três anos e definir o que deve ficar dentro de casa.
Esse conhecimento, na visão de Friol, precisa estar na própria diretoria, e não apenas nas equipes técnicas. Sem ele, quem aprova o projeto acaba decidindo pela única coisa que consegue avaliar, a demonstração, e as escolhas que de fato pesam numa contratação, que são de negócio, ficam sem dono.
As três tarefas, uma a uma
Ler uma proposta significa reconhecer quando o que está sendo vendido como “treinamento” é, na verdade, configuração, e perceber se a regra de negócio da empresa vai ficar guardada no sistema de um terceiro. Inclui também perguntar o que acontece se o fornecedor trocar o modelo usado pela ferramenta.
Fazer a conta de três anos é projetar quanto o projeto vai custar ao longo desse período, e não só no piloto. Com cobrança por consumo, a fatura pode se multiplicar quando o uso se espalha pela empresa, e por isso o teto de consumo precisa ser combinado antes da assinatura.
Saber o que fica dentro de casa é distinguir duas coisas: tarefas que são iguais em qualquer empresa, que podem ser compradas prontas, e aquilo que carrega a regra do negócio, que precisa continuar sob controle próprio. É nessa conta que entra a cláusula de saída, que devolve à empresa os dados e as regras que ela colocou no sistema.
“Preparar um executivo para a inteligência artificial não é ensinar ferramenta. É devolver a ele a capacidade de decidir sobre o próprio negócio”, resume Friol.
Um alerta para quem decide
O alerta vale também para quem ainda não está sujeito a nenhuma exigência legal de letramento. No Panorama 2026, levantamento da Amcham Brasil com a Humanizadas que ouviu 629 executivos de médias e grandes empresas, a inteligência artificial aparece no topo das prioridades, mas 61% dos líderes dizem ainda não ter percebido impacto relevante nos resultados.
Para Friol, parte da explicação está na própria diretoria, que passou a decidir sobre a tecnologia sem o repertório necessário para isso.
“A inteligência artificial deixou de ser assunto da TI no dia em que começou a influenciar decisões sobre preços, crédito, atendimento e contratos. A partir daí, o executivo que não entende o que ela faz não está delegando, está abdicando”, afirma Friol.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Em resumo, letramento em IA, para um líder, é saber o suficiente para não decidir no escuro: entender o que está sendo comprado, quanto aquilo vai custar depois do piloto e o que precisa seguir sob controle da empresa. A parte técnica pode continuar com especialistas. A decisão, não.