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Elas temem câncer de mama, mas são as doenças cardiovasculares que matam mais as mulheres no Brasil

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Ela tem 45 anos, administra a carreira, a casa e os filhos. Dorme mal, come correndo e nunca faltou ao exame anual da mama. O que ela (e a maioria das brasileiras) não sabe é que o maior risco à sua vida não mora no que ela mais teme, mas sim no infarto, no AVC, na insuficiência cardíaca, que ela nem imagina.

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Segundo a Organização Mundial da Saúde, as doenças cardiovasculares respondem por um terço das mortes de mulheres no mundo, cerca de 8,5 milhões de óbitos por ano, mais de 23 mil por dia. No Brasil, estima-se que mais de 30% das mortes femininas sejam causadas por infarto, AVC e insuficiência cardíaca, um índice que supera, somadas, as mortes por câncer de mama e de colo do útero. Segundo a Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP), no ritmo atual, uma mulher morre por infarto a cada 12 minutos e por AVC a cada 10 minutos.

É justamente esse cenário que motivou a SBC a publicar, em posicionamento oficial do seu Departamento de Cardiologia da Mulher, um alerta: as doenças cardiovasculares seguem sendo subdiagnosticadas nas mulheres, o que atrasa o início do tratamento e aumenta o risco de complicações graves, como infarto e AVC.

Ainda assim, a percepção de risco permanece invertida. Enquanto o Outubro Rosa mobiliza milhões de mulheres para o rastreamento do câncer de mama (campanha que tem pleno mérito), o coração feminino segue subestimado, inclusive dentro dos consultórios.

1. O coração da mulher não é o coração do homem

Durante décadas, a medicina olhou para o coração de forma quase universal, como se homens e mulheres apresentassem os mesmos fatores de risco, a mesma evolução das doenças e as mesmas respostas ao tratamento. A ciência já mostrou que não.

Você sabia que o DIABETES e o TABAGISMO agridem muito mais o corpo da mulher do que o do homem?

As artérias coronárias femininas têm menor calibre e anatomia própria. As oscilações hormonais ao longo da vida (gravidez, período reprodutivo, transição para a menopausa) alteram o perfil de risco cardiovascular. E a mulher apresenta, com mais frequência, quadros que seguem sendo pouco reconhecidos, como a disfunção microvascular coronariana, a dissecção espontânea de coronária e a síndrome de Takotsubo, esta última, diretamente associada a episódios de estresse intenso.

Existem fatores de risco exclusivos ou predominantemente femininos, que historicamente ficaram fora do "checklist" cardiovascular clássico: menopausa, hipertensão na gravidez (pré-eclâmpsia), síndrome dos ovários policísticos, endometriose, uso de contraceptivos hormonais na idade fértil.

E cada evento tem seus próprios gatilhos: no infarto, o principal fator exclusivo é a menopausa; já o AVC está associado à gravidez e ao puerpério, ao uso de estrógenos exógenos e ao tempo de exposição aos estrógenos endógenos, ou seja, ao intervalo entre a primeira menstruação e a menopausa.

"Durante muitos anos, as mulheres não foram representadas em número suficiente nos estudos cardiovasculares. Felizmente, a literatura, e agora também o posicionamento oficial da SBC, passou a olhar com atenção para essas diferenças. É essa ciência que nos permite, hoje, prevenir de forma realmente individualizada", explica Dra. Larissa Bethania.

2. Quando o estresse e a depressão deixam de ser emocionais

Existe um elemento que precisa entrar definitivamente nessa conversa: o estresse crônico.

A mulher contemporânea administra múltiplas jornadas: pressão profissional, responsabilidades domésticas, cuidados com filhos e familiares, cobranças sociais. Na prática, a mulher carrega uma sobrecarga de cobranças desde a infância muito maior que a do sexo masculino. Quando essa sobrecarga se torna permanente, o impacto não fica restrito à saúde mental: reflete-se em alterações do sono, da pressão arterial, dos hábitos alimentares e do sedentarismo, todos fatores que aumentam o risco cardiovascular.

"Falar em prevenção cardiovascular feminina também significa falar em gerenciamento de estresse e depressão. A proposta é compreender a mulher de maneira integral, para entender melhor os fatores de risco bem estabelecidos e específicos da mulher, bem como os sub-reconhecidos (Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa - 2024, SBC; Figura 5.5)", sugere Dra. Larissa Bethania.

3. Menopausa exige um novo olhar

A chegada da menopausa é o segundo marco de atenção: com o fim da proteção hormonal natural, observa-se aumento da prevalência de doença cardiovascular e de morte cardiovascular na mulher. Com a redução do estrogênio, ocorrem mudanças metabólicas e cardiovasculares capazes de alterar o perfil de risco. É exatamente nessa fase que o acompanhamento médico individualizado ganha ainda mais importância.

Na menopausa, vale ainda um olhar para a tireoide. Os distúrbios da tireoide são significativamente mais comuns em mulheres e sua incidência aumenta com o envelhecimento, por isso, nessa fase, não deixe de investigar sua função tireoidiana, já que ela também é um fator de risco para as doenças cardiovasculares.

Para você, mulher na menopausa, entender mais: consulte as Figuras 3.1 e 3.2 da Diretriz Brasileira sobre a Saúde Cardiovascular no Climatério e na Menopausa - 2024, disponível em Arquivos Brasileiros de Cardiologia.

4. O que fazer antes que apareça o sintoma

A mensagem central é simples: prevenção começa antes do diagnóstico. Na prática, isso significa:

Conhecer seus números: pressão arterial, colesterol, glicemia, função tireoidiana (TSH) e circunferência abdominal, avaliados periodicamente;

Não normalizar sintomas atípicos: náusea, tontura, dor na mandíbula, dentes, pescoço ou nas costas, dor no estômago, cansaço incomum e falta de ar podem ser manifestação de infarto na mulher;

Tratar o estresse como dado clínico: sono ruim, exaustão constante, ansiedade persistente e depressão merecem lugar na consulta médica;

Contar sua história reprodutiva na consulta: idade da primeira menstruação, todo o histórico da sua gestação, SOP, endometriose e uso de contraceptivos hormonais fazem parte da sua história de risco cardiovascular;

Antecipar a menopausa: a avaliação cardiovascular deve ser reforçada antes e durante a transição hormonal, não somente após a menopausa chegar.

5. Um chamado às mulheres do Brasil

Dra. Larissa quer levar essa informação além do consultório: para as mulheres que não têm tempo de ler um artigo médico, mas que precisam, urgentemente, conhecer o próprio risco. Ela vem estruturando conteúdos abertos de conscientização sobre o coração feminino em seu Instagram, pensados para alcançar donas de casa, executivas, mães e filhas em todas as regiões do país.

"Quero que cada mulher entenda que cuidar do coração não é esperar a doença aparecer. É praticar auto-observação diária, olhar para a própria rotina, conhecer seu corpo e reconhecer seus fatores de risco e começar a fazer escolhas diferentes antes que um problema aconteça", conclui.

A mulher da abertura desta matéria (45 anos, três jornadas, exames em dia) pode ser qualquer uma delas (dona de casa, executiva, mãe e/ou filha). Ou a própria leitora, você. Seu coração pede atenção agora, e não na próxima emergência.

Dra. Larissa Bethania - Cardiologista e Médica do Esporte (CRM-PA 9191 | RQE 4682 | RQE 4635 | RQE 9795

Consultas online / WhatsApp: (94) 98165-3500

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