Sammour Engenharia explica: controle tecnológico não é custo, é seguro
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Sammour Engenharia explica: controle tecnológico não é custo, é seguro
Cinco anos depois da entrega, aparece uma trinca. Um desnível no piso, uma porta que não fecha mais, uma fissura que atravessa a parede da sala. O condomínio aciona a construtora e começa a discussão que nenhum construtor quer ter: de onde veio o problema?
As respostas possíveis são muitas, e boa parte delas não tem nada a ver com quem construiu. Um morador que removeu uma parede com função estrutural na reforma. Aberturas e furos feitos sem projeto. Sobrecarga em um cômodo que virou depósito ou biblioteca. Piscina ou Jacuzzi em local onde não foi prevista sobrecarga. Uma obra no terreno vizinho. Infiltração que ninguém tratou. Ou, na outra ponta da lista, a hipótese que assombra qualquer construtora: a própria fundação do empreendimento.
O detalhe é que, entregue a obra, o prédio passa décadas nas mãos de terceiros, e a construtora segue respondendo pela solidez do que entregou. Segundo a ABNT NBR 15575 (Norma de Desempenho), publicada em 2021, a estrutura de fundação tem uma Vida Útil de Projeto (VUP) mínima exigida de 50 anos e, é, portanto, uma obrigação garantir seu correto funcionamento nesse período. Quando a patologia aparece nesse intervalo, a primeira pergunta prática não é "quem errou". É "o que está documentado".
O elemento que ninguém consegue ver
O problema é que a fundação é o único elemento de uma construção que não pode ser inspecionado depois de pronto. Estrutura, instalações e acabamento podem ser vistos, testados e refeitos. A fundação, não. Depois de concretada, ela "desaparece". Qualquer discussão futura sobre ela só pode se apoiar no que foi medido e registrado na hora da execução.
"A vistoria visual de estacas é tão limitada quanto o olho humano, e, portanto, não garantem desempenho ou conformidade técnica. O que existe são os ensaios de desempenho", diz Gabriel Sammour, engenheiro civil e responsável técnico da Sammour Engenharia Geotécnica, empresa mineira especializada em ensaios de controle de fundação. "Não existe segunda oportunidade de verificar uma fundação. Ou a capacidade de carga e a integridade são comprovadas durante a execução, ou a obra segue sem essa informação pelo resto da vida útil".
A norma brasileira de fundações, a NBR 6122, já trata a verificação por ensaio como requisito: a partir de determinada quantidade de estacas, uma parcela delas deve ser obrigatoriamente ensaiada. Ainda assim, parte do setor segue enxergando a etapa como item cortável quando o orçamento ou o cronograma de entrega aperta. É uma leitura que cobra caro em três frentes: no projeto, no risco e, sobretudo, na capacidade de se defender depois.
O que os ensaios respondem
Três ensaios formam a base do controle tecnológico de fundações, cada um respondendo a uma pergunta diferente.
A prova de carga estática (PCE) aplica carga real e crescente sobre a estaca e mede como ela se deforma. É a verificação de referência: a resposta direta à pergunta "esta fundação suporta o que o projeto previu?".
O ensaio de carregamento dinâmico (PDA) mede a resposta da estaca ao impacto e permite verificar a capacidade de carga em escala: dezenas de elementos por campanha. Em obras com centenas ou milhares de estacas e solo que varia ao longo do terreno, é o que transforma a amostragem em controle de verdade.
Já o teste de integridade de estacas (PIT) examina se a peça está íntegra da cabeça à ponta. Sem escavar nada, identifica falhas de concretagem, seções reduzidas e descontinuidades: defeitos que, de outra forma, só se manifestariam anos depois, já como patologia.
Por que tanta obra ainda pula essa etapa
Se os ensaios respondem perguntas tão decisivas, por que ainda há obras que os tratam como dispensáveis? A resposta quase nunca está no zelo de quem constrói: está na conta. Quem administra uma construtora vive espremido entre orçamento, prazo e margem, e, nessa pressão, sobreviveu no setor uma leitura herdada de outras épocas: a de que o ensaio é um refinamento para obras especiais, um item de luxo técnico que pode ser cortado quando a planilha ou os prazos apertam.
A norma, no entanto, já resolveu essa discussão. A NBR 6122 estabelece a verificação por ensaio como requisito de projeto e execução, não como opcional de quem quer fazer bonito. Quem pula a etapa não está escolhendo entre duas práticas aceitáveis; está fora do que a norma estabelece. E, num eventual questionamento futuro, esse é o primeiro fato a aparecer.
"A conta costuma ser feita com a comparação errada. Compara-se o custo do ensaio com zero, como se não realizá-lo não custasse nada. A comparação correta é outra: a campanha de ensaios representa uma fração mínima do investimento total de um empreendimento. Do outro lado estão um projeto superdimensionado, um risco sem medição e a ausência de qualquer prova do que foi entregue. Não há cenário em que essa troca seja vantajosa", avalia Gabriel Sammour.
O registro que separa responsabilidades
É aqui que o controle tecnológico deixa de ser assunto de canteiro e vira assunto de gestão. Cada ensaio executado gera relatório técnico e Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) registrada no Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia). Esse conjunto forma um acervo: o registro rastreável, datado e assinado de que a fundação foi verificada e de qual resultado apresentou no dia em que a obra foi entregue.
Na prática, o acervo funciona como uma linha de corte documental. De um lado, o que a construtora entregou, comprovado por ensaio. Do outro, tudo o que aconteceu depois: a reforma que removeu parede, o furo sem projeto, a sobrecarga, a obra vizinha. Quando surge a patologia e a origem está em disputa, é esse registro que retira a fundação da lista de suspeitos e desloca a investigação para onde ela deve estar.
"Depois da entrega, o prédio passa décadas na mão de outras pessoas. A única versão da fundação que a construtora consegue apresentar é a que ela documentou no dia em que entregou", afirma Sammour. "Sem esse registro, a empresa não consegue nem demonstrar o que fez certo. E a ausência de prova, na prática, trabalha contra quem construiu".
O contrário também vale, e é o argumento que costuma convencer os mais céticos: "Todo construtor sério faz a obra certa. Nem todo construtor guarda a prova de que fez", diz o engenheiro. "O ensaio não existe para desconfiar de quem executa. Existe para que, cinco anos depois, a empresa tenha o que mostrar".
E o cronograma?
Resta a objeção mais comum dentro das construtoras, que não é técnica nem financeira: é de prazo. "Não temos esses dias no cronograma" é frase que qualquer gestor de obra reconhece, e ela é legítima.
O que costuma faltar é a comparação correta. Os dias de ensaio são conhecidos e programáveis: o ensaio dinâmico verifica vários elementos por dia e corre em paralelo às frentes de serviço. O outro cenário não é programável, e não custa dias, custa meses. Quando a verificação entra no planejamento desde o início, ela não disputa espaço no cronograma; a colisão só aparece quando é tratada como etapa opcional a ser encaixada no fim.
Um mercado puxado pela exigência
A combinação de norma mais exigente, obras maiores e contratantes mais atentos à documentação vem sustentando um mercado especializado. É nesse nicho que atua a Sammour Engenharia Geotécnica, com sede em Belo Horizonte (MG) e unidades em Goiás e São Paulo: a empresa executa provas de carga estática e dinâmica, testes de integridade e ensaios de placa, com centenas de ARTs registradas e milhares de estacas ensaiadas em obras de mineração, parques de energia eólica, linhas de transmissão, saneamento e empreendimentos residenciais de grande porte, em mais de uma dezena de estados.
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Para o responsável técnico, o movimento tem menos a ver com fiscalização e mais com maturidade de gestão. "A fundação é a única parte da obra que você não pode olhar depois de pronta. Ou você comprova na hora, ou aceita não saber", diz Gabriel Sammour. "E aceitar não saber é entregar o prédio para décadas de reformas, usos e intervenções de terceiros sem guardar a única prova do que era seu".