Nas últimas semanas, uma investigação sobre fraudes bilionárias no Banco Master escalou para um confronto aberto no Supremo Tribunal Federal (STF). Decisões unilaterais, quebras de sigilo, acusações entre ministros e dois cancelamentos consecutivos de sessões da Corte marcaram o mês que antecede a eleição presidencial de 2026.

No centro da disputa estão o ministro André Mendonça, até o último sábado relator dos inquéritos do caso Master, e o ministro Alexandre de Moraes, que passou a ser investigado por sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco liquidado. A crise financeira, que já resultou no maior ressarcimento da história do Fundo Garantidor de Créditos, com um rombo estimado em cerca de R$ 47,3 bilhões, ganhou uma nova camada: a de uma disputa institucional dentro do mais alto tribunal do país, que culminou com o presidente da Corte, Edson Fachin, assumindo pessoalmente a condução do caso.

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O que aconteceu em 24 de agosto?

Em 24 de agosto, o ministro André Mendonça determinou que a Polícia Federal (PF) identificasse, em até 72 horas, todas as pessoas mencionadas em trechos de dois relatórios produzidos em fevereiro. Isso incluía possíveis autoridades com foro por prerrogativa de função no STF.

Qual a relação de Alexandre de Moraes com o caso Banco Master?

A relação de Alexandre de Moraes com o caso Banco Master surgiu em 1º de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo do material levantado pela PF. Entre os dados divulgados estavam mensagens enviadas por Daniel Vorcaro a um contato salvo em seu celular com o nome de Alexandre de Moraes — segundo a investigação, mais de 50 mensagens ao todo. Nessas mensagens, o banqueiro pedia ajuda relacionada às investigações e citava o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. As respostas do interlocutor não foram recuperadas pelos peritos.

No mesmo dia, Mendonça conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, para levar ao plenário a decisão sobre abrir ou não uma investigação formal contra Moraes.

Como Alexandre de Moraes reagiu às acusações?

Em 3 de setembro, Alexandre de Moraes reagiu formalizando um pedido de investigação contra Mendonça. O pedido foi baseado em relatórios de inteligência da própria PF que o próprio Moraes havia encomendado. As acusações incluíam improbidade administrativa, crime de responsabilidade e abuso de autoridade na condução das operações Sem Desconto (fraudes no INSS) e Compliance Zero (Banco Master).

No mesmo dia, o procurador-geral Paulo Gonet pediu a Mendonça que anulasse a própria decisão que havia originado o relatório da PF sobre Moraes. Fachin abriu prazo de cinco dias úteis para que Mendonça, Moraes, Gonet e Andrei Rodrigues se manifestassem por escrito sobre a condução do caso. O material sobre Moraes passou a tramitar em processo separado, a Petição 16.662.

Quais as suspeitas contra André Mendonça?

As suspeitas contra André Mendonça foram levantadas por mensagens que sugeriam o pagamento de um terno por um advogado ligado a Vorcaro. Em 4 de setembro, Mendonça apresentou notas fiscais para rebater essas suspeitas.

Por que a Corte cancelou duas sessões seguidas?

A crise se agravou com uma sequência de decisões unilaterais de Mendonça entre 8 e 9 de setembro. Ele determinou o afastamento cautelar do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de inteligência da corporação, Leandro Almada, sob a acusação de que ambos teriam participado da produção de relatórios considerados ilícitos.

Horas depois, na quarta-feira (9/9), o ministro Flávio Dino reverteu a decisão e reconduziu os dois ao cargo. Diante do conflito aberto entre os colegas, Fachin interveio no mesmo dia: suspendeu os efeitos tanto da decisão de Mendonça quanto da de Dino, cancelou a sessão que estava marcada para aquela tarde e convocou uma sessão extraordinária presencial do plenário para 15 de setembro. Na mesma decisão, revogou a designação que mantinha Alexandre de Moraes à frente do inquérito das fake news desde 2019, redirecionando à própria presidência do STF os novos casos que chegavam por prevenção a esse processo.

Uma segunda sessão, marcada para a quinta-feira seguinte (10/9), também acabou sendo cancelada por Fachin, que preferiu concentrar a discussão na sessão já convocada para o dia 15.

Quais documentos do caso Master foram retirados do sigilo?

Em 10 de setembro, a pedido de Fachin, Mendonça determinou a retirada do sigilo de documentos e peças processuais relacionados ao caso Master e à Operação Compliance Zero. As diligências ainda em andamento seguem sob sigilo.

Por que Gilmar Mendes cobrou cópia integral do celular de Vorcaro?

Em 11 de setembro, o ministro Gilmar Mendes cobrou formalmente de Fachin o fornecimento, a todos os gabinetes do STF, de uma cópia integral da mídia extraída do celular de Vorcaro. Segundo Gilmar, o material havia sido disponibilizado apenas ao gabinete de Mendonça, então relator do caso, o que, em suas palavras, comprometeria a paridade entre os integrantes da Corte na sessão marcada para o dia 15.

Fachin assume o comando do caso

No sábado, 12 de setembro, Fachin deu o passo mais decisivo até agora: avocou para si a relatoria da Petição 16.662, retirando o processo das mãos de Mendonça. Com isso, será o próprio presidente do STF quem vai relatar e presidir a sessão de terça-feira, concentrando na presidência da Corte a condução de um caso que, até então, vinha sendo marcado por decisões monocráticas conflitantes entre os colegas.

O que o STF deve decidir em 15 de setembro?

Em 15 de setembro, às 10h, o plenário do STF se reúne em sessão extraordinária presencial, sob relatoria do próprio Fachin, para julgar a Petição 16.662. Não se trata de um julgamento de mérito criminal: os dez ministros vão decidir a validade do procedimento que produziu o material sobre Moraes, a legalidade da ordem de Mendonça que aprofundou a análise do celular de Vorcaro, e o pedido da PGR para anular o procedimento. A partir daí, o colegiado definirá se os elementos relacionados a Moraes podem embasar uma investigação formal contra o ministro ou se devem ser descartados. Será a primeira vez na história da Corte que um ministro em exercício poderá ser formalmente investigado por decisão dos próprios colegas.

O pano de fundo da crise no Judiciário

Como o caso Banco Master chegou ao STF?

O caso Banco Master remonta a novembro de 2025, quando a defesa de Vorcaro alegou que a investigação sobre o banco alcançava pessoas com foro privilegiado. Isso levou o processo ao STF sob relatoria do ministro Dias Toffoli. Em 12 de fevereiro de 2026, após a descoberta de vínculos entre familiares de Toffoli e o resort Tayayá — empreendimento que também tinha relações com o entorno de Vorcaro —, ele deixou a relatoria, redistribuída por sorteio a Mendonça. Vorcaro está preso desde março, em decisão referendada por unanimidade pela Segunda Turma do STF.

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Levantamentos apontam que a rede de contatos de Vorcaro com os Três Poderes em Brasília é extensa e atravessa partidos e instituições. Isso ajuda a explicar por que o caso, nascido de uma crise bancária, se transformou também em uma crise de legitimidade dentro do Judiciário, às vésperas de uma eleição presidencial.


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