SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os policiais militares que atenderam à ocorrência da morte da soldado Gisele Alves Santana, 32, desconfiaram do comportamento do tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, marido da vítima, e tentaram impedir -sem sucesso- que ele tomasse banho no momento em que ele e o local deveriam ser preservados para perícia.
As gravações feitas pelas câmeras corporais dos PMs mostram que os agentes já consideravam que se tratava de um registro de "morte suspeita" (quando não é possível determinar a motivação imediatamente) em vez de suicídio, estranharam os detalhes que Neto forneceu sobre a morte e consideraram que o oficial recebeu tratamento diferenciado para o tipo de ocorrência.
No entanto, acabaram constrangidos por causa da alta patente, inclusive diante de uma postura ríspida do superior hierárquico, registrou um relatório policial. As informações foram publicadas pelo UOL e confirmadas pela Folha de S.Paulo.
Tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto (sem camisa) no apartamento onde sua esposa, a soldado Gisele Santana, havia acabado de ser baleada na cabeça; na imagem, ele aparece ao lado de um desembargador do TJ-SP
As conversas mostram que, caso não se tratasse de um tenente-coronel da PM, provavelmente não seria permitido que ele tomasse o banho. Havia preocupação com a perda de provas importantes que poderiam ser coletadas por um exame residuográfico no corpo dele, como vestígios de sangue e pólvora.
Geraldo Neto foi preso na quarta-feira (18/3) sob suspeita de feminicídio, fraude processual e violência doméstica. Laudos da Polícia Técnico-Científica apontam que ele teria dado um tiro na cabeça da esposa num apartamento no Brás, no centro de São Paulo.
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O tenente-coronel afirmou que Gisele cometeu suicídio na sala do apartamento enquanto ele estava tomando banho. A defesa dele disse que a prisão determinada pela Justiça Militar foi ilegal e que houve divulgação de informações da vida privada de Neto "muitas vezes por meio de conteúdos descontextualizados, ocasionando exposição indevida e repercussões que atingem sua honra e dignidade".
A transcrição das imagens mostra Neto avisando os policiais que vai tomar um banho após Gisele ser socorrida e retirada do local ainda com sinais vitais. Nesse momento, ele está acompanhado de um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, que tinha ido ao local a pedido do tenente-coronel.
Neto dirige-se ao desembargador no momento que avisa sobre o banho. Um soldado da PM informa que a ordem do tenente que chefiava a equipe era para que Neto apenas colocasse uma roupa e os acompanhasse até a delegacia. O soldado tenta impedi-lo de seguir em frente.
Um cabo também questiona o tenente-coronel se ele já não havia tomado banho, conforme seu relato inicial sobre o momento do disparo. O relatório policial que descreve as imagens registra que Neto reage de forma "ríspida", mandando chamar o tenente.
"Eu não tenho como virar para um coronel e dizer que ele não vai tomar banho", disse o tenente que chefiava a equipe. "Ele tá com um desembargador aqui no local, entendeu? O cara ligou para um desembargador, não é estranho?"
O tenente chega a conversar por telefone com superiores e explica tudo que havia estranhado no atendimento ao caso. Além da insistência em relação ao banho, o PM considera que Neto havia dado detalhes específicos demais, o que não é comum para situações de emergência como aquela.
Quando foi questionado sobre o que havia acontecido, enquanto estava sentado sem camisa no corredor do prédio, Neto descreveu detalhadamente o local onde guardava sua pistola -em cima de um guarda-roupa. Mais tarde, a reconstituição da perícia mostraria que Gisele não tinha altura suficiente para alcançar o local com facilidade.
Além disso, ao explicar as brigas que haviam levado à separação do casal, o tenente-coronel descreve todos os gastos que têm com a escola da filha de Gisele e com aluguel.
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O tenente da PM também relata que Neto não estava sujo de sangue, o que indicava que ele não havia tentado socorrer a vítima. Isso leva a um estranhamento ainda maior com a insistência sobre o banho.
"Ele não está com marcas de sangue de alguém que tenta massagem cardíaca, que pula em cima da pessoa, não tem nada disso comando, é estranho", diz o tenente. "O fato dele ficar justificando o porquê das brigas, ninguém pensa nisso agora, a pessoa quer se trocar logo e ver a pessoa, e prestar o apoio... então, ou ele está em choque, é possível, ou não é o que a gente está vendo [suicídio]."
O mesmo cabo que questiona Neto sobre o banho também deixa claro, em uma conversa com o tenente que chefiava a equipe, que considerava que o oficial estava recebendo tratamento diferenciado do que é o protocolo para casos do tipo.
"É tenente-coronel né. Se fosse um paisano [civil] a gente já arrasta pra perto", disse o cabo. "As conversas dele tá estranha."
Os policiais também debatem se Neto deveria ser levado diretamente ao distrito policial para prestar depoimento ou não. Nesse contexto, o tenente diz que o comportamento do oficial já indicava que havia motivos para desconfiar da tese de suicídio.
"Não vejo como só suicídio, eu vejo como morte suspeita", ele disse.
Um coronel da PM, que chegou ao local mais tarde para atender a ocorrência e orientar as equipes de campo, acaba por determinar à equipe que Neto seja levado ao Hospital das Clínicas, onde Gisele receberia atendimento de emergência e teria a morte confirmada, e só depois para a delegacia.
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"Tentativa de suicídio, pode ser que seja confirmado, pode ser até algo mais grave. Mas nesse momento vamos trabalhar com essas informações", disse o coronel ao tenente.
