Moradora de condomínio em SC quer remover restinga para alargar praia
Os internautas não pouparam críticas ao pedido: "Alguém avisa a bonita que é a restinga que impede o mar de entrar no condomínio caríssimo dela"
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Uma moradora do Residencial Varandas do Atlântico, um condomínio de alto padrão localizado no bairro Bombas, em Bombinhas, no litoral de Santa Catarina, causou polêmica ao enviar um vídeo e mensagens ao Jornal Razão reclamando do "avanço da vegetação de restinga" na faixa de areia em frente ao seu residencial. No material, ela alega que o crescimento da restinga está reduzindo o espaço para circulação e lazer na praia, especialmente durante períodos de maré alta, e cobra uma intervenção urgente da prefeitura local para remover a vegetação e "alargar" a área útil da praia.
O pedido, que viralizou nas redes sociais após ser compartilhado em um reel do Instagram pelo Jornal Razão, gerou uma onda de críticas de internautas, ambientalistas e especialistas. A restinga, uma formação vegetal típica de ecossistemas costeiros brasileiros, é protegida por lei federal como Área de Preservação Permanente (APP), e qualquer intervenção, como poda ou remoção, exige autorização de órgãos ambientais competentes, como o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA) ou o Ibama. "E agora!?", questiona o próprio jornal em sua postagem, destacando o impasse legal e ambiental.
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Luxo vs. natureza
Bombinhas, conhecida por suas praias paradisíacas e ecoturismo, é um dos destinos mais procurados no litoral catarinense. O Residencial Varandas do Atlântico, com apartamentos de alto luxo e vista privilegiada para o mar, atrai moradores abastados que buscam proximidade com a natureza – ironicamente, a mesma natureza que agora incomoda. A moradora, descrita por internautas como "a bonita das tapiocas" em tom irônico, parece ignorar que a restinga não é mero "mato absurdo", como alguns poderiam pensar, mas um elemento essencial para a sustentabilidade da costa.
De acordo com especialistas citados no relatório do Jornal Razão, em municípios litorâneos como Bombinhas, a restinga atua como uma barreira natural contra o aumento do nível do mar e a intensificação de ressacas – eventos de erosão costeira agravados pelas mudanças climáticas. Remover essa vegetação seria não apenas ilegal, mas um tiro no pé para os próprios moradores do condomínio.
Impactos ambientais
A remoção da restinga traria consequências devastadoras para o ecossistema local e para a própria comunidade. Essa vegetação é fundamental para fixar as dunas de areia, estabilizar o solo e prevenir a erosão costeira. Sem ela, o mar avançaria mais rapidamente sobre a praia, aumentando o risco de inundações e perda de território. Em casos semelhantes, como o julgado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em Florianópolis, construtoras foram condenadas por danos ambientais em áreas de restinga, destacando sua função em estabilizar manguezais e proteger a biodiversidade.
Especialistas em ecologia costeira alertam que a supressão da restinga acelera a desertificação das praias, afeta habitats de espécies endêmicas – como aves migratórias, tartarugas marinhas e plantas nativas – e contribui para o assoreamento de rios e lagoas próximos. Em Bombinhas, uma região já pressionada pelo turismo e expansão urbana, isso poderia intensificar problemas hidrológicos, como o aumento de sedimentos no mar, afetando a qualidade da água e a pesca local. Além disso, a perda dessa barreira natural agravaria os impactos de eventos climáticos extremos, como as enchentes que assolaram Santa Catarina em anos recentes.
Prejuízos para os moradores
Os internautas não pouparam críticas ao pedido, destacando os prejuízos que a ausência da restinga traria aos próprios condôminos. Como bem resumiu um comentário viral: "Alguém avisa a bonita que é a restinga que impede o mar de entrar no condomínio caríssimo dela ". Sem essa proteção, o condomínio ficaria mais vulnerável a inundações, com o mar potencialmente "arrebentando" as estruturas, como alertou outro usuário: "Aí depois o mar vai lá arrebentar com o condomínio dela".
Outros comentários enfatizam o aspecto legal e ético: "Retirar restinga é crime ambiental!!!!! São as restingas que evitam o avanço do mar sobre as casas", escreveu um internauta, ecoando preocupações ambientais. Há quem sugira soluções radicais, como "Nesse caso tem que tirar o condomínio", apontando para possíveis irregularidades na construção em áreas costeiras. A ironia domina: "A bonitona das tapiocas vai querer tirar a areia e colocar porcelanato", zombou outro, enquanto um terceiro destacou a desigualdade: "Alto padrão financeiro, baixíssimo padrão de inteligência! ".
Esses prejuízos vão além do físico: multas ambientais pesadas poderiam recair sobre o condomínio ou a prefeitura caso autorizassem a remoção, além de danos à imagem da região como destino sustentável. Em última análise, remover a restinga significaria perder uma defesa natural gratuita contra as forças do oceano, trocando-a por uma praia "alargada" que duraria pouco antes de ser engolida pelo mar.
Chamado à reflexão
Esse episódio em Bombinhas serve como alerta para o conflito crescente entre desenvolvimento urbano de luxo e preservação ambiental no litoral brasileiro. Enquanto moradores abastados buscam vistas perfeitas, ignoram que ecossistemas como a restinga são vitais para a sobrevivência de todos. Como bem pontuou um comentário: "A restinga tem mais função para o meio ambiente que ela pra sociedade". Ambientalistas cobram que a prefeitura de Bombinhas reforce a fiscalização e eduque a população sobre a importância dessa vegetação, evitando que pedidos como esse avancem.
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