MOSSORÓ, RN, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Os dois fugitivos da penitenciária federal de segurança máxima de Mossoró (RN) usaram uma barra de ferro retirada da estrutura da própria cela para escavar o buraco da luminária pelo qual conseguiram escapar, afirmam integrantes da cúpula das investigações.

 

Os detentos teriam conseguido a barra de ferro, de cerca de 50 centímetros, descascando parte da cela que já estava comprometida, devido a infiltração e falta de manutenção.

 

Depois, afirmam investigadores, eles amarraram um tecido azul do uniforme na ponta da barra, para servir de empunhadura.



 

Com uma ponta em forma de alavanca, eles teriam conseguido retirar a luminária do local e, com a força da barra, abrir a curvatura do buraco, até ter tamanho suficiente para passar o corpo.

 

Segundo essas pessoas, esta não foi a primeira vez em que presos descascaram a parede ou alguma parte da estrutura da cela para retirar uma barra de ferro neste presídio.

 

Também havia sido levantada a hipótese de que pessoas externas teriam levado a barra aos fugitivos, mas isso foi praticamente descartado por pessoas ligadas ao caso.

 

Investigadores também dizem que, como os dois detentos estavam submetidos ao sistema RDD (Regime Disciplinar Diferenciado) e não saíam para tomar banho de sol na área comum, não acontecia a revista dos agentes penitenciários após este momento nas celas, o que teria beneficiado a ação.

Ligados ao Comando Vermelho

 

As fugas, fato inédito em presídios federais, ocorreram na passagem de terça (13) para quarta-feira (14), mas os agentes da penitenciária só detectaram a ausência dos homens na manhã de quarta, quando as buscas começaram a ser realizadas.

 

Os fugitivos foram identificados como Rogério da Silva Mendonça, 36, conhecido como Tatu, e Deibson Cabral Nascimento, 34, chamado de Deisinho. Segundo as investigações, eles são ligados ao Comando Vermelho.

 

A dupla chegou a invadir uma casa na noite de sexta-feira (16) e fez uma família de refém. Do local, levaram dois celulares e carregadores.

 

De acordo com relatos dos familiares aos investigadores, eles fizeram muitas ligações por WhatsApp, sendo algumas para a capital do Rio de Janeiro, devido ao DDD. Na casa dos reféns, eles se alimentaram e fugiram novamente cerca de quatro horas depois com mantimentos.

 

Não houve violência, mas os moradores da comunidade Riacho Grande, zona rural de Mossoró (RN), relatam temor com a possibilidade de terem as casas invadidas.

"Dificuldade momentânea"

 

O ministro Ricardo Lewandowski (Justiça) chegou a Mossoró para acompanhar a buscas dos fugitivos neste domingo (18), quinto dia de tentativa de captura dos dois detentos.

 

Em rápido pronunciamento logo após o desembarque, o ministro disse que a fuga é uma "dificuldade momentânea" e que irá ser superada em breve.

 

"A minha presença aqui é, antes de mais nada, [para] mostrar que o governo federal está presente", disse Lewandowski. Segundo ele, o problema na penitenciária de Mossoró não afeta a segurança das cinco penitenciárias federais do país.

 

O ministro, que passa por sua primeira grande crise menos de um mês após ter assumido o ministério, foi ao Rio Grande do Norte acompanhado do diretor-geral em exercício da Polícia Federal, Gustavo Souza. Ele foi recebido no aeroporto pela governadora Fátima Bezerra (PT).

 

Em Mossoró, o ministro deve se reunir com os chefes das equipes de buscas na delegacia da Polícia Federal na cidade. Há previsão de uma entrevista à imprensa no final da tarde.

 

Segundo o Ministério da Justiça, há 300 agentes mobilizados na recaptura dos detentos, entre eles policiais federais, policiais rodoviários federais e policiais estaduais.

"Episódio mais grave da história"

 

A fuga provocou uma crise no governo e causou medo na população local. O juiz federal Walter Nunes, corregedor do Penitenciária Federal de Mossoró, disse à Folha que, "sem dúvidas", esse foi o episódio mais grave da história dos presídios de segurança máxima do país.

 

Os dois presos estavam em RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), onde as regras são mais rígidas que as do regime fechado. Nesse tipo de ala, há um local para o banho de sol para que os detentos não tenham contato com outros presos.

 

O presidente Lula (PT), que está em Adis Abeba (Etiópia), disse que pode ter havido um "relaxamento" e a "conivência" de agentes que trabalham no sistema penitenciário federal em Mossoró (RN).

 

"Estamos à procura dos presos e esperamos encontrá-los. Queremos saber obviamente como esses cidadãos cavaram um buraco e ninguém viu. Só faltou contratarem uma escavadeira. Parece que teve conivência com alguém do sistema lá dentro, mas não posso acusar ninguém", afirmou o presidente.

 

Ele disse, ainda, que a primeira sindicância para apurar as circunstâncias da fuga já havia sido instaurada pelo ministro da Justiça.

 

Como foi a fuga, segundo o governo

1. Sob reflexos do carnaval

A fuga da penitenciária federal de Mossoró ocorreu na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas (14), quando, segundo o ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, as "pessoas estão mais relaxadas". 

2. Lustre

A fuga ocorreu pela luminária, que não tinha estrutura protegida por uma laje de concreto, mas feita de alvenaria comum. 

3. Shaft 

A seguir, os dois detentos chegaram ao local da manutenção do presídio, onde estão máquinas, tubulações e toda a fiação. 

4. Teto 

De lá, a dupla conseguiu alcançar o teto do prédio. Também não havia havia nenhuma laje de concreto ou sistema de proteção. 

5. Ferramentas 

Na sequência, os fugitivos encontraram ferramentas que estavam sendo usadas na reforma interna do presídio. Segundo o ministro, havia um tapume de metal que protegia o local da reforma, mas que foi facilmente ultrapassado. 

6. Alicate 

Com um alicate para cortar arame, conseguiram passar pela grade que impedia o acesso ao lado externo do presídio. 

7. Apagão 

De acordo com o ministro da Justiça, algumas câmeras não estavam funcionando adequadamente, assim como lâmpadas, que poderiam ter ajudado na detecção da fuga.

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