Pesquisa sobre Alzheimer avança e expõe desigualdades
Relatório Mundial de Alzheimer 2026 mostra avanço na busca por tratamentos, mas alerta para barreiras ao recrutamento e concentração geográfica dos centros de pesquisa. Documento também defende a participação de pessoas que vivem com demência e familiares na definição dos estudos.
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O Relatório Mundial de Alzheimer 2026, lançado nesta segunda-feira (21), apresenta um cenário de intensa atividade na pesquisa sobre a doença. Produzido pela Alzheimer’s Disease International (ADI), o documento informa que 158 medicamentos são avaliados em 192 ensaios clínicos de Alzheimer em diferentes partes do mundo. No Brasil, a divulgação marca o Setembro Lilás, campanha promovida pela Federação Brasileira das Associações de Alzheimer (Febraz), representante da ADI no país.
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Os estudos precisam de cerca de 55 mil participantes, mas chegar a esse número é um dos desafios. Como cada ensaio adota critérios específicos de elegibilidade e muitos candidatos não passam pela triagem, o relatório estima que pelo menos 350 mil pessoas precisariam se candidatar para que as vagas fossem preenchidas. O documento também aponta que muitas pessoas desconhecem a possibilidade de participar de pesquisas e identifica falhas no encaminhamento de potenciais participantes aos centros responsáveis pelos estudos.
Mesmo diante das dificuldades de recrutamento, a pesquisa em Alzheimer vive um período de avanços. Para o neurocientista Mychael Lourenço, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador em Alzheimer, o cenário é promissor. “Estamos chegando cada vez mais perto de alvos que parecem relevantes para modificar o curso da doença. O conhecimento científico na área cresceu e se qualificou muito nas últimas duas décadas. Isso abre a possibilidade de impedir que a doença progrida, eventualmente interrompê-la em um momento mais inicial e, em última instância, chegar à cura. Eu vejo que os medicamentos que estão sendo desenvolvidos e aprovados são cada vez mais eficazes”, afirma.
A concentração geográfica dos centros de pesquisa é uma das desigualdades apontadas pelo relatório. São 3.156 locais na América do Norte, 1.363 na Europa Ocidental e Israel, 661 na Europa Oriental e Rússia, 571 na Ásia e 516 no Japão. A América Latina tem 321. África do Sul, Austrália e Nova Zelândia aparecem agrupadas, com 175.
Lourenço defende maior participação do Brasil nos ensaios clínicos. “O Brasil tem um potencial enorme de contribuir para o tratamento e para o entendimento da doença de Alzheimer”, afirma. Ele destaca a presença de pesquisadores brasileiros qualificados em diferentes áreas e cita, entre os obstáculos, questões regulatórias, falta de estímulo e de um ambiente favorável à pesquisa e limitações de infraestrutura, entre elas a dificuldade de realizar exames PET, usados para ajudar na confirmação de alterações no cérebro associadas ao Alzheimer.
Há ainda uma razão científica para ampliar a presença do país nesses estudos. “A população brasileira é muito diversa do ponto de vista genético e sociocultural. Isso é muito favorável para testar a eficácia das intervenções e entender se elas funcionam de maneira diferente entre grupos”, afirma Lourenço. “Incluir o Brasil nessas rotas de testes clínicos seria muito importante não só para validar intervenções terapêuticas para a nossa população, mas também para verificar se resultados obtidos em populações mais homogêneas se mantêm quando avaliados em grupos com características diferentes.”
A presença de pessoas que vivem com demência e de seus familiares desde as fases iniciais dos estudos está entre as recomendações do documento. O relatório orienta que essa escuta aconteça antes que protocolos e critérios estejam praticamente definidos.
Para Elaine Mateus, presidente da Febraz, essa presença precisa ter influência real. “O que aprendemos nesses processos é que ouvir pessoas que vivem com demência e suas famílias não pode ser uma etapa protocolar. A experiência delas precisa ajudar a definir as perguntas, as prioridades e o que será considerado um resultado importante. São essas pessoas que trazem o conhecimento da vida real para a pesquisa e para os espaços de decisão. As associações têm um papel fundamental ao reunir essas experiências e abrir espaço para que sejam consideradas”, afirma.
O relatório questiona ainda como os estudos avaliam se um tratamento trouxe benefício relevante. Para a ADI, mudanças em biomarcadores e resultados de testes cognitivos não bastam. É preciso medir efeitos na vida cotidiana, como manutenção da independência, capacidade de realizar atividades diárias, comunicação e qualidade de vida. Esses critérios, segundo a entidade, devem estar previstos desde o desenho da pesquisa.
Os 192 ensaios citados no levantamento dizem respeito a medicamentos para Alzheimer. A pesquisa clínica, porém, vai além dos fármacos. Reabilitação cognitiva, apoio psicossocial, exercício, tecnologias digitais e modelos de cuidado também são estudados. A recomendação é ampliar a produção de evidências nessas áreas, assim como na redução de riscos e mudanças no estilo de vida.
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O Setembro Lilás 2026 conta com a parceria da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) e da Associação Brasileira de Gerontologia (ABG). A campanha tem patrocínio de Lilly Brasil, Biogen e Eisai.
Website: https://febraz.org.br/