Iêmen

O perigo escondido sob a terra

Minas e explosivos abandonados continuam matando e mutilando crianças no Iêmen; artefatos permanecem espalhados por áreas residenciais, caminhos escolares e terrenos utilizados para brincar.

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No Iêmen, a ameaça dos explosivos permanece mesmo em áreas onde os confrontos diminuíram. Minas terrestres, granadas e munições não detonadas continuam espalhadas por estradas, plantações e comunidades, expondo crianças ao risco de morte ou ferimentos graves durante atividades cotidianas.

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Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 20 das 22 províncias do país apresentam contaminação por minas ou outros restos explosivos. O problema é consequência de anos de conflito entre os rebeldes houthis, forças ligadas ao governo internacionalmente reconhecido e outros grupos armados.

A dimensão da ameaça ficou evidente em junho de 2026, quando cinco crianças morreram e pelo menos outras sete ficaram feridas após uma explosão enquanto recolhiam sucata metálica em uma comunidade da província de Al-Dhalea, segundo informações recebidas pelo UNICEF.

A agência estima que 10,8 milhões de crianças necessitavam de assistência humanitária em 2026. Desse total, 7,3 milhões precisavam de serviços de proteção.

A presença de explosivos abandonados dificulta o retorno de famílias, a utilização de áreas agrícolas e o acesso seguro às escolas. Crianças sobreviventes podem enfrentar amputações, perda de visão e necessidade de reabilitação prolongada.

O UNICEF desenvolve campanhas de conscientização sobre os riscos desses materiais, além de apoiar serviços de proteção e atendimento aos sobreviventes.

A remoção dos artefatos exige equipes especializadas. Enquanto isso não acontece, objetos aparentemente comuns podem continuar ameaçando a vida de crianças muito depois dos combates.

“Disseram que eu tinha apenas duas horas de vida”

Wesam tinha 11 anos quando um artefato explosivo provocou a perda de um olho, um braço e uma perna. Anos depois, tenta construir uma carreira na área de tecnologia.

Wesam tinha apenas 11 anos quando encontrou um objeto que parecia um telefone, no Iêmen. Ao tocá-lo, uma explosão mudou sua vida para sempre. O menino perdeu o olho direito, o braço esquerdo e a perna esquerda. “Ouvi dizerem que eu só conseguiria sobreviver por mais duas horas e depois morreria”, recordou ao UNICEF, em dezembro de 2024.

Wesam sobreviveu, mas precisou enfrentar cirurgias, dores e uma longa reabilitação. Aprendeu a caminhar com uma prótese e a conviver com as sequelas.

“Eu não conseguia me movimentar porque minha outra perna também estava quebrada abaixo do joelho, por causa dos estilhaços”, contou.

Apesar das dificuldades, não abandonou os estudos. Concluiu o ensino médio e chegou à universidade, onde passou a estudar programação e segurança cibernética. “A deficiência não está no corpo, mas na mente”, afirmou.

 Em Taez, no Iêmen, uma menina permanece diante de uma escola danificada por um ataque aéreo. Em outra rua da cidade, crianças caminham ao lado de um veículo perfurado por estilhaços. As duas cenas revelam como a violência se incorporou à paisagem e à rotina dos mais jovens. Entre salas de aula destruídas e marcas dos confrontos, crescer significa conviver com perigos que deveriam estar longe dos caminhos da escola e das brincadeiras. A destruição permanece onde antes havia espaço para aprender e viver em segurança.
Em Taez, no Iêmen, uma menina permanece diante de uma escola danificada por um ataque aéreo. Em outra rua da cidade, crianças caminham ao lado de um veículo perfurado por estilhaços. As duas cenas revelam como a violência se incorporou à paisagem e à rotina dos mais jovens. Entre salas de aula destruídas e marcas dos confrontos, crescer significa conviver com perigos que deveriam estar longe dos caminhos da escola e das brincadeiras. A destruição permanece onde antes havia espaço para aprender e viver em segurança. ALEXIS HUGUET

Para entender o conflito no Iêmen

1990
Unificação do país
Iêmen do Norte e Iêmen do Sul se unem, formando a atual República do Iêmen. Divergências políticas e regionais persistem.


2004
Rebelião houthi
O movimento houthi inicia confrontos contra o governo na região de Saada, no norte do país.


2011
Protestos populares
Manifestações contra o presidente Ali Abdullah Saleh provocam uma crise política que leva à transferência de poder no ano seguinte.


2014
Surgimento do M23
Os houthis assumem o controle da capital e ampliam sua presença territorial, aprofundando a crise.


2015
Intervenção estrangeira
Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita inicia operações militares para apoiar o governo internacionalmente reconhecido.


2022
Trégua temporária
Um acordo mediado pela ONU reduz a intensidade dos principais confrontos, mas não resulta em uma solução política definitiva.


2026
Explosivos continuam matando
A população permanece exposta às consequências do conflito. Minas e munições abandonadas provocam novas vítimas, incluindo crianças.

“Disseram que eu tinha apenas duas horas de vida”

Wesam tinha 11 anos quando um artefato explosivo provocou a perda de um olho, um braço e uma perna. Anos depois, tenta construir uma carreira na área de tecnologia.

Wesam tinha apenas 11 anos quando encontrou um objeto que parecia um telefone, no Iêmen. Ao tocá-lo, uma explosão mudou sua vida para sempre. O menino perdeu o olho direito, o braço esquerdo e a perna esquerda. “Ouvi dizerem que eu só conseguiria sobreviver por mais duas horas e depois morreria”, recordou ao UNICEF, em dezembro de 2024.

Wesam sobreviveu, mas precisou enfrentar cirurgias, dores e uma longa reabilitação. Aprendeu a caminhar com uma prótese e a conviver com as sequelas.

“Eu não conseguia me movimentar porque minha outra perna também estava quebrada abaixo do joelho, por causa dos estilhaços”, contou.

Apesar das dificuldades, não abandonou os estudos. Concluiu o ensino médio e chegou à universidade, onde passou a estudar programação e segurança cibernética. “A deficiência não está no corpo, mas na mente”, afirmou.

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