Trump diz que bombeiros o carregaram durante o 11 de setembro, mas não há provas
Presidente dos EUA afirma ter sido retirado às pressas por dois bombeiros após temer que edifício próximo ao World Trade Center desabasse; registros confirmam que ele esteve em Ground Zero nos dias seguintes, mas não há evidências públicas de que tenha vivido o episódio narrado
compartilhe
SIGA
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, causou polêmica na imprensa ao relatar que foi carregado pelos bombeiros durante os atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos. Durante uma cerimônia em Washington na terça-feira (8/9), às vésperas do 25º aniversário dos ataques, Trump afirmou que dois bombeiros o levantaram pelos braços e correram com ele para longe de um prédio que, segundo ele, parecia prestes a desabar.
????BREAKING: Donald Trump claims that he was lifted out of the rubble on 9/11:
— Lucas Sanders ???????????????????? (@LucasSa56947288) September 8, 2026
"Two fireman, big strong guys, they grabbed me under the arms -- 'got to get our of here!' -- and they lifted me up, and they started running with me."
(Never happened) pic.twitter.com/Lf2FRwQND0
“Achamos que ia cair em cima de nós, e dois bombeiros, caras grandalhões — e eu não sou o menor cara do mundo — me pegaram pelo braço e disseram: ‘Tem que sair daqui!’. E eles literalmente me levantaram”, contou Trump.
Leia Mais
“Isso não é fácil de fazer. Eu sou gordo. Eles me levantaram e começaram a correr comigo. Eu disse: ‘Galera, eu consigo correr sozinho’. Mas eles foram incríveis”, completou.
A declaração foi feita durante um evento da fundação Tunnel to Towers, no The Ellipse, parque localizado ao lado da Casa Branca. A cerimônia marcou o início das homenagens aos 25 anos dos ataques e contou com a exposição de uma viga de aço retirada dos escombros do World Trade Center.
No entanto, não há registro de que Trump esteve no local no dia 11 de setembro. O que ocorreu é que o então empresário do ramo imobiliário levou trabalhadores dois dias depois dos ataques para ajudar nos esforços de recuperação em Lower Manhattan.
Mesmo com os registros de que Trump esteve nas proximidades do local nos dias posteriores aos ataques e de que havia preocupação real com a segurança de edifícios da região, não há evidências públicas que comprovem que ele tenha sido carregado por bombeiros durante uma evacuação.
O que Trump afirmou
Ao recordar os ataques, Trump disse que levou “muitos dos meus homens” para o local logo depois da tragédia. “Estava construindo um grande edifício em Nova Iorque e levei toda a equipa para lá imediatamente depois de isto ter acontecido”, afirmou.
Na sequência, descreveu uma situação de pânico provocada por um prédio que, segundo ele, estava “rangendo” e poderia cair.
“Pensámos que ia cair em cima de nós, e dois bombeiros — homens grandes e fortes — agarraram-me debaixo dos braços e disseram: ‘Temos de sair daqui’”, contou.
Trump afirmou ainda que os bombeiros o levantaram e começaram a correr com ele. Segundo o presidente, ele teria dito que conseguia correr sozinho, mas os homens insistiram em carregá-lo.
Leia Mais
A história não é completamente nova. Trump já havia contado versões semelhantes em anos anteriores, embora com diferenças sobre quando e onde o episódio teria ocorrido. Em 2016, por exemplo, ele relatou que a situação teria acontecido dois dias depois dos ataques e indicou que o edifício que parecia ameaçar desabar não estava necessariamente no mesmo local onde ele se encontrava.
Trump não estava no World Trade Center no dia dos ataques
Segundo a imprensa internacional, Trump não estava no complexo do World Trade Center quando os aviões atingiram as Torres Gêmeas em 11 de setembro de 2001. Naquela manhã, ele estava na Trump Tower, em Midtown Manhattan, a vários quilômetros do local dos ataques. Não há evidências de que tenha sido retirado de um prédio próximo ao local naquele dia.
O próprio Trump reconheceu isso em sua publicação posterior no Truth Social. Ao responder às críticas, afirmou que não esteve no local “no mesmo dia do desabamento”, mas que foi para a região “pouco depois”, acompanhado por trabalhadores da construção civil.
Há, portanto, um elemento verdadeiro na afirmação de que Trump esteve no sul de Manhattan após os ataques. A primeira evidência pública localizada por pesquisadores é de 13 de setembro de 2001, dois dias depois da destruição das Torres Gêmeas. Naquele dia, Trump deu entrevistas a jornalistas nas proximidades do Ground Zero.
Trump também compartilhou um vídeo de setembro de 2001 em que concede entrevista a jornalistas próximos ao local. Na gravação, Trump afirma que tinha cerca de cem homens trabalhando na região e que pretendia levar mais trabalhadores.
“Tenho cerca de cem homens trabalhando aqui, então quis incentivá-los. Temos mais cem chegando daqui a pouco”, disse.
Na mesma entrevista, Trump afirmou que nunca tinha visto nada parecido com os ataques e pediu para que o país “descubra quem fez isso e atue de acordo e rapidamente”.
Bombeiros confirmam que havia risco e evacuações na região
Nos dias posteriores ao ataque, houve preocupação com a estabilidade de edifícios próximos ao World Trade Center. Entre eles estava o One Liberty Plaza, antigo U.S. Steel Building, localizado ao lado do complexo destruído.
Segundo registros históricos, houve momentos em que trabalhadores e equipes de emergência foram retirados da região por temor de que o prédio pudesse ruir. A CNN relatou uma evacuação de equipes de resgate e jornalistas em 12 de setembro de 2001, enquanto o Washington Post registrou nova retirada de trabalhadores em 14 de setembro.
O Federal Reserve Bank de Nova York também registra que funcionários tiveram de deixar o edifício em 12 de setembro por causa das preocupações relacionadas ao One Liberty Plaza.
Isso, entretanto, não significa que Trump estivesse entre as pessoas retiradas ou que tenha sido carregado pelos bombeiros.
Em uma entrevista à NBC em 13 de setembro, Trump descreveu justamente o clima de tensão no local. Segundo ele, a cada poucos minutos um apito fazia com que as pessoas corressem porque os edifícios ao redor estavam enfraquecidos.
“Todo mundo simplesmente corria”, relatou Trump na época.
“O prédio ainda range”: outra afirmação sem fundamento
Trump também afirmou que o prédio que ele identificou como U.S. Steel Building “ainda range”. “Ele rangia muito, rangia. Ainda range”, disse.
A afirmação não encontra respaldo nos registros sobre o edifício.
O One Liberty Plaza sofreu danos importantes após o colapso das Torres Gêmeas e realmente chegou a ser considerado um dos prédios mais problemáticos da região. Houve temor de que a estrutura pudesse desabar, mas autoridades municipais concluíram que o edifício era estruturalmente seguro.
O prédio foi reaberto em outubro de 2001, pouco mais de um mês depois dos ataques. Uma reportagem publicada na época descreveu a estrutura como o primeiro grande edifício do entorno do Ground Zero a voltar a funcionar.
Portanto, a existência de preocupações reais sobre a estabilidade do edifício ajuda a explicar parte da história contada por Trump, mas não comprova que ele tenha sido envolvido pessoalmente em uma evacuação.
Questionada sobre as evidências que sustentariam a versão de Trump, a Casa Branca não apresentou documentos, registros de bombeiros ou testemunhas que confirmassem o episódio.
A administração afirmou que Trump era um cidadão privado na época e que “nem tudo o que fez foi documentado”.
O porta-voz Davis Ingle também acusou os meios de comunicação de usarem o relato para atacar o presidente, argumentando que Trump estava apenas descrevendo sua experiência em uma cidade devastada imediatamente após os ataques.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Trump, posteriormente, afirmou que “tudo o que disse foi exatamente correto”.