Little Marco

Afinal de contas, quem é "Little Marco"?

De rival de Donald Trump a homem forte da Casa Branca, Marco Rubio construiu uma carreira marcada por mudanças, contradições e poder

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A voz de Marco Rubio voltou a aparecer no Brasil nas últimas semanas. Não por uma visita diplomática ou por alguma negociação silenciosa, mas por mais um confronto. Como secretário de Estado dos Estados Unidos e principal responsável por conduzir a política externa do governo Donald Trump, ele entrou no centro da crise entre Washington e Brasília ao defender tarifas contra produtos brasileiros e acusar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de colocar "o próprio ego" acima dos interesses da população.

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Ontem, o embate ganhou um novo capítulo. Durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), Lula afirmou que Rubio "não gosta do Brasil", classificou-o como um "latino-americano frustrado" e disse que o secretário de Estado "odeia Cuba, odeia a Colômbia e odeia o Brasil".

A troca de ataques reforça o peso político que Rubio conquistou: antigo rival de Trump, hoje é um dos homens mais influentes da Casa Branca e o principal executor da estratégia americana nas relações internacionais. Mas, afinal, quem é ele?

Rubio não chegou até aqui em linha reta. A sua trajetória é feita de mudanças, aproximações improváveis e posições revistas ao longo do caminho.

O político que um dia foi apresentado como uma alternativa moderada para renovar o Partido Republicano tornou-se uma das vozes mais alinhadas ao movimento conservador americano.

O adversário de Trump virou seu aliado. O crítico virou operador do governo. O "Little Marco" cresceu dentro do próprio movimento que tentou derrotá-lo.


O filho do exílio cubano


Marco Antonio Rubio nasceu em Miami, em 1971, em uma família de origem cubana. Antes dos discursos no Congresso e antes de ocupar um dos cargos mais importantes da diplomacia americana, ele era o filho de imigrantes tentando construir uma vida nos Estados Unidos.

O avô, Pedro Víctor García, deixou Cuba antes da Revolução de Fidel Castro. As histórias sobre a ilha, a perda de uma pátria e a reconstrução em outro país acompanharam Rubio desde a infância e ajudaram a formar sua identidade política.

A família teve uma trajetória de dificuldades. Seu pai trabalhou como bartender e administrou um pequeno negócio próximo ao aeroporto de Miami. A ascensão veio lentamente, baseada na ideia de esforço individual e oportunidade americana.

A religião também teve papel importante em sua formação. Ainda criança, Rubio chegou a transitar entre diferentes tradições religiosas. Aos 8 anos, quando a família se mudou temporariamente para Las Vegas, aproximou-se do mormonismo antes de retornar ao catolicismo.

A experiência revelava uma característica que acompanharia sua vida pública: a capacidade de se adaptar a ambientes diferentes.

De volta à Flórida, encontrou na comunidade cubano-americana o caminho para a política. Foi vereador em West Miami, chegou à Câmara dos Representantes da Flórida e tornou-se o primeiro cubano-americano a presidir a Casa.

Sua história pessoal virou uma ferramenta política poderosa: o filho de imigrantes que alcançaram o sonho americano e o representante de uma nova geração republicana.

Mas a própria narrativa familiar trouxe controvérsias. Documentos revelaram que seus pais chegaram aos Estados Unidos antes da Revolução Cubana, diferente da narrativa frequentemente associada ao exílio político. Rubio afirmou que apenas reproduzia a memória transmitida pela família.

A polêmica não interrompeu sua ascensão, mas revelou uma característica que apareceria diversas vezes em sua carreira: Rubio sabe transformar a própria história em instrumento político.

Trump e Rubio, a aliança improvável: Em 2016, trocaram ataques nas primárias republicanas. Hoje, dividem o comando da política americana
Trump e Rubio, a aliança improvável: Em 2016, trocaram ataques nas primárias republicanas. Hoje, dividem o comando da política americana Brendan SMIALOWSKI / AFP


O político das mudanças

Poucos aspectos definem tanto Marco Rubio quanto sua capacidade de mudar.

Como deputado estadual, adotou posições mais abertas em relação a alguns temas migratórios e defendeu medidas educacionais para jovens sem documentação. Quando chegou ao Senado, endureceu o discurso sobre fronteiras e segurança. Com Trump, aproximou-se da ala mais rígida do Partido Republicano.

A mesma transformação apareceu na política internacional. Rubio foi, durante anos, um defensor da presença americana no mundo e da atuação de organismos como a Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), criada para financiar projetos de ajuda humanitária, saúde, educação e desenvolvimento em outros países.

No governo Trump, porém, participou do processo de redução do papel da agência, dentro de uma política que defendia concentrar recursos nos interesses diretos dos americanos.

Também foi um dos maiores críticos do acordo nuclear firmado por Barack Obama com o Irã, em 2015. O pacto estabelecia limites ao programa nuclear iraniano em troca da redução de sanções internacionais. Para Rubio, oferecia concessões excessivas a Teerã.

Anos depois, passou a defender negociações diplomáticas quando elas passaram a ser conduzidas pela administração Trump.

Na Ucrânia, inicialmente apoiou uma resposta mais firme contra a Rússia. Depois, acompanhou a mudança de posição da Casa Branca e passou a defender negociações.

Na avaliação dos seus críticos, as mudanças revelam cálculo político. Para seus aliados, demonstram capacidade de adaptação.

A adaptação deixou de ser circunstância. Virou método. A maior transformação aconteceu com Donald Trump.

Durante as primárias republicanas de 2016, os dois protagonizaram uma das disputas mais agressivas daquela eleição.

Trump atacava Rubio por sua juventude e a consequente falta de experiência. O apelido "Little Marco" se transformou em uma arma política do hoje presidente para transmitir aos eleitores a ideia de que o senador da Flórida era pequeno demais diante do empresário que apresentava a promessa de transformar Washington.

Rubio perdeu a disputa em seu próprio estado e abandonou a corrida presidencial. Parecia derrotado. Mas voltou.

Ao reconstruir a relação com Trump, deixou de ser adversário e passou a integrar o núcleo de poder do presidente. Hoje, ocupa simultaneamente os cargos de secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional.

China, Venezuela e futuro

A atuação internacional de Rubio é outro ponto que resume as contradições de sua carreira.

A China é o maior exemplo. Como senador, foi um dos críticos mais duros de Pequim. Denunciou violações de direitos humanos, criticou a expansão chinesa e chegou a ser sancionado pelo governo chinês.

Como secretário de Estado, precisou sentar à mesa de negociação. "Seria um erro geopolítico não estar em conversas com a China", afirmou. O adversário virou interlocutor.

Na Venezuela, o movimento foi semelhante. Durante anos, Rubio foi um dos principais defensores da oposição ao governo Nicolás Maduro e uma das vozes mais influentes da política americana para o país.

Mas, diante da necessidade de negociação, Washington passou a dialogar com integrantes do próprio sistema venezuelano. O político que defendia ruptura precisou negociar estabilidade.

Essa é talvez a principal marca de Rubio: ele transita entre mundos diferentes. Entre a crítica e a negociação. Entre o confronto e o diálogo. Entre o discurso ideológico e o pragmatismo do poder.

Hoje, aparece como um dos nomes cotados para disputar a sucessão de Trump. Seu principal concorrente dentro do movimento republicano é o vice-presidente JD Vance, mas Rubio reúne uma combinação difícil de encontrar: experiência legislativa, domínio do espanhol, projeção internacional e trânsito dentro da estrutura de poder americana.

Sua trajetória reúne diferentes versões do mesmo homem. Já foi moderado e linha-dura. Crítico e aliado de Trump. Defensor e crítico da imigração. Inimigo e negociador da China.

O político que Trump tentou diminuir acabou se tornando um dos principais responsáveis por defender sua agenda. “Little Marco” deixou de ser um apelido de fraqueza. Virou uma das maiores ironias da política americana: o homem que parecia pequeno aprendeu, melhor do que muitos, como chegar ao topo.

PERFIL

Cargo:
Secretário de Estado dos EUA

Partido:
Republicano

Estado de origem:
Flórida


Formação:
Direito pela Universidade de Miami

Família:
Filho de imigrantes cubanos

AS CONTRADIÇÕES

O rival que virou aliado
Atacou Trump nas primárias de 2016. Anos depois, tornou-se um dos principais defensores de sua agenda.

O filho de imigrantes que endureceu contra imigração
Construiu sua identidade política a partir da história da família cubana, mas passou a defender políticas migratórias mais rígidas.

O crítico da China que virou negociador
Como senador, foi um dos maiores críticos de Pequim. Como secretário de Estado, defendeu manter diálogo com o rival americano.

O defensor da diplomacia que reduziu a Usaid
Apoiou a atuação internacional dos EUA, mas participou da redução do papel da agência de ajuda externa no governo Trump.

O crítico do Irã que aceitou negociar
Combateu o acordo nuclear de Obama, mas passou a defender negociações quando conduzidas pela administração Trump.


TRAJETÓRIA

1971
Nasce vbem Miami, filho de imigrantes cubanos.

1980
Vive em Las Vegas e retorna à Flórida.

1993
Forma-se em ciência política e inicia carreira.

1996
Conclui direito e entra na política republicana.

1998
É eleito para cargo municipal em West Miami.

2000
Chega à Câmara da Flórida aos 28 anos.

2006
Assume a liderança republicana estadual.

2008
Preside a Câmara da Flórida.

2010
É eleito senador pela Flórida.

2013
Defende a reforma migratória no Senado.

2015
Disputa a Presidência dos EUA.

2016
Perde para Trump nas primárias.

2017
Aproxima-se da agenda de Trump.

2020
Ganha força em política externa.

2022
É reeleito senador pela Flórida.

2024
Torna-se aliado de Trump.

2025
Assume como secretário de Estado.

2026
Lidera a diplomacia americana.

Cunhado preso por tráfico

Em 1987, agentes federais prenderam Orlando Cicilia, cunhado de Marco Rubio, acusado de envolvimento com uma rede de tráfico de cocaína na Flórida. Décadas depois, quando Rubio ocupava uma posição de liderança política no estado, utilizou papel oficial para recomendar que Cicilia recebesse uma licença profissional após deixar a prisão. A carta não mencionava o vínculo familiar. O episódio voltou ao debate público porque contrasta com a postura de Rubio no combate ao narcotráfico, uma das principais bandeiras de sua atuação política.

LULA X RUBIO

“Lula colocou o próprio ego à frente de um acordo para o bem-estar do povo”

Marco Rubio, ao defender as tarifas impostas pelo governo americano sobre produtos brasileiros, afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria priorizado interesses pessoais em vez de um entendimento com Washington. A declaração rompeu o tom tradicional da diplomacia e transformou uma disputa comercial em um confronto político direto.

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“Ele não gosta do Brasil. É um latino-americano frustrado”

A resposta brasileira veio ontem, em tom igualmente duro. Durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em São José dos Campos (SP), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu às declarações de Marco Rubio afirmando que o secretário de Estado dos Estados Unidos "não gosta do Brasil" e o classificou como um "latino-americano frustrado". Lula também afirmou que Rubio "odeia Cuba, odeia a Colômbia e odeia o Brasil", ampliando a troca de ataques entre Brasília e Washington e elevando a crise diplomática entre os dois governos.

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