Porto de Dacar, centro do tráfico 'cruel' de barbatanas de tubarão
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Ao longo da costa da África Ocidental, um pescador a bordo de um atuneiro chinês corta as barbatanas de um tubarão vivo antes de atirá-lo de volta ao mar, onde acabará morrendo sufocado.
Estas valiosas barbatanas serão descarregadas no porto de Dacar antes de serem enviadas à Ásia para serem servidas em sopas, uma iguaria refinada.
O "finning", prática de cortar as barbatanas e atirar o resto do tubarão, muitas vezes vivo, ao mar, é amplamente proibido em várias áreas regulamentadas, em inúmeros países e por convenções internacionais, embora a pesca de certas espécies de tubarão seja frequentemente permitida.
No entanto, nos últimos anos, dezenas de barcos atuneiros chineses e taiwaneses têm desembarcado barbatanas de tubarão capturadas ilegalmente em Dacar, um dos portos de pesca mais movimentados da África, segundo um relatório publicado nesta quinta-feira (16) pela ONG Environmental Justice Foundation (EJF), que tem sede em Londres.
- Queda da população -
O "finning" aumenta a rentabilidade dos barcos e incentiva a pesca de tubarões, seja de forma direta ou como captura acidental.
A prática é inerentemente "cruel e desperdiçadora", segundo ambientalistas, que a comparam à caça furtiva de rinocerontes por seus chifres.
A população global de tubarões, assim como a de seus parentes próximos, as raias, diminuiu drasticamente devido à pesca industrial. Alguns especialistas apontam para uma queda acentuada de 71% em suas populações desde 1970, segundo um estudo publicado na revista Nature.
A prática de cortar as barbatanas dos tubarões não só contribui para o declínio das populações de tubarões, como também é frequentemente acompanhada por outras formas de pesca ilegal, não declarada e não regulamentada, além de violações dos direitos humanos.
O estudo da EJF concentra-se em embarcações chinesas e taiwanesas de pesca de atum com palangre autorizadas a operar em alto-mar no Atlântico, duas das maiores frotas desse tipo.
Os pesquisadores entrevistaram 124 pescadores indonésios e filipinos que trabalharam nessas embarcações entre 2020 e 2025.
Das 130 embarcações das duas frotas autorizadas pelos órgãos reguladores da pesca de atum, 71 atracaram em Dacar durante esse período. De acordo com os depoimentos dos pescadores, 41 embarcações praticavam "finning" e 24 delas desembarcaram as barbatanas em Dacar.
O número é provavelmente "maior", segundo Callum Nolan, chefe de pesquisa oceanográfica da EJF, já que os dados incluem apenas menções explícitas durante as entrevistas.
- Como um "roubo" -
O Senegal é membro da Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (ICCAT), que regulamenta a pesca do atum e de espécies semelhantes no Atlântico.
A ICCAT não só proíbe a preservação de certas espécies de tubarão a bordo, como também especifica que o peso total das barbatanas não deve exceder 5% do peso total dos tubarões a bordo.
Esta regra visa impedir a prática de cortar as barbatanas dos tubarões, mas é difícil de quantificar.
A AFP conversou com Jamaludin, um pescador indonésio citado no relatório da EJF, que vive em uma vila na ilha de Java. Este homem, de 29 anos, trabalhou a bordo de um atuneiro de bandeira chinesa entre 2018 e 2020, que, segundo ele, carregava mais barbatanas do que carcaças inteiras de tubarão.
Depois de desmembrar os tubarões "diariamente" no mar, a tripulação descarregava as barbatanas "discretamente" e, "se a polícia aparecesse, a descarga era interrompida", afirmou.
Outros pescadores citados no relatório da EJF relataram que as barbatanas eram descarregadas dos barcos à noite.
"Primeiro, a pesca era descarregada, enquanto as barbatanas eram descarregadas secretamente... à noite", disse à ONG um pescador indonésio que trabalhou em um barco de pesca de palangre chinês entre 2024 e 2025, referindo-se a uma operação que lembrava um "roubo".
A fraude é mais frequente à noite, quando "não há muita gente no porto", explicou à AFP Cheikh Ndiaye, inspetor da Direção de Proteção e Fiscalização da Pesca do Senegal.
"A melhor solução para esses barcos que pescam em águas internacionais é ter o maior número possível de observadores internacionais", acrescentou.
- Risco de extinção -
Os tubarões são predadores de topo que regulam o mar e são "fundamentais para a integridade ecológica do oceano", explicou o diretor da EJF, Steve Trent, à AFP.
Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), 70% dos tubarões pelágicos (aqueles que vivem em mar aberto) estão ameaçados de extinção. O número de tubarões capturados a cada ano varia de 80 a 101 milhões, segundo um relatório de 2024 publicado na revista Science.
Os atuneiros utilizam anzóis que podem se estender por quilômetros, capturando muito mais do que apenas atum.
Em março, ao longo da costa da África Ocidental, observadores do Greenpeace testemunharam um barco de pesca de atum capturar oito tubarões em doze horas, enquanto outro capturou 32 tubarões em 11 horas.
A ONG também observou um barco de bandeira espanhola descartando partes de tubarões sem barbatanas de volta ao mar.
- "Impossível" de controlar -
Leis díspares e as dificuldades em aplicá-las em diferentes áreas tornam "literalmente impossível" controlar efetivamente a pesca de tubarões, explicou à AFP Iris Ziegler, chefe de políticas de pesca e defesa dos oceanos da ONG alemã DSM.
Ziegler defende uma política global que promova a "manutenção das barbatanas" para combater a "prática de pesca particularmente cruel e desnecessária".
Esse método, também apoiado pela EJF, exigiria que as barbatanas permanecessem presas ao corpo do tubarão durante o desembarque, o que facilitaria a inspeção das capturas e reduziria as mortes.
"Se perdermos os tubarões, perdemos os oceanos", afirmou Ziegler.
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