Corrente atlântica vital pode enfraquecer mais do que o esperado, aponta estudo
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Um sistema-chave de correntes do Oceano Atlântico que ajuda a regular o clima do planeta pode enfraquecer mais do que o esperado até 2100, com consequências potencialmente devastadoras em todo o mundo, segundo um novo estudo.
Conhecido como Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc, na sigla em inglês), esse "cinturão transportador" de correntes desempenha um papel crucial na redistribuição de calor ao transportar águas mais quentes dos trópicos para o norte.
Um colapso da Amoc poderia levar a invernos mais rigorosos no norte da Europa, secas no Sul da Ásia e na região do Sahel, na África, e aumento do nível do mar na América do Norte, entre outras consequências.
Projeções anteriores de modelos climáticos estimaram uma desaceleração média de cerca de 32% até o fim do século devido às mudanças climáticas.
O estudo mais recente, publicado na quarta-feira (15) na revista Science Advances, estima que o sistema pode desacelerar 51% até 2100 sob um cenário intermediário de emissões de gases de efeito estufa, com uma margem de erro de mais ou menos oito pontos percentuais.
"Obtivemos uma estimativa de desaceleração futura da Amoc mais severa do que esperávamos", disse à AFP o cientista do clima Valentin Portmann, principal autor do artigo.
"Estamos mais próximos de um estado crítico que é preocupante", afirmou Portmann.
Prever o que acontecerá com a Amoc no futuro é um tema de debate na comunidade científica.
"Há uma espécie de consenso de que essa circulação vai desacelerar. Mas ainda há bastante debate sobre a intensidade dessa desaceleração", disse Florian Sevellec, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), em Brest.
- Refinando previsões -
Em seu relatório de 2021, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU afirmou que a Amoc "muito provavelmente diminuirá" ao longo deste século.
Mas o painel de especialistas internacionais também expressou "confiança média" de que um colapso da Amoc não ocorreria antes de 2100.
O estudo mais recente, conduzido por pesquisadores do CNRS e da Universidade de Bordeaux, no sudoeste da França, busca "refinar essa estimativa da desaceleração futura" e "reduzir a incerteza", disse Sevellec.
Embora quase todos os modelos climáticos prevejam uma desaceleração da Amoc até 2100, as projeções variam amplamente: de apenas 3% até 72%, dependendo dos diferentes cenários de emissões.
Portmann disse que o novo estudo busca reduzir essa incerteza usando "restrições observacionais" — uma abordagem estatística que combina observações do mundo real com resultados de modelos climáticos.
- 'O debate não acabou' -
Stefan Rahmstorf, oceanógrafo do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impacto Climático (PIK), afirmou que o artigo mostrou que os modelos mais pessimistas "são, infelizmente, os mais realistas, pois concordam melhor com os dados observacionais".
Rahmstorf, que não participou do estudo, disse que isso significa que a Amoc estaria tão enfraquecida até 2100 que "muito provavelmente" estaria "a caminho de um desligamento completo".
Fabien Roquet, professor de oceanografia física da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, disse que o estudo é interessante, mas alertou que outra equipe que utilizou um método semelhante chegou a conclusões opostas no ano passado.
"O que é certo, no entanto, é que o clima está aquecendo rapidamente", disse Roquet.
"Independentemente de a Amoc enfraquecer ou não, mudanças em larga escala já estão em andamento... e devem se intensificar nas próximas décadas."
"O debate não acabou", disse Sevellec, que também não fez parte da equipe de pesquisa, mas cuja tese sobre a Amoc foi utilizada no estudo. "Um artigo não encerra um debate científico."
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