O sofrimento das pessoas com deficiência no maior estádio de Beirute
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Nas arquibancadas do maior estádio de Beirute, o que ecoa são os gritos de crianças deslocadas pela guerra, não dos torcedores.
Debaixo desses assentos, mais de mil pessoas dormem em barracas, incluindo cerca de 50 em cadeiras de rodas ou com outras dificuldades de locomoção.
Apesar de não estar adaptado às suas necessidades, o enorme complexo esportivo é um dos poucos abrigos na capital libanesa capaz de acolher pessoas com deficiência que, assim como milhares de outros moradores, fogem dos constantes bombardeios israelenses.
"Se houver um ataque, as pessoas ao meu redor podem fugir e me deixar para trás; não consigo me levantar e me mover se ninguém me ajudar", lamentou Fatima Nazli, de 62 anos, que usa cadeira de rodas.
As autoridades não implementaram nenhuma estratégia para retirar pessoas com mobilidade reduzida, alertou Sylvana Lakkis, diretora de uma associação de pessoas com deficiência.
"Apresentamos uma política e uma proposta" ao governo, mas "eles nunca nos ouviram", disse à AFP. "Sempre que há uma crise, nós, pessoas com deficiência, pagamos o preço".
Nazli e seu marido tiveram que abandonar seu apartamento nos subúrbios do sul de Beirute, que vêm sendo bombardeados por Israel desde que o Líbano entrou na guerra do Oriente Médio em 2 de março, após ataques do movimento pró-Irã Hezbollah contra Israel em solidariedade a Teerã.
Eles estão morando em uma barraca em uma área do estádio, onde ela precisa pedir ajuda a voluntários da Cruz Vermelha para descer a rampa de acesso que leva aos únicos banheiros que ela pode usar.
– "Viver com medo constante" –
O casal espera se mudar para outra área do estádio, onde duas rampas de acesso e quatro banheiros adaptados foram instalados recentemente.
Nazli e Abu Ali, que preferiu não revelar seu nome completo, voltam a seu apartamento de tempos em tempos para tomar banho e pegar roupas limpas, vivendo com medo porque o bairro "pode ser bombardeado a qualquer momento" pela força aérea israelense.
O estádio Camille Chamoun Sports City, localizado na periferia sul de Beirute, testemunhou os altos e baixos da turbulenta história do Líbano.
Destruído por bombardeios durante a invasão israelense de 1982 e reconstruído após o fim da guerra civil em 1990, caiu em desuso devido à falta de verbas para manutenção.
O rei do futebol Pelé jogou em seu gramado e competições internacionais foram disputadas no estádio.
Mas o local também serviu como depósito de suprimentos alimentares, e o Hezbollah organizou no estádio o luxuoso funeral de seu antigo líder, Hassan Nasrallah, morto em um ataque israelense em setembro de 2024.
– "Um pesadelo"–
"Este lugar não foi construído para pessoas morarem", diz o diretor do estádio, Naji Hamud, que, mesmo assim, abriu suas portas "no dia seguinte" aos primeiros alertas de evacuação emitidos pelo Exército israelense nos subúrbios do sul da capital libanesa, no início de março.
Mais de um milhão de pessoas foram deslocadas e os ataques israelenses mataram mais de 1.200, incluindo 124 crianças, segundo as autoridades locais.
Muitos deslocados estão dormindo nas ruas da cidade ou em seus carros. Hamud, por sua vez, quer que as instalações acomodem "o máximo de pessoas possível".
Ao redor das barracas, trabalhadores estão ocupados reformando alguns banheiros insalubres, instalando chuveiros e conectando-os à rede de abastecimento de água, além de providenciar energia elétrica.
"Não consigo tomar banho sozinho; preciso de ajuda", disse Khodr Salem, um comerciante do sul do país, que tem dificuldade para andar e usa muletas devido a uma infecção na perna.
"Costumávamos viver como reis em nossas casas. Nossas vidas se tornaram um pesadelo", disse o idoso, com lágrimas nos olhos, sentado em um colchão de sua barraca.
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