Baseada em Londres, emissora 'Iran International' quer 'mostrar a verdade' sobre a repressão no Irã
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Em um prédio fortemente vigiado no oeste de Londres, jornalistas da Iran International trabalham incansavelmente para "mostrar a verdade" sobre a repressão aos protestos em seu país, apesar de receberem ameaças.
Este canal de televisão privado em língua persa foi designado como organização terrorista pelo governo iraniano em 2022, assim como o canal em língua persa da BBC.
No entanto, os iranianos podem acessá-lo via satélite e conseguiram continuar assistindo apesar do bloqueio de comunicações imposto pelas autoridades em 8 de janeiro, quando os apelos por manifestações contra o governo se multiplicavam.
Milhares de iranianos enviaram vídeos da repressão para o canal, que os transmitiu após verificar sua autenticidade.
Outros enviaram mensagens relatando as atrocidades que testemunharam.
Farnoosh Faraji, jornalista do serviço digital, mostra imagens do corpo de um homem, com uma bala alojada nas costas, além de vídeos de pilhas de cadáveres e membros das forças armadas atirando contra manifestantes em fuga.
"É horrível. No início, eu não conseguia acreditar", disse à AFP a jornalista, que vive exilada desde 2012. Ela passa os dias analisando essas imagens. "Prometi a mim mesma que seria forte. Preciso ajudar meu povo. Faz parte do meu trabalho", afirma.
"Ficamos chocados com a brutalidade do regime", acrescenta o editor-chefe Reza Mohaddes, antes de se dirigir ao estúdio para apresentar o telejornal.
- "Voz do povo iraniano" -
No domingo, a emissora informou que mais de 36.500 iranianos morreram nos dias 8 e 9 de janeiro.
A ONG americana Human Rights Activists News Agency (HRANA) informou na segunda-feira que confirmou a morte de 5.848 pessoas e está investigando outras 17.091 possíveis mortes.
A Iran International foi criada para "ser a voz do povo iraniano" e "mostrar a verdade" sobre o que está acontecendo no país, afirma Reza Mohaddes.
A emissora, lançada em 2017, afirma ter 40 milhões de telespectadores por semana. "Provavelmente mais desde os últimos protestos", diz seu porta-voz, Adam Baillie.
A Iran International é um dos muitos veículos de mídia em língua persa que se opõem às autoridades iranianas e operam fora do Irã, assim como a Manoto, outra emissora com sede em Londres.
Segundo Adam Baillie, a Iran International é o canal de televisão mais assistido no Irã.
Suas instalações empregam 200 jornalistas e possui correspondentes em Washington, Paris, Berlim e Tel Aviv.
Segundo a própria emissora, seu financiamento provém de um investidor britânico-saudita.
A Iran International é frequentemente descrita como uma rede apoiada pelo governo da Arábia Saudita, algo que a emissora nega.
- "Independente" -
Em vez de "rede da oposição", seu porta-voz, Adam Baillie, prefere chamar a Iran International de "independente".
Segundo Baillie, a rede não apoia nem o filho do antigo xá do Irã, Reza Pahlavi, nem Israel, rejeitando as alegações das autoridades iranianas.
Os jornalistas precisam de "muita coragem" para trabalhar na Iran International, afirma o porta-voz.
As ameaças contra a rede "sempre existiram e só aumentaram", acrescenta Baillie, fato confirmado pela jornalista Farnoosh Faraji. "Elas não param", observa a repórter.
A melhor amiga de Faraji foi detida no Irã pela polícia e, sob pressão, enviou uma mensagem à repórter pedindo que se demitisse, relata a jornalista.
Reza Mohaddes recebeu recentemente um e-mail anônimo com ameaças de morte caso não deixasse a Iran International.
"Na mesma mensagem, eles disseram que iriam explodir o prédio da rede", acrescenta Mohaddes, que alertou a polícia de Londres, como fez com outras ameaças.
A Iran International foi obrigada a encerrar suas atividades por sete meses em 2023, por recomendação da polícia antiterrorista britânica.
Como resultado, a emissora teve que transmitir inicialmente de Washington, antes de se mudar para outro bairro de Londres.
O Ministério das Relações Exteriores britânico chegou a convocar o diplomata iraniano de mais alto escalão em Londres para protestar contra "graves ameaças contra jornalistas residentes no Reino Unido".
Em março de 2024, um jornalista da emissora foi agredido em Londres, o que levou à intervenção da unidade antiterrorista da Polícia Metropolitana.
"Não tenho medo. Estamos todos lutando para nos livrarmos deste regime", afirma Reza Mohaddes.
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