Trump traça protetorado petrolífero para a Venezuela e tenta engajar multinacionais
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A Venezuela enfrenta um futuro petrolífero sob estrita tutela, segundo os planos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que recebeu nesta sexta-feira (9) cerca de vinte empresas internacionais na Casa Branca para tentar engajá-las nessa espécie de protetorado energético.
A resposta dos dirigentes da indústria, alguns deles já presentes na Venezuela há décadas, foi cautelosa, à espera de que se esclareça a situação política e, sobretudo, o marco legal para seus investimentos.
Os Estados Unidos decidirão quais empresas petrolíferas poderão operar na Venezuela e atuarão como intermediários entre elas e o governo, assegurou Trump.
"Vamos tomar a decisão sobre quais petrolíferas vão entrar [na Venezuela]", disse.
"Vocês estão negociando diretamente conosco, não estão negociando com a Venezuela de forma alguma, não queremos que negociem com a Venezuela", advertiu o presidente republicano.
- Cinco navios apreendidos -
Após a saída do país do presidente deposto Nicolás Maduro, agora em Nova York à espera de julgamento, o governo americano detalhou os primeiros passos.
O setor venezuelano, já prejudicado por má gestão anterior, foi submetido a sanções em 2019 e rapidamente migrou para o mundo opaco do contrabando internacional, com navios fantasmas que carregavam petróleo com destino a países como a China, com descontos.
Para forçar o governo, Washington utilizou seu desdobramento naval antidrogas, já presente no Caribe, o maior em décadas.
Em menos de um mês, cinco navios-tanque foram apreendidos, um deles ao largo da Islândia, no Atlântico Norte.
Nesta sexta-feira, as autoridades se apoderaram do Olina, carregado de petróleo, e a Guarda Costeira dos Estados Unidos, com apoio da Marinha, está à caça de outros navios.
O Olina retornará à Venezuela e seu petróleo será vendido legalmente, sob supervisão de Washington, garantiu Trump.
O plano havia sido detalhado dias antes pelo Departamento de Energia: vender todo o petróleo por vias normais, depositar o dinheiro em contas de bancos internacionais domiciliados nos Estados Unidos e, depois, repartir os recursos de forma equitativa entre as partes interessadas.
Mas o marco legal venezuelano é o que foi instaurado pelo "socialismo bolivariano" do então presidente Hugo Chávez (1999–2013).
E os precedentes históricos remontam a 1976, quando o país nacionalizou os recursos naturais.
"Já tivemos nossos ativos confiscados lá duas vezes, então dá para imaginar que voltar pela terceira vez exigiria mudanças bastante significativas", disse a Trump o diretor-executivo da ExxonMobil, Darren Woods.
Trump perguntou a outro dirigente, Ryan Lance, da Conoco, quanto dinheiro perdeu quando deixou o país: "12 bilhões [de dólares]", respondeu.
Lance parabenizou Trump por ter "tirado uma pessoa terrível", em alusão a Maduro.
- Uma "agressão criminosa" -
A cooperação com o atual governo de Rodríguez está sendo "excelente", assegurou pouco depois o secretário de Energia, Chris Wright, a jornalistas.
"Nunca vi um país em que as condições e as relações tenham mudado tão rapidamente", acrescentou.
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, reafirmou nesta sexta-feira que seu país vive "uma grave agressão criminosa, ilegal e ilegítima", embora tenha garantido que buscará uma solução pela "via diplomática".
Trump pretende difundir a ideia de que transformará a Venezuela "em uma espécie de protetorado petrolífero ou colônia de hidrocarbonetos dos Estados Unidos. Bem, esses tempos ficaram muito, muito, muito para trás", disse à AFP Rafael Quiroz, especialista venezuelano em petróleo.
Além dos desafios legais e políticos, há questões de segurança e econômicas.
"Vocês terão total segurança. Uma das razões pelas quais não podiam trabalhar [na Venezuela] é que não tinham garantias. Mas agora têm segurança total", enfatizou Trump.
Os investimentos para reconstruir um setor muito afetado por sanções e má gestão são elevados.
Trump havia dito ao anunciar a reunião que os dirigentes estavam dispostos a investir 100 bilhões de dólares, cifra que não foi mencionada durante o encontro.
O tom dos empresários foi diplomático.
"Estamos prontos para investir mais na Venezuela", disse Josu Jon Imaz, da espanhola Repsol, já presente no país.
"Estamos prontos", respondeu Wael Sawan, da Shell.
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jz/mel/am