Intervenção EUA atacam venezuela

Trump mira maior reserva de petróleo do mundo

Mesmo com produção reduzida, o cenário político em Caracas e as declarações do presidente dos EUA reacendem o peso estratégico do setor energético no mercado gl

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A produção diária de petróleo na Venezuela é praticamente insignificante no mercado global, embora o país caribenho seja dono da maior reserva do óleo no mundo, com 303 bilhões de barris na Bacia do Orinoco. É para esse manancial que olha Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, país que lidera a produção e o consumo de petróleo no mundo. No sábado (3), após a captura do ditador Nicolás Maduro, Trump disse que o petróleo venezuelano "voltará a fluir" e que as companhias americanas tomarão a frente da exploração. Atualmente, somente a Chevron opera no país sob uma licença especial.

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"Vamos ter nossas grandes empresas americanas de petróleo, as maiores de qualquer lugar do mundo, indo lá, gastando bilhões de dólares e arrumando a danificada infraestrutura de óleo e começando a fazer dinheiro para o país", disse Trump.


Para além do volume imediato de produção, o petróleo venezuelano é menos um barril específico e mais um instrumento de poder — capaz de influenciar preços, conter adversários globais, pressionar politicamente Caracas e reposicionar os Estados Unidos no xadrez energético do continente.


A indústria do setor na Venezuela viveu uma onda de sucateamento nos últimos 20 anos, fazendo com que a potência petrolífera da América Latina — que faz parte do grupo de países fundadores da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) — perdesse a relevância. No ranking de produtores, a Venezuela aparece em 20º lugar, com uma produção média de 700 mil barris por dia, girando em torno de 1% do fornecimento global.


"Ainda há muitas perguntas que precisam ser respondidas sobre o estado da indústria de petróleo da Venezuela, mas está claro que serão necessários dezenas de bilhões de dólares para reestruturá-la", diz Peter McNally, chefe global de analistas setoriais da Third Bridge, acrescentando que pode levar até uma década para as empresas ocidentais se comprometerem com o país. A pressão do governo Trump também forçou o país a fechar poços de petróleo, reduzindo ainda mais a extração.


Nas horas que se seguiram à captura de Maduro, analistas tentavam antecipar os efeitos do choque geopolítico, que incluiu bombardeios a Caracas, para os preços globais do petróleo. De um lado, há quem espere que a atual produção global estimada em 3,8 milhões de barris acima da demanda em 2026 amorteça eventuais oscilações. Os preços do petróleo bruto caíram nas últimas semanas para cerca de US$ 60 (cerca de R$ 326) por barril.


"Avalio que os preços do petróleo Brent subirão apenas marginalmente na abertura de domingo à noite, em US$ 1 ou US$ 2 ou até menos", disse à Bloomberg Arne Lohman Rasmussen, analista-chefe da A/S Global Risk Management.


Para o IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis), porém, a invasão deve ter reflexo além dos preços do petróleo. Fretes marítimos e seguros para o setor de óleo e gás tendem a ficar mais caros.


"O petróleo é muito sensível às tensões geopolíticas e aos efeitos climáticos", afirma Roberto Ardenghy, presidente do IBP, que representa 220 empresas do setor no Brasil. Pelo mar do Caribe, que banha a Venezuela, existe uma rota intensa de navegação para o transporte de diversas mercadorias, inclusive petróleo, diz Ardenghy.

"Os operadores que trafegam pela região podem ser obrigados a desviar do litoral da Venezuela e ampliar a rota para o Atlântico, o que envolve maior consumo de combustível e tende a encarecer o custo do frete."


"Quando o Brasil exporta petróleo do pré-sal para os Estados Unidos, que compram cerca de 200 mil barris por dia, os petroleiros passam pela região", afirma Ardenghy. Também o Brasil importa gasolina, diesel e combustível de aviação dos EUA e os navios passam pelo mar do Caribe.


Da mesma forma, afirma o executivo, as seguradoras tendem a reajustar os preços para as indústrias do setor para contemplar mais este conflito global. Ainda que o volume de produção de petróleo pelo país caribenho seja muito baixo, a Venezuela não é irrelevante para o mercado, avalia o executivo.


"Mas o país é apoiado pelo Irã, pela Rússia, exporta muito petróleo para a China e é um dos fundadores da Opep. Podemos imaginar que isso terá um efeito importante no mercado do petróleo, que é avesso a insegurança e a risco", diz Ardenghy.


O Brasil produz 5 milhões de barris de petróleo por dia. Na Arábia Saudita, são 12 milhões de barris por dia e, nos Estados Unidos, 13 milhões.


"Vejo o Brasil em uma situação energética confortável: somos autossuficientes e exportamos petróleo. É uma situação muito diferente da Índia, por exemplo, que importa 80% do petróleo que consome", afirma.


As ações das companhias de petróleo devem registrar ganhos, segundo ele. "Mas tudo isso vai depender dos próximos movimentos na Venezuela." 

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Peça-chave nas manobras dos EUA na Venezuela

O que representa o petróleo venezuelano?
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, com 303,2 bilhões de barris, segundo a Opep, à frente da Arábia Saudita e do Irã. Apesar disso, a produção é baixa: cerca de 1 milhão de barris por dia antes da escalada das tensões com os EUA em dezembro, bem abaixo dos 3,5 milhões registrados em 1999, quando Hugo Chávez chegou ao poder, afirma Peter McNally, da Third Bridge. Segundo o analista, negligência, infraestrutura deteriorada, falta de investimentos e corrupção comprometeram a capacidade produtiva. As sanções impostas por Donald Trump em seu primeiro mandato agravaram o cenário, levando a produção a um mínimo histórico de 350 mil barris por dia em 2020.

Como a Venezuela dribla as sanções?
Com restrições severas, a China responde por cerca de 80% das compras, muitas vezes via Malásia, que atua como intermediária. Aproximadamente 5% da produção vai para Cuba, por acordos bilaterais. Para contornar o embargo, Caracas utiliza petroleiros “fantasmas”, com bandeiras e rotas falsas. Também passou a realizar operações em criptomoedas atreladas ao dólar (USDT) para evitar sanções financeiras.

Qual é a presença americana no país?
Parte do petróleo é produzida pela Chevron, que opera sob licença especial dos EUA em parceria com a estatal venezuelana. A empresa pode exportar petróleo, mas não pagar impostos ou royalties em dinheiro, quitando-os com parte da produção. Outras gigantes americanas, como ExxonMobil e ConocoPhillips, deixaram o país em 2007 após recusarem as condições impostas por Chávez, que exigia controle estatal majoritário.

Por que Trump está interessado no petróleo venezuelano?
Trump afirma que os EUA precisam de energia e estabilidade regional e que há “muito dinheiro a ser extraído” do solo venezuelano. Segundo John Plassard, do Cité Gestion, o republicano considera que o petróleo exportado sob embargo foi produzido com equipamentos e investimentos americanos anteriores às nacionalizações. Outro objetivo é reduzir a influência chinesa no continente, estratégia que se soma aos esforços dos EUA no Canal do Panamá, rota estratégica para o petróleo venezuelano.

O plano de Trump é realista?
Especialistas avaliam que qualquer retomada relevante da produção exigiria investimentos bilionários, devido à deterioração das infraestruturas. Além disso, os preços do petróleo seguem pressionados pelo excesso de oferta global. “As grandes petroleiras respondem aos acionistas, não ao governo”, afirma Ole Hansen, do Saxo Bank, que vê pouco apetite por novos investimentos na Venezuela no curto prazo.

Qual o impacto nos preços?
Com o mercado bem abastecido, analistas esperam efeito limitado nos preços, possivelmente apenas uma alta marginal. Para Plassard, os gargalos logísticos podem gerar volatilidade, mas o foco do mercado tende a ser maior nas ameaças de Trump ao Irã, cuja produção é muito mais relevante. Trump voltou a advertir Teerã na sexta-feira, dizendo que os EUA reagiriam caso o regime iraniano reprima protestos violentamente.

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Principais empresas que atuam no país 

PDVSA: eixo da indústria petrolífera  É a estatal responsável pela exploração, produção, refino e exportação de petróleo no país. Criada em 1976, concentra a maior parte das reservas nacionais e atua em parcerias com empresas estrangeiras em projetos estratégicos.

Chevron: parceria histórica em operação A Chevron mantém operações na Venezuela por meio de joint ventures com a PDVSA. Atua principalmente na produção de petróleo pesado, operando sob autorizações específicas do governo dos Estados Unidos.

Repsol: presença europeia contínua Participa de projetos de petróleo e gás natural em associação com a PDVSA. A empresa mantém presença estável no país, com foco em campos já em operação e produção convencional.

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Eni: foco estratégico no gás Atua principalmente no setor de gás natural na Venezuela, em parceria com a PDVSA. Suas operações são voltadas ao abastecimento interno e ao desenvolvimento de infraestrutura energética.

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