Maduro e o poder
Herdeiro político de Hugo Chávez, venezuelano consolidou-se no cargo apesar de pressões internas e externas
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O presidente venezuelano Nicolás Maduro costumava dançar em comícios ao som de música eletrônica marcada por uma frase repetida em inglês: “No war, yes peace”. A retórica da paz foi confrontada de forma abrupta nesse sábado (3), quando os Estados Unidos anunciaram sua captura, junto com a esposa Cilia Flores, após uma série de bombardeios contra alvos estratégicos em diferentes regiões da Venezuela, por ordem do presidente americano Donald Trump.
No Palácio de Miraflores, sede do governo em Caracas, Maduro sempre buscou projetar um discurso conciliador, associado à imagem de “presidente operário”. Ex-motorista de ônibus e dirigente sindical, alto, de bigode espesso, explorou ao longo da carreira os estereótipos do “homem do povo” como ativo político, mesmo carregando acusações de violações de direitos humanos atribuídas a seu governo.
Era comum recorrer a um tom coloquial em pronunciamentos públicos, misturando temas políticos duros com piadas, referências ao beisebol, erros propositais em inglês e relatos de sua vida doméstica com Cilia Flores, a quem chama de “primeira combatente”. Ex-procuradora-geral, Flores foi deputada desde 2000 e presidiu a Assembleia Nacional entre 2006 e 2010. Com forte influência nos bastidores do poder, também teve sua captura anunciada por Washington, após o que os Estados Unidos classificaram como um “ataque em grande escala” contra Caracas e outras regiões do país.
Maduro avançava em seu terceiro mandato presidencial (2025–2031), o que o levaria a completar 18 anos no poder — mais tempo do que Hugo Chávez, que governou por 14 anos, e atrás apenas do ditador Juan Vicente Gómez, que comandou a Venezuela por 27 anos no início do século 20. Formado politicamente em Cuba, Maduro foi parlamentar, chanceler e vice-presidente antes de ser indicado por Chávez, em dezembro de 2012, como seu sucessor.
Chamado de “ditador”, enfrentou ondas de protestos reprimidos com violência em 2014, 2017 e 2019, episódios que deixaram centenas de mortos. O Tribunal Penal Internacional abriu uma investigação por crimes contra a humanidade relacionados à repressão estatal. Ainda assim, Maduro sobreviveu politicamente a uma sequência de sanções internacionais, a tentativas fracassadas de derrubá-lo e à criação de um governo paralelo da oposição, reconhecido por dezenas de países, mas sem efeitos práticos duradouros.
Seu governo atravessou uma crise econômica sem precedentes, com retração de cerca de 80% do Produto Interno Bruto em uma década e anos consecutivos de hiperinflação. Sem o carisma de Chávez, Maduro adotou uma estratégia de realpolitik: reduziu controles, flexibilizou tarifas, permitiu a dolarização informal da economia e buscou acordos pontuais com Washington, inclusive no setor petrolífero, com autorizações para empresas estrangeiras operarem sob restrições.
Agora, o líder que se vendia como “indestrutível” – personagem do desenho animado estatal Super Bigode – enfrenta acusações nos Estados Unidos de liderar o tráfico internacional de drogas e o chamado “Cartel dos Sóis”, cuja existência é questionada por especialistas. Após quase duas décadas no poder, Maduro chega ao momento mais crítico de sua trajetória política.
Principais episódios de intervenção dos EUA na América Latina desde a Guerra Fria
1954 – Guatemala
Em 27 de junho de 1954, o presidente guatemalteco Jacobo Arbenz Guzmán foi derrubado por mercenários treinados e financiados pelos Estados Unidos após uma reforma agrária que afetava interesses da United Fruit Corporation. Em 2003, Washington reconheceu oficialmente o papel da CIA no golpe, justificado à época pela luta contra o comunismo.
1961 – Cuba
Entre 15 e 19 de abril de 1961, cerca de 1.400 exilados cubanos treinados pela CIA tentaram invadir a Baía dos Porcos para derrubar o regime de Fidel Castro. A operação fracassou e deixou cerca de uma centena de mortos de cada lado.
1965 – República Dominicana
Os Estados Unidos enviaram tropas a Santo Domingo para conter um levante em favor do ex-presidente Juan Bosch, derrubado em 1963, sob o argumento de evitar a expansão do comunismo.
Anos 1970 – Ditaduras do Cone Sul
Washington apoiou regimes militares na América do Sul, considerados aliados estratégicos contra a esquerda. Os EUA deram suporte ao golpe de 1973 no Chile, que derrubou Salvador Allende, e à ditadura argentina instaurada em 1976. Documentos desclassificados indicam apoio político de autoridades americanas durante a repressão que resultou no desaparecimento de ao menos 10 mil pessoas. No mesmo período, seis ditaduras atuaram de forma coordenada no âmbito do Plano Condor, com apoio tácito dos EUA.
Anos 1980 – América Central
Após a derrubada do ditador Anastasio Somoza, em 1979, os EUA financiaram secretamente os Contras na Nicarágua durante o governo Ronald Reagan. A guerra civil deixou cerca de 50 mil mortos. Em El Salvador, assessores militares americanos apoiaram o governo contra a guerrilha da FMLN em um conflito que durou de 1980 a 1992 e matou cerca de 72 mil pessoas.
1983 – Granada
Em outubro de 1983, tropas americanas invadiram Granada após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop. A operação “Urgent Fury”, lançada sob a justificativa de proteger cidadãos americanos, foi condenada pela ONU e deixou mais de cem mortos.
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1989 – Panamá
Em 1989, os EUA lançaram a operação “Causa Justa” para capturar o general Manuel Noriega, ex-aliado de Washington. A intervenção envolveu cerca de 27 mil soldados. O número oficial de mortos é de 500, mas ONGs estimam milhares. Noriega foi preso nos Estados Unidos e posteriormente cumpriu pena na França e no Panamá. No Panamá também funcionou a Escola das Américas, criada em 1946, onde militares latino-americanos foram treinados em técnicas de combate ao comunismo. Muitos de seus ex-alunos se tornaram líderes de regimes autoritários na região.