Biden e Trump são os favoritos nas prévias  -  (crédito: Reuters/Folhapress e Mandel NGAN / AFP)

Levantamento divulgado pelo New York Times, aponta que a maioria dos americanos têm uma visão desfavorável a Biden e Trump: 59% no caso de Biden e 54% no de Trump

crédito: Reuters/Folhapress e Mandel NGAN / AFP

A Super Terça costuma ser um dia-chave e carregado de emoção na política americana. Nesta data, diversos estados escolhem os candidatos para a eleição em novembro e, assim, afunilam uma corrida até então indefinida.

 

Mas não neste ano. Na disputa de 2024, em que quase tudo tem fugido à tradição, a data está sendo encarada muito mais como a linha de chegada das primárias e o início de uma longuíssima campanha presidencial.

 

Do lado republicano, se ainda resta alguma dúvida sobre a nomeação de Donald Trump, ela deve acabar quando saírem os resultados dos 15 estados -Alabama, Alasca, Arkansas, Califórnia, Colorado, Maine, Massachusetts, Minnesota, Carolina do Norte, Oklahoma, Tennessee, Texas, Utah, Vermont e Virgínia- que votam nesta terça.

 

A expectativa é que o empresário leve boa parte dos 865 delegados em jogo, deixando-o muito perto dos 1.215 necessários para cravar sua nomeação, a qual deve ser oficializada na convenção nacional do partido, de 15 a 18 de julho.

 

Confirmadas as vitórias de Trump nesta terça, Nikki Haley, sua única concorrente restante na corrida republicana, já indicou que deve anunciar sua desistência.

 

O empresário acumula 244 delegados, obtidos com as vitórias em Iowa, New Hampshire, Nevada, Carolina do Sul, Ilhas Virgens, Wyoming, Idaho, Michigan e Missouri. Haley tem apenas 43 -desses, 19 foram obtidos na sua única vitória até agora, em Washington (Distrito de Colúmbia), no último domingo. O restante veio do cálculo proporcional por ter ficado em segundo ou terceiro lugar em outras disputas.

 

 

"Não há muita dúvida de que Trump vai vencer nesta terça. A única questão é quão cedo Nikki Haley vai decidir sair da corrida. Veremos isso agora", diz o professor de ciência política da Universidade Duke Asher Hildebrand.

 

"Eu realmente acho que as votações nesta terça já parecem uma eleição geral, e a partir de então não teremos mais dúvidas disso", completa o pesquisador, que foi diretor de pesquisa e política da última campanha de Barack Obama na Carolina do Norte.

 

Às vitórias nas urnas de Trump se somam decisões favoráveis na Justiça. Nesta segunda, a Suprema Corte anulou a eliminação do nome do empresário das primárias do Colorado, aplicando o mesmo julgamento para Maine e Illinois, que haviam adotado ação semelhante.

 

Além disso, os juízes também aceitaram ouvir o recurso apresentado pelo empresário em que ele alega não poder ser processado por crimes supostamente cometidos quando era presidente porque o cargo lhe garantiria imunidade. Enquanto uma decisão não for emitida, o julgamento de Trump no processo em que ele é acusado de tentar reverter sua derrota na eleição, marcado inicialmente para esta segunda (4), não pode começar.

 

No campo democrata, Joe Biden deve ganhar facilmente em todos os estados e no território da Samoa Americana, que também realiza sua votação na Super Terça. Oficialmente, o partido anuncia seu candidato na convenção nacional, que ocorre de 19 a 22 de agosto. Assim como no caso de Trump, porém, a única chance de ele não ocupar a vaga é se algo extraordinário acontecer.

 

Leia também: O que é a Super Terça das eleições primárias nos EUA 

 

Seus dois competidores restantes, Marianne Williamson e Dean Phillips, não conseguiram nenhum delegado até agora. Em Michigan, ativistas alcançaram mais do que o dobro dos votos obtidos pelos dois com a campanha para votar "uncomitted" (sem compromisso), um tipo de voto em branco em forma de protesto contra o apoio de Biden a Israel.

 

Mobilizações semelhantes acontecem em outros estados, mas não é esperado que o desempenho se repita -Michigan é um caso à parte porque concentra a população árabe-americana.

 

A confirmação de Trump e Biden como os candidatos à Presidência após a Super Terça crava um repeteco da eleição de 2020 rechaçado por boa parte do eleitorado. Pesquisa Reuters/Ipsos realizada em janeiro, por exemplo, mostrou que cerca de 67% dos entrevistados se diziam cansados de ver os mesmos candidatos na eleição presidencial e que gostariam de alguém novo.

 

Levantamento mais recente, divulgado pelo New York Times no final de semana, aponta que a maioria dos americanos têm uma visão desfavorável de ambos: 59% no caso de Biden e 54% no de Trump. Assim, o cenário que se desenha é o de uma corrida presidencial inusualmente longa entre dois candidatos arriscadamente impopulares.

 

O mesmo levantamento do jornal americano, realizado entre os dias 25 e 28 de fevereiro, mostra o republicano 5 pontos percentuais à frente de Biden entre eleitores registrados. A margem de erro, no entanto, de 3,5 p.p., coloca ambos em empate técnico.

 

"Nós atingimos um nível de polarização a tal ponto que as pessoas estão exaustas com a política. Há um temor de que ela não vai mais mobilizar as bases, mas sim evitar pessoas mais ao centro de votarem", diz a cientista política Sunshine Hillygus, que pesquisa comportamento político americano na Universidade Duke.

 

"O risco que enfrentamos é termos uma participação ativa das alas mais extremistas da população, e menor da maioria dos americanos, que são moderados", completa.

 

PERGUNTAS E RESPOSTAS

 

O que são primárias?

 

Primárias são o processo por meio do qual cada partido seleciona seus candidatos, seja para o Congresso, para governos estaduais ou para a Presidência.

 

Essas votações ocorrem em todos os estados e se concentram no primeiro semestre do ano eleitoral.

 

Cada estado tem direito a um certo número de delegados, que varia de partido a partido. A distribuição desses delegados varia de estado a estado. Em alguns, quem obtém o maior número de votos leva todos os delegados a que o estado tem direito. Em outros, há uma divisão proporcional -essa é a regra do lado democrata. Há ainda modelos híbridos.

 

O método de votação dentro de cada estado varia, podendo ser de dois tipos: caucus e primária.

 

 

O que é caucus? Qual a diferença para a primária?

 

O caucus é uma reunião organizada pelos partidos em alguns estados, em geral em ginásios de escolas, igrejas e centros comunitários. Esses encontros têm hora marcada e participam dele representantes das campanhas, que fazem uma defesa de seu candidato.

 

O método pode ser voto secreto, como farão os republicanos nesta segunda, ou, como os democratas costumavam fazer em Iowa, formando grupos em uma sala.

 

Os apoiadores do candidato A, por exemplo, juntavam-se no canto esquerdo, os do B, no direito, e os indecisos, ao centro. O processo corria -com as pessoas literalmente correndo de um lado para o outro- até chegar a um vencedor.

 

Já a primária é uma votação secreta organizada comumente pelas comissões eleitorais dos estados, não pelos partidos. São abertas seções eleitorais ao longo do dia, em que os eleitores votam em urnas, em um modelo tradicional.

 

 

 

Quem pode votar nas primárias?

 

As regras variam de estado a estado. Em alguns, apenas os filiados a um partido podem votar -são as chamadas "primárias fechadas". Em outros, qualquer um pode votar, exceto os filiados a outro partido. Em outros, ainda, não há nenhum impedimento sobre quem pode votar.

 

 

 

Como funcionam as convenções?

 

Nas convenções nacionais de cada partido, os delegados dos estados votam em um candidato. Quem obtiver a maioria dos votos, recebe a nomeação.

 

Do lado dos democratas, são no total cerca de 3.900 delegados na primeira rodada de votação (mais são incluídos em rodadas posteriores se um candidato não obtiver a maioria). Do lado republicano, são 2.429.

 

Parte dos delegados é obrigada a votar segundo o resultado de seu estado, enquanto outros são livres para escolher quem quiserem.

 

Se nenhum candidato alcançar a maioria dos delegados em uma única votação, novas rodadas são feitas, com outras regras: inclusão dos chamados "superdelegados" no caso democrata, que podem votar em quem quiser, até o limite de liberar todos os delegados a decidirem seu voto, independentemente dos votos de seu estado.