Clima extremo

Super El Niño: como ele interfere na nossa saúde e no que comemos e bebemos

Impacto de ondas de calor intenso inclui piora em quadros cardiorrespiratórios, proliferação de vetores de doenças, prejuízo na lavoura e risco de falta de água

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O calor forte pode afetar a saúde com a proliferação de doenças, aceleração da incubação de vetores de doenças, como o mosquito Aedes aegypti, demanda mais irrigação e consome mais eletricidade para manter ventiladores e aparelhos de ar-condicionado operando. O aquecimento também castigou regiões mineiras neste período de três meses de super El Niño em Minas Gerais. No Vale do Rio Doce, ocorreu o maior registro médio de dias seguidos de calor acima de 30°C, com índice de 4,2 dias, superando a média anterior, de 3,1 dias, em 2016.

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A região teve a quinta sequência histórica com mais dias de julho a setembro acima de 30°C. Foram seis dias seguidos em Mantena, a partir de 6 de setembro. Governador Valadares tem a média mais longa, de 12 dias neste nível de calor a partir de 12 de julho de 2016.


O calor contínuo provoca sobrecarga hemodinâmica no coração e risco agudo de insuficiência renal por desidratação (nefropatia por estresse térmico), de acordo como relatório conjunto “Ondas de calor e saúde”, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e Organização Meteorológica Mundial (OMM). Em 2023/2024 (ano de super El Niño), as internações por complicações cardíacas e renais saltaram 31,5% no Sudeste, e Minas Gerais respondeu por 24,8% de todas as hospitalizações da região.


“Em áreas ao leste de Minas Gerais e no norte do Espírito Santo, as temperaturas elevadas e a persistência da restrição hídrica poderão prejudicar a florada do café arábica, o desenvolvimento do café conilon e o estabelecimento das lavouras de grãos. Nas áreas com excesso de chuva, poderão ocorrer interrupções pontuais na colheita da cana-de-açúcar”, informa o Painel El Niño de setembro, elaborado conjuntamente pelos órgãos federais Inmet, Inpe, Cemaden, ANA, SGB, Sedec e Censipam.


Na Região Central de Minas Gerais, o município de Curvelo apresentou a quarta maior marca de dias seguidos com calor acima de 30°C para o período trimestral, com os cinco dias após 5 de agosto de 2026 com o registro desse patamar.


O mesmo município detém a pior marca, de seis dias, em 2016 e duas em 2017. Na média do período, a sequência de 1,8 dia de calor acima dos 30°C foi a segunda maior, atrás de 2 dias de sequência média do ano de 2019.


“A sobreposição entre estiagem prolongada, baixos índices de umidade relativa do ar e dispersão de material particulado resultante de queimadas potencializa o estresse das vias aéreas. Isso eleva a morbimortalidade (atendimentos médicos) por insuficiência respiratória aguda nas regiões sob influência direta de bloqueios atmosféricos”, aponta nota técnica conjunta “Riscos e danos respiratórios associados a eventos de seca


Na Zona da Mata, o ano de 2026 já teve uma amostra que pode estar relacionada com o Super El Niño, com o espaço entre os meses sob efeito do fenômeno tendo registrado cinco dias seguidos a partir de 5 de julho, com temperaturas acima de 30°C. A marca fez de 2026 o ano com a sexta sequência mais quente de julho a setembro, enquanto a média de dias acima da marca em 2026 foi a terceira maior, com 2,4 dias nessas condições de calor, perdendo para 2024 (também um ano de super El Niño), com 2,5 dias, e 2019, com 2,4 dias.


“As ondas de calor provocaram 50 mil mortes em 14 regiões metropolitanas do país de 2000 a 2020. Isso é 20 vezes maior do que as mortes por deslizamentos de terra no mesmo período; as ondas de calor ainda são um desastre completamente negligenciado”, adverte, com base em dados do SUS, a professora Renata Libonati, do Departamento de Meteorologia da UFRJ e integrante do comitê técnico da Organização Meteorológica Mundial.


“Para prevenir e mitigar eventuais impactos do fenômeno climático, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais informa ter estruturado o Plano de Enfrentamento ao El Niño, com foco no fortalecimento da vigilância epidemiológica e na capacitação das equipes de atenção primária. As diretrizes reúnem planos de resposta para secas, enchentes e emergências, além de protocolos para a abertura de salas de hidratação venosa contra arboviroses”, informou a pasta da Saúde de Minas Gerais, em nota oficial sobre o Plano de Enfrentamento ao El Niño.

Nível do reservatórios deve ser uma das preocupações, diante da  instabilidade no regime de chuvas, alta no consumo e evaporação
Nível do reservatórios deve ser uma das preocupações, diante da instabilidade no regime de chuvas, alta no consumo e evaporação Beto novaes/EM/D.A Press-29/9/15


Comitê de crise e plano de contingência da saúde


Para mitigar os impactos do El Niño, Minas Gerais articulou Defesa Civil e secretarias estratégicas como Saúde e Agricultura com verbas próprias e criou um comitê governamental de crise e um plano hospitalar regional. “No caso de ocorrer um desastre, já existe um plano de contingência da Saúde para ativação dos hospitais regionais, um plano de contingência aumentando suas equipes e leitos e fazendo uma reposição rápida de medicamentos e vacinas”, informa o coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende, coordenador da Cedec-MG.


A instabilidade pluviométrica exigiu ação conjunta da Defesa Civil com a Secretaria de Agricultura e a Emater para blindar a produção rural e contornar a quebra do calendário agrícola. Nas cidades, o repasse de kits com viaturas e equipamentos foi condicionado à criação de planos municipais que prevejam acolhimentos e evacuações em áreas de risco. Além dos planos de chuva, seca e riscos tecnológicos, o estado estruturou um quarto plano concentrado em educação comunitária, com base em parceria com Yamanashi, no Japão.


Usando modelagem climática global do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC-CMIP6), sob a orientação do professor Antoniel Fernandes, da PUC Minas, a reportagem do EM simulou alguns dos possíveis impactos de um super El Niño em Minas Gerais. O mecanismo de simulação projeta os reflexos de um aquecimento global moderado de 2°C e de anomalias térmicas superiores a 2°C no Oceano Pacífico Equatorial. O objetivo central é antecipar a amplificação drástica de extremos climáticos para subsidiar o planejamento preventivo do estado.


Os principais resultados indicam que o inverno e a primavera enfrentarão uma seca severa e prolongada, com solos ressecados por até 17 dias extras de estiagem e temperaturas quase 3°C mais altas. Em contrapartida, o verão seguinte registraria um aumento no volume total de chuvas, que cairão de forma violenta e concentrada em pancadas diárias intensas. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, as médias máximas da primavera podem subir de 29,5°C para 31,9°C, assemelhando-se ao clima quente de São Luís (MA).


O retardo na chegada das chuvas da primavera comprometeria severamente a gestão dos recursos hídricos e o abastecimento dos sistemas Paraopeba e Rio das Velhas, além de elevar drasticamente o risco de incêndios florestais nas áreas de vegetação seca. No setor agrícola, o atraso no plantio de grãos como soja e milho, somado ao aumento da evapotranspiração, exigirá uma ampliação expressiva na rotina diária de irrigação, pressionando reservatórios e ameaçando a subsistência de produtores e da agricultura familiar.


Nas regiões Norte, Jequitinhonha e Mucuri, o déficit hídrico será o mais acentuado do estado, com reduções drásticas nas chuvas de inverno e risco iminente de colapso no abastecimento humano e na pecuária extensiva. Em Montes Claros, as temperaturas máximas poderão saltar para 36,4°C, equiparando-se ao calor extremo de Teresina (PI). Regiões cafeicultoras, como o Sul de Minas, também enfrentariam riscos de abortamento de flores devido à combinação de seca e picos térmicos durante a florada.


Por fim, os impactos sanitários e urbanos incluem a proliferação de mosquitos vetores de dengue, zika e chikungunya no Vale do Rio Doce, além de inundações e deslizamentos generalizados. Para mitigar esses cenários, órgãos como a Copasa e o Igam mantêm monitoramento contínuo e investimentos em obras de segurança hídrica, enquanto a Defesa Civil capacita agentes e distribui kits de atendimento rápido aos municípios.

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Super El Niño

É o nome dado aos episódios excepcionalmente intensos do El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico. Não se trata de uma categoria oficial com critérios universais, mas de uma expressão usada por cientistas e pela imprensa quando o aquecimento alcança níveis muito acima da média e provoca impactos amplos na circulação atmosférica. Em geral, esses eventos alteram padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo, elevando o risco de secas, enchentes, ondas de calor e perdas agrícolas. No Brasil, os efeitos variam conforme a região e a época do ano: o Sul pode enfrentar chuva excessiva, enquanto áreas do Norte e do Nordeste estão sujeitas a calor e estiagem mais intensos. A força dos impactos, porém, não depende apenas da temperatura do Pacífico; fatores locais, mudanças climáticas e outros sistemas atmosféricos também influenciam cada episódio.

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