Clima extremo

Super El Niño: os sinais já estão no ar em Minas. E são preocupantes

Análise do EM indica que fenômeno já coincide com chuvas e calor maiores que a média histórica e com tempestade que castigou BH no último domingo de outubro

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Um presságio do que poderá ser o super El Niño? A tempestade que deixou mais de 221 mil unidades consumidoras sem energia no domingo de eleições (25/10) em Belo Horizonte teve ventanias de 90 km/h que derrubaram árvores e telhados. Nos últimos 10 anos, a média mais intensa desses ventos tinha sido de 56,88 km/h, em 2021, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).

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Outubro inaugura a temporada de chuvas, mas mesmo na estiagem o El Niño já pode ter mostrando sua força – a previsão é de que o fenômeno possa aumentar em 3,8°C a temperatura global, estabelecendo um novo recorde, já que o anterior foi 3,2°C entre 2015/2016.


Antes mesmo do início oficial da temporada das águas, chuvas intensas em Belo Horizonte e em Juiz de Fora chegaram a despejar cerca de 80 milímetros de água em uma hora, com ameaças de alagamentos e deslizamentos de encostas. As médias de tempestades em 60 minutos foram as mais expressivas no Sul de Minas, Triângulo Mineiro e Zona da Mata, além de muito impactantes na Região Central do estado. No Vale do Rio Doce, a sequência de dias com temperaturas acima dos 30°C já é a mais longa.


Desde julho de 2026, a agência norte-americana Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, que monitora as condições para a formação do El Niño, já estima em 100% a vigência do fenômeno muito forte, chamado vulgarmente super El Niño. E os padrões de julho a setembro de chuvas em pancadas e temperaturas elevadas dão sinais desses efeitos em Minas Gerais.


Para tentar responder se o estado já enfrenta impactos do super El Niño, a reportagem do Estado de Minas recorreu a dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), entre os meses de julho e setembro de 2026, e comparou as estatísticas com as dos mesmos três meses nos anos da década anterior – um período que possibilitou a maior abrangência de estações automáticas para ajudar na comparação mais recente, embora seja insuficiente para estabelecer padrões meteorológicos, que demandam 30 anos de amostras.


O super El Niño é um evento meteorológico provocado pelo aquecimento atípico das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, acima de 1,5°C a 2°C. A mudança na temperatura altera a circulação atmosférica em todo o planeta, intensificando extremos.


“Os modelos indicam probabilidade de 100% de permanência dessas características até, pelo menos o início de 2027, com temperatura podendo superar 2,5°C da média histórica”, indica o Painel El Niño 2026-2027, lançado pelo Inmet, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), entre outros.


“No Nordeste, o maior destaque em 2026 é o registro de seca grave em 16% da região, evidenciando o quadro mais severo no país. O destaque para o Norte, em agosto, foi o rápido agravamento das condições de seca nos estados de Roraima, Acre e Amazonas. Há relatos de municípios com dificuldades na captação de água e comprometimento da navegação”, destaca o painel.


“No Sudeste, há registro de seca fraca e moderada, com as temperaturas nos próximos meses acima da média, favorecendo a perda de umidade do solo. No Sul, o principal risco é a ocorrência de grandes inundações”, indica o painel federal.


Segundo o levantamento feito pelo EM, o recorde de 79,2mm de chuva em uma hora, na região Central de Minas, entre julho e setembro de 2026, se deu em Belo Horizonte, em 3 de julho. Para se ter uma ideia, se esse volume caísse em uma quadra de basquete (420 m²) e fosse totalmente canalizado, poderia encher uma carreta-tanque de 33 mil litros de capacidade.


O recorde anterior na mesma época era de 2018, quando o município de Três Marias registrou 70,2 mm/h em 12 de julho. A média de chuvas máximas por hora entre julho e setembro de 2026 também impressiona e é a segunda maior desde 2016, com 3,2 mm/h. Só foi superada pela média de 3,3 mm/h em 2021.


As regiões de maior risco em BH e outras cidades


Belo Horizonte concentra 2,3 milhões de habitantes sob risco hidrológico alto e geológico médio nas bacias dos ribeirões Arrudas, Onça e Pampulha, de acordo com o modelo de inteligência artificial e riscos associados a impactos dosuper El Niño desenvolvido pelo Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) e publicado com exclusividade pelo EM. A mancha de vulnerabilidade urbana se repete em Contagem, com 621 mil moradores na área de influência do Arrudas, e em Betim, com 411 mil cidadãos ameaçados pelas cheias do Rio Betim.


O acúmulo de chuvas extremas e bolsões d'água na capital favorece criadouros do Aedes aegypti em áreas de lixo e entulho. No último super El Niño (2023/2024), BH registrou 3.339 internações por arboviroses — um salto de 605,9% em relação ao período sem o fenômeno (2018/2019), tornando-se o nono município mais crítico da região metropolitana, segundo o Ministério da Saúde.


Em Juiz de Fora, na Zona da Mata, as chuvas foram ainda mais intensas, com 88,8 mm registrados em 2 de julho de 2026. O segundo maior volume diário de chuva no mesmo período foi de 87,6 mm, em Viçosa, em 3 de julho de 2024, também um ano de super El Niño.


Na Zona da Mata como um todo, a precipitação máxima em uma hora no período também foi a maior desde 2016, com média de 3,2 mm/h contra 2,3 mm/h do ano de 2021. O mesmo ocorreu no Sul de Minas, onde de julho a setembro a chuva máxima em uma hora chegou à média de 2,4 mm/h, superando a maior marca anterior, de 2,3 mm/h de 2021.


O relevo acidentado e as moradias precárias em locais como Juiz de Fora se mostraram componentes de uma tragédia em caso de chuvas intensas como as de fevereiro e março de 2026, quando 66 pessoas morreram no município de 570 mil habitantes e 4 mil ficaram desalojadas ou desabrigadas. São condições que exigem a remoção preventiva e forçada de famílias antes da consolidação de temporais prolongados.


“É importante ter clareza de quais são as áreas de risco do município e do tratamento a ser adotado. Teremos casos em que famílias necessitam ser removidas porque há a possibilidade concreta de a residência vir a ser engolida pela terra ou soterrada em um deslizamento”, adverte o coronel Paulo Roberto Bermudes Rezende, chefe do Gabinete Militar do Governador e da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec-MG).


No Triângulo, as médias de volume máximo de chuvas por hora também foram as mais expressivas do período pesquisado, com marca de 3,7 milímetros em 2026, superando fortemente a segunda mais volumosa média, que ocorreu no ano de 2019, quando foram computados 2,9 mm/h.


Em termos de maior volume médio de temporais ininterruptos (chuva sem intervalos), o Triângulo Mineiro se destacou em 2026, com a marca de 6,1 mm em média, superando o maior volume acumulado anterior na região, de 4,7 mm de 2018.


O Alto Paranaíba registrou a sua segunda mais volumosa média de temporais do histórico de três meses em 2026, quando atingiu 5,1 mm, perdendo apenas para os temporais sequenciais de 2022, que atingiram 5,3 mm.


O último ciclo (2023/2024) provocou a maior epidemia nacional de dengue na história (6.563.561 casos e 6.321 mortes em 2024 no país). Minas Gerais atingiu nível crítico, com 25.995 internações (+550,5% sobre 2018/19), concentrando 53,5% de todos os hospitalizados do Sudeste e 27% do Brasil. Para 2027, projeta-se novo alerta, com cerca de 1,7 milhão de casos no país e alta de 61,4% no Sudeste, segundo nota técnica do Ministério da Saúde e da Fiocruz.


OS RISCOS NO AGRO

O Triângulo Mineiro e o Alto Paranaíba respondem pela produção de 3,5 milhões de toneladas de soja, o que representa 58% de toda a safra do estado. O cultivo de milho, grão essencial para a sustentação das cadeias de proteína animal, também está sujeito a quebras importantes. As regiões concentram uma produção de 2,5 milhões de toneladas de milho, correspondendo a 32% do volume colhido em Minas Gerais, segundo levantamento de vulnerabilidades em Minas Gerais a impactos agropecuários com um super El Niño, da Uniasselvi.


Professor dos departamentos de Geografia e de Ciências Biológicas da PUC Minas, Antoniel Fernandes considera que o monitoramento dos dados dos primeiros meses de super El Niño é relevante, mas que o comparativo histórico é limitado, pois as estações automáticas têm um histórico ainda pequeno, de 10 a 15 anos, quando o ideal seria de cerca de 30 anos. “Os 10 anos do levantamento são um bom intervalo de tempo, que possibilita ter uma noção, mas, para se extrair as condições climáticas de um lugar, a Organização Meteorológica Mundial pede um intervalo de 30 anos para se chegar a uma normal climatológica”, afirma.


O professor conta que há oito estações instaladas em vários câmpus da PUC e por meio deles tem sido observado o comportamento do fenômeno. “Fui olhar o valor de uma delas na Fazenda Experimental de Esmeraldas (Região Metropolitana de Belo Horizonte), e no dia 5 (de outubro) a chuva foi de quase 100 mm. Um volume mais intenso, que causa danos e preocupa mais as autoridades”, destaca Fernandes.

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O professor investiga se o padrão de chuvas deste El Niño poderá ser diferente dos demais, mas ainda precisa de mais tempo para consolidar a avaliação. “As chuvas se anteciparam um pouco. Geralmente ocorrem mais para o finalzinho de setembro, uma chuva menos volumosa e no finalzinho de outubro já começam as chuvas mais volumosas. E o que a gente percebeu é que setembro trouxe um pouco mais de chuva em relação à normal climatológica”, avalia o professor da PUC Minas.

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