Minas Gerais se prepara para um possível novo ano epidêmico de dengue em 2027. A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MG) alerta que a doença pode atingir todas as regiões do estado, em um cenário que pode ser agravado pela influência do El Niño, fenômeno climático associado à elevação das temperaturas e a alterações no regime de chuvas.
O alerta foi feito pelo secretário de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, durante a Jornada Mineira de Arboviroses 2026, realizada nesta terça e quarta (27 e 28/10) na Cidade Administrativa, em Belo Horizonte.
“Temos a convicção de que, provavelmente, o estado inteiro vai sofrer de dengue no próximo ano”, afirmou o secretário. Segundo ele, o comportamento climático observado em 2026 se aproxima daquele registrado no ano que antecedeu a última grande epidemia. Se o padrão se repetir, 2027 poderá ser marcado por uma nova explosão de casos.
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O calor também pode acelerar o ciclo de reprodução do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika. Baccheretti lembrou que, há três anos, as altas temperaturas tiveram influência na proliferação do vetor.
“O super El Niño é um fator atípico e fundamental na proliferação do mosquito. A gente percebe que tem mais pernilongo voando perto da gente. Isso está acontecendo de novo”, relatou. Ele ponderou, entretanto, que nem todo mosquito observado é necessariamente da espécie transmissora ou está infectado com algum vírus.
Outro fator de preocupação é o ambiente doméstico. De acordo com o secretário, aproximadamente 85% dos focos de reprodução do mosquito estão dentro das residências. “Altas temperaturas e chuva são uma combinação para a proliferação do mosquito Aedes aegypti”, destacou.
Até outubro de 2026, Minas Gerais registrou 65.005 casos prováveis de dengue, dos quais 48.403 foram confirmados. O estado contabilizou 52 mortes pela doença. Em relação à chikungunya, foram 15.384 casos confirmados e seis óbitos. Já a zika somou 13 casos confirmados, sem registro de mortes.
O histórico recente também ajuda a dimensionar o desafio. Em 2024, Minas Gerais registrou 1.668.718 casos prováveis de dengue, o maior número da série histórica apresentada no boletim estadual.
Drones para localizar criadouros
A preparação para o próximo período sazonal envolve a mobilização dos municípios, o monitoramento territorial e o fortalecimento da assistência em saúde. Entre as principais ferramentas está a Política VigiDrones, que recebeu aproximadamente R$ 30,5 milhões em investimentos para serviços de geomonitoramento, mapeamento e tratamento de possíveis criadouros do mosquito.
Em maio de 2026, após a conclusão do segundo ciclo de monitoramento, a SES-MG havia realizado sobrevoos em aproximadamente 497 mil hectares de áreas urbanas e identificado mais de 334 mil pontos de interesse.
Segundo Baccheretti, a tecnologia permite localizar entulhos em terrenos baldios, caixas d'água destampadas e recipientes em locais de difícil acesso. Os drones também podem auxiliar na aplicação de larvicidas em pequenos depósitos de água que não podem ser alcançados pelos agentes de combate às endemias.
“Além de localizar e avisar ao município onde o agente de combate às endemias tem que atuar, a gente consegue, num copo bem pequeno, aplicar uma pastilha de larvicida”, explicou.
O secretário ressaltou que a estratégia não substitui o trabalho presencial dos agentes, que precisam continuar realizando visitas domiciliares. A limpeza urbana também integra o conjunto de ações, com retirada de lixo e entulhos que possam acumular água.
Outra frente é a utilização dos fumacês, cuja operação foi descentralizada para aproximar os equipamentos dos municípios e permitir respostas mais rápidas. A estratégia inclui ainda ações da Vigilância Ambiental e da Vigilância de Desastres, em articulação com a Defesa Civil e as forças de segurança.
Nos últimos anos, o governo estadual investiu aproximadamente R$ 300 milhões no enfrentamento das arboviroses. Os recursos contemplam vigilância epidemiológica, aquisição de medicamentos e insumos, controle vetorial e apoio aos municípios. Baccheretti também afirmou que mais de R$ 100 milhões são vinculados direta e indiretamente ao enfrentamento da dengue anualmente.
Vacinação contra dengue
A vacinação é outra frente considerada fundamental para reduzir os casos graves e as mortes. Atualmente, a estratégia de imunização com a vacina Qdenga, disponibilizada pelo SUS, contempla crianças e adolescentes de 10 a 14 anos, em esquema de duas doses.
Segundo Baccheretti, a maior parte do público elegível ainda não completou o esquema vacinal. “A maior parte dessas crianças tomou apenas uma dose. Significa que temos doses paradas e crianças não protegidas ou parcialmente protegidas”, afirmou.
Dados da SES-MG mostram que, em 2025, foram aplicadas 441.433 doses na população de 10 a 14 anos. Em 2026, entre janeiro e outubro, foram administradas 612.997 doses em todos os públicos elegíveis. Desde 2024, aproximadamente 1,8 milhão de doses foram distribuídas aos municípios mineiros, das quais mais de 1,4 milhão já foram aplicadas.
O secretário também destacou a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, aplicada em dose única e com potencial para ampliar a faixa etária atendida. Baccheretti demonstrou expectativa pela conclusão dos estudos e pela possibilidade de imunização de pessoas de até 60 anos. “Se a vacina for liberada, vamos correr em Minas Gerais para que a gente consiga proteger a população antes mesmo do próximo ano, que pode ser epidêmico”, declarou.
A Butantan-DV foi aprovada pela Anvisa e começou a ser aplicada em 2026, inclusive em Nova Lima, na Grande BH. Em junho, porém, o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan interromperam temporariamente a estratégia para reavaliar questões de segurança, após a identificação de eventos adversos. Atualmente, o imunizante é indicado para pessoas de 12 a 59 anos, em dose única, e a ampliação depende de novas avaliações das autoridades sanitárias e de eventual retomada da vacinação.
Sobre a chikungunya, Baccheretti informou que cerca de 70 mil pessoas já haviam recebido a vacina no Brasil. Segundo ele, estudos apontam proteção superior a 93% mesmo após cinco anos. Aplicado em dose única, o imunizante está disponível em municípios mineiros como Sabará, Congonhas e Nova Lima.
Atendimento e prevenção de mortes
Além das ações de prevenção e vacinação, a Secretaria de Estado de Saúde pretende reforçar a capacitação dos profissionais para identificar os sinais de agravamento da dengue e oferecer atendimento adequado aos pacientes.
“Em Minas Gerais, consideramos que toda morte vinculada à dengue é uma morte evitável”, declarou. Segundo ele, a principal medida terapêutica é a hidratação, que pode ser realizada por via oral ou intravenosa, dependendo da gravidade e da necessidade de cada paciente.
O secretário destacou que Minas Gerais alcançou a menor letalidade de sua história em relação à doença, mas ressaltou que o resultado não elimina a necessidade de aperfeiçoar o atendimento.
“Mesmo fazendo tudo isso, os focos estão em casa. Vai ter dengue. Não tenha dúvida. Nós moramos em um país tropical, que tem chuva e sol, e a dengue vai fazer parte do que existe com o mosquito”, afirmou.
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A expectativa da SES-MG é que o período de maior incidência ocorra entre fevereiro e março. A preparação antecipada busca evitar sobrecarga nos hospitais e nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), além de manter a letalidade em níveis baixos mesmo diante de um eventual aumento expressivo de casos.
