Praça de memórias
Congresso Eucarístico Nacional, realizado em BH há 90 anos, marcou a história da Igreja Católica e abriu novo espaço público na cidade. Mecânico se lembra da inauguração da Raul Soares, que recebeu milhares de pessoas durante o evento
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Testemunha de fatos importantes ocorridos durante quase um século em Belo Horizonte, o mecânico Nilton José Rancanti tem boas lembranças da infância passada na Região Centro-Sul. Entre elas, a realização do 2º Congresso Eucarístico Nacional, em 1936, na Praça Raul Soares, espaço público inaugurado especialmente para receber o evento que marcou a história da Igreja e movimentou a capital mineira. “Fui com minha mãe, e me lembro de ver muita gente lá. Fizeram um altar gigante entre as avenidas Bias Fortes e Amazonas”, conta Rancanti, de 97 anos, neto de imigrantes italianos – era filho de Alzira Cesarina, a dona Lilia, e de Antônio Vitório.
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Com apenas sete anos, o menino já andava sozinho por BH, mas desta vez foi acompanhado da mãe, e o “muita gente” que ele diz faz todo sentido, pois estiveram presentes milhares de pessoas. A conversa com Rancanti, nascido no Bairro Santo Antônio e hoje morador do Barreiro de Baixo, na Região do Barreiro, nos conduz a uma viagem pelo tempo a bordo dos 90 anos do 2º Congresso Eucarístico Nacional (o primeiro foi em Salvador, Bahia, três anos antes). A praça foi inaugurada logo na abertura do encontro realizado de 3 a 7 de setembro de 1936.
De acordo com a Arquidiocese de BH, um enorme altar ocupou parte considerável da Raul Soares durante as celebrações coordenadas pelo bispo dom Antônio dos Santos Cabral, o dom Cabral (1884-1967). Ao se transformar em “Capital Eucarística”, a então pacata BH ganhava novos ares com o grande movimento nas vias públicas. No meio de reflexões teológicas e práticas, se fortaleceu a ideia de que era necessário erguer uma catedral.
Hoje, o “coração” da Arquidiocese fia na Catedral Cristo Rei, no Bairro Juliana, na Região Norte. Outro legado foi a implantação da Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento, na Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, atual Santuário Arquidiocesano da Santíssima Eucaristia. No Memorial Arquidiocesano, há peças sacras usadas no congresso, como um cálice, e os paramentos de dom Cabral.
TEOR PROFÉTICO
O encontro em BH teve um “teor profético”, apontando para as reformas propostas pelo Concílio Vaticano II, que só viria a ocorrer quase três décadas depois, em 1963. Com o tema “Lux et Vita” (“Luz e Vida”), o Congresso Eucarístico Nacional de 1936 consolidou a participação dos leigos não só no âmbito da sociedade, mas no corpo da Igreja Católica, abrindo o caminho que mais tarde resultaria em uma das principais indicações nas reformas propostas pelo Concílio Vaticano II.
Na programação, houve palestras proferidas por intelectuais católicos, publicação de livros para auxiliar a participação dos diversos segmentos presentes no evento, e composição de um hino, composto por um padre alemão, professor de música em Juiz de Fora. Na cerimônia de encerramento, estiveram presentes o governador Benedito Valadares, o prefeito Otacílio Negrão de Lima e representantes do clero brasileiro.
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EXPOSIÇÃO EM TRÊS TEMPOS DESTACA...
“Passado, Presente, Futuro – Memória Viva de Minas” é o nome da mostra, em cartaz até 15 de dezembro em Belo Horizonte, para celebrar os 55 anos do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha-MG). Fotografias, plantas e documentos apresentam aos visitantes momentos da trajetória do instituto e sua atuação na defesa e promoção do nosso patrimônio cultural. Segundo a direção do Iepha-MG, que é vinculado à Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult-MG), a exposição também destaca a abrangência das políticas de proteção do patrimônio cultural no estado, as quais alcançam os 853 municípios mineiros por meio de iniciativas – entre elas, o Programa ICMS Patrimônio Cultural (em vigor há 31 anos) idealizado para fortalecer a participação dos municípios na gestão e preservação de suas referências culturais.
...OS DESAFIOS DA PRESERVAÇÃO
Criado em 30 de setembro de 1971, o Iepha-MG desenvolve ações de identificação, proteção, preservação e valorização dos bens culturais materiais e imateriais do estado. Ao longo de sua história, realizou inventários, acompanhou intervenções e obras de restauração, promoveu pesquisas e publicações e conduziu iniciativas de educação e difusão do patrimônio cultural. Assim, a exposição integra a programação comemorativa dos 55 anos e propõe uma reflexão sobre a trajetória da instituição, sua atuação no presente e os desafios para o futuro da preservação cultural em Minas. Confira os horários para visitação da mostra “Passado, Presente, Futuro – Memória Viva de Minas”: até 15 de dezembro de 2026, de segunda a sexta-feira, exceto feriados, das 10h às 17h, no segundo andar do Prédio Verde, sede do Iepha-MG, na Praça da Liberdade, em BH.
PAREDE DA MEMÓRIA
E já que destacamos o 2º Congresso Eucarístico Nacional, cuja abertura em 3 de setembro de 1936 marcou a inauguração da Praça Raul Soares, vamos falar um pouco sobre esse importante espaço público de BH, hoje polo de lazer, cultura e gastronomia. A foto ao lado é de 1954, quase duas décadas após o evento. Inicialmente denominada Quatorze de Setembro, a praça tem traçado de autoria do arquiteto Érico de Paula, que usou elementos geométricos nas calçadas portuguesas em referência à cultura marajoara. Tombada, em 1988, pelo Iepha e, duas décadas depois, pelo município, como patrimônio cultural de BH e integrante do Conjunto Urbano Praça Raul Soares – Avenida Olegário Maciel, ela começou a ganhar forma em 1929. O nome homenageia o ex-governador de Minas, Raul Soares (1877-1924), empossado em 1922. Além de político, era advogado, escritor e professor.
RESTAURAÇÃO
Novidade na Catedral de Mariana. Foi apresentada aos fiéis, pelo padre Geraldo Dias Buziani, da Arquidiocese de Mariana, a imagem restaurada de Nossa Senhora do Rosário, destaque de um dos altares laterais do templo localizado no Centro Histórico da cidade. Serviço feito pela empresa Nártex Restauração e Consultoria em Patrimônio, com apoio da Prefeitura de Mariana, via Secretaria de Patrimônio Cultural e Turismo, e do Conselho Municipal de Proteção ao Patrimônio Cultural. Durante as prospecções, etapa que antecede o processo de restauro, foi identificada a policromia original da peça também conhecida por Nossa Senhora do Terço. A pintura que cobria a escultura até então era, provavelmente, do final do século 19 e não correspondia às características da talha. A partir da descoberta, a policromia original foi recomposta, permitindo que o objeto de fé recuperasse características de sua concepção inicial.
ANCESTRALIDADE
Em reverência à memória de Dona Rosinha e Dona Tita, falecidas em junho e símbolo de resistência, ancestralidade e atuação comunitária no Quilombo Morro Santo Antônio, em Itabira, o 6º Flitabira - Festival Literário Internacional de Itabira, que acontece de quinta a domingo (29/10 a 1/11), terá momento especial para lembrar as duas mulheres. Na sexta-feira (30), às 21h15, haverá a mesa “Homenagem a Dona Rosinha e Dona Tita”, com a participação da escritora Conceição Evaristo e de representantes das famílias, sob mediação de Sérgio Abranches. Dona Rosinha, que também se dedicou à escrita, é autora de “Memórias do meu Quilombo”, em que registra histórias e experiências da comunidade quilombola e tem prefácio de Conceição Evaristo.
MINAS DA FÉ
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O Programa Minas da Fé – Inventário dos Bens Culturais Vinculados à Tradição Católica em Minas Gerais está com seis cadastros abertos. Conheça os objetivos: estimular a identificação, documentação, reconhecimento e salvaguarda de bens culturais materiais e imateriais vinculados à religiosidade popular católica, às paisagens sagradas, aos lugares de fé, às formas de organização devocional, à cultura da promessa e às celebrações presentes no nosso território. Iniciativa da Secult-MG, via Iepha. Os inventários abrangem bens, referências, práticas, manifestações, celebrações, organizações, objetos, acervos, documentos, lugares, itinerários e paisagens relacionados à fé católica, independentemente de sua propriedade formal ou tutela institucional. Os cadastros estão disponíveis no site do Iepha-MG.