Riscos sociais de alagamentos e deslizamentos que pesam sobre quase um quarto dos mineiros reunidos nas maiores cidades da Grande Belo Horizonte, do Vale do Rio Doce, do Centro-Oeste, do Triângulo e do Norte de Minas. Quebras com a seca em safras de feijão, soja, milho, frutas e mandioca. E, com chuvas irregulares, nas colheitas de café, batata e hortaliças. Redução da produção do gado leiteiro, de corte e da postura de ovos. Essas são ameaças concretas trazidas pela previsão de um super El Niño, contra as quais o estado aposta na atuação intersetorial de um conselho e de um plano estadual de enfrentamento aos efeitos do fenômeno climático.


A partir de programas e de agentes de inteligência artificial, cientistas do Centro Universitário Leonardo da Vinci (Uniasselvi) mapearam vulnerabilidades brasileiras frente à ação do super El Niño de 2026 a 2027, em processo que considerou dados de institutos e órgãos governamentais mais renomados em termos mundiais, nacionais e locais. O trabalho indicou com exclusividade para o Estado de Minas onde os impactos climáticos poderão ser mais severos em Minas Gerais.


“Os modelos indicam probabilidade de 100% de permanência do fenômeno até, pelo menos, o início de 2027, com alta probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte, quando as anomalias/desvios de temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial poderão ficar acima de 2°C, entre a primavera e o verão”, aponta o Painel El Niño do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), do Serviço Geológico do Brasil (SGB), da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec) e do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).


Chuva mal distribuída


A distribuição das precipitações pelo território nacional seguirá um padrão de forte desigualdade regional durante o trimestre de primavera, aponta o painel. Ao projetar o comportamento das frentes de chuva, o documento interinstitucional estima que “a previsão para o trimestre setembro-outubro-novembro de 2026 indica, de forma geral, chuvas acima da média em áreas da Região Sul e chuvas abaixo da média no centro-norte do País”, estima o trabalho conjunto.


Para alcançar resultados detalhados sobre os possíveis efeitos do fenômeno, o braço tecnológico da pesquisa acadêmica precisou integrar grandes massas de dados governamentais em uma estrutura computacional unificada. Explicando o método de desenvolvimento da modelagem, o pesquisador Fábio Henrique Moisés, graduando de engenharia de software e mestrando em educação científica ambiental pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), afirma que “a inteligência artificial pode apoiar a classificação de riscos, detecção de anomalias, integração de séries temporais, previsão de vazão, priorização de inspeções e elaboração de cenários, desde que preservadas fontes, localidades e incertezas”. O trabalho científico contou ainda com o acadêmico de engenharia de software da Uniasselvi e coautor Matheus Fernando Cunha.


O propósito do sistema é fornecer subsídios científicos ágeis para que tomadores de decisão pública possam mitigar o impacto de eventos climáticos severos. Tratando da relevância de criar mecanismos tecnológicos, o orientador da pesquisa, Pedro Sidnei Zanchett, relata que “há espaço para desenvolvimento de Sistemas de Suporte à Decisão especificamente concebidos para o gerenciamento de desastres, capazes de atuar como uma camada de integração entre os dados e o apoio ao processo decisório”, avalia o doutor, coordenador do curso de tecnologia e professor de engenharia de software da Uniasselvi.


Alerta regionalizado


O monitoramento integrado feito pelos cientistas identificou de forma clara as regiões brasileiras que acumulam as maiores vulnerabilidades perante as anomalias do El Niño. Sintetizando o panorama de riscos identificados no ecossistema digital, o estudo técnico da instituição aponta que “o Sul apresenta atenção nas cheias, o Sudeste exige vigilância de bacias específicas pela seca, o Centro-Oeste prioriza a estiagem acumulada e o fogo, e o Norte e Nordeste enfrentam severa vulnerabilidade hídrica”, compara o professor Pedro Zanchett.


No cenário específico de Minas Gerais, a transição climática tende a ser caracterizada por desequilíbrios na distribuição da umidade, que trarão sérios desafios ao campo. Avaliando as perspectivas gerais para o estado, o documento de análise preliminar contextualiza que “Minas Gerais entra na primavera de 2026 com sinal robusto de calor acima do normal e risco aumentado de seca, fogo e chuva mal distribuída; não há previsão confiável de seca homogênea em todo o estado”, descreve o estudo reginal da Uniasselvi sobre o super El Niño.


Alarme disparado para queimadas


De acordo com o estudo da Uniasselvi, este mês de setembro acenderá o sinal de alerta para queimadas e degradação da umidade do solo em setores específicos do estado. Detalhando os riscos de curto prazo para as mesorregiões mineiras, o relatório acadêmico aponta que “setembro apresenta risco mais claro de calor anômalo, baixa umidade, solo seco e queimadas, sobretudo no Norte de Minas e em partes dos vales do Jequitinhonha e do Mucuri”.


As projeções para o mês de outubro indicam que a regularização das chuvas de verão poderá falhar, gerando forte estresse hídrico na implantação da safra. Projetando os impactos da transição sazonal, o levantamento descreve que “em outubro, o principal risco relevante é o atraso ou a falha na regularização da estação chuvosa, pressionando abastecimento, pastagens, lavouras de sequeiro e o preparo da safra de verão”.


Em novembro, o comportamento do clima tende a se tornar ainda mais instável e perigoso, combinando picos de calor extremo com precipitações violentas, avalia o estudo da Uniasselvi. Caracterizando essa dinâmica atmosférica instável, o documento acadêmico informa que “novembro aumenta a chance de uma combinação antagônica: calor persistente e chuva irregular, com ondas de calor intercaladas por episódios chuvosos, o que eleva o estresse hídrico entre uma chuva e outra”.


Entre seca e tempestade


No encerramento do ano, estiagens de curta duração devem continuar a castigar lavouras comerciais, alternando-se com temporais concentrados. Projetando o encerramento do quadrimestre, o relatório técnico da Uniasselvi aponta que “dezembro segue sendo de início de verão potencialmente mais quente e de precipitação menos regular, com tendência de alternância entre estiagens curtas ou prolongadas e chuvas intensas”.


O monitoramento detalhado revelou que grandes cidades mineiras enfrentam alto risco de sofrer alagamentos repentinos devido à concentração de tempestades em períodos curtos. Mapeando as maiores aglomerações urbanas do estado, a base de dados indica que “a Região Metropolitana de Belo Horizonte concentra as maiores cidades com alto risco de enchentes e inundações, onde temporais causam alagamentos de vias e isolam moradores”.


Na capital mineira, o transbordamento de cursos d'água urbanos representa um risco consolidado que demanda ações contínuas de contingenciamento da Defesa Civil. Detalhando a situação do principal polo urbano estadual, a planilha estatística registra que Belo Horizonte tem população de 2 milhões e 315 mil habitantes sob a influência do Ribeirão Arrudas, Ribeirão Pampulha, Ribeirão da Onça e seus afluentes, apresentando alto risco de enchentes e médio de deslizamentos, segundo a pesquisa da Uniasselvi.


Atenção na Grande BH


Municípios vizinhos integrados ao cordão industrial da Grande BH compartilham o diagnóstico crítico de vulnerabilidade socioambiental. Analisando as condições de contorno das cidades-satélite, o levantamento aponta que Contagem, com o Ribeirão Arrudas cortando o território, conta com 621 mil habitantes sob alto risco de enchentes e médio de deslizamentos após tempestades severas.


O transbordamento de calhas fluviais em áreas densamente povoadas historicamente pode resultar em decretos de emergência e desalojamento de famílias em locais vulneráveis. Verificando o histórico de desastres na região Oeste da Grande BH, a base de dados indica que Betim tem população de 411 mil habitantes sujeitos a impacto pelas cheias do Rio Betim, com alto risco de enchentes e médio risco de deslizamentos.


A calha de rios federais e estaduais que cortam municípios históricos da Região Metropolitana de BH também exige monitoramento constante durante o período de chuvas intensas. Avaliando os pontos de estrangulamento de drenagem a jusante, a planilha estatística detalha que Santa Luzia e Sabará, cortadas pelo Rio das Velhas, somam alto risco de enchentes e risco médio de deslizamentos, acumulando histórico de inundações nas áreas ribeirinhas.


Risco de inundações


Os vales do Leste e do Norte de Minas Gerais também reúnem pontos críticos onde a infraestrutura urbana é severamente testada pela força das enxurradas. Identificando as principais cidades polo sob risco elevado nas demais regiões, o banco de dados pontua que Governador Valadares, Ipatinga e Coronel Fabriciano, no Vale do Rio Doce, estão expostas a alto risco de enchentes e risco médio de deslizamentos devido à influência das bacias locais.


Cidades populosas localizadas em zonas de transição morfológica sofrem com cheias severas que atingem cotas de transbordamento muito acima da normalidade. Ampliando o mapeamento para os vales do Norte e Nordeste do estado, a planilha quantitativa aponta que Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, Almenara, no Vale do Jequitinhonha, e Januária, no Norte de Minas, apresentam alto risco de enchentes urbanas.

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Grandes polos econômicos do Triângulo Mineiro e do Centro-Oeste também registram pontos sensíveis de inundação, embora o relevo local suavize os problemas de encostas. Detalhando a vulnerabilidade das principais cidades produtoras, o banco de dados indica que Uberlândia e Divinópolis enfrentam alto risco de enchentes, associado à presença de rios urbanos perigosos, e baixo risco de deslizamentos de terra.

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